terça-feira, 4 de abril de 2017

Se você falhar....


Uma das primeiras coisas que eu faço quando acordo é checar a frase de positividade do aplicativo que utilizado para esse fim. Na maioria das vezes ajuda a lembrar a me manter no aqui e agora e com o pensamento um pouquinho mais animador, mas, nem sempre funciona, pois as frases, muitas vezes me trazem a sensação de raiva, tristeza ou abandono. Hoje a frase foi "não se puna se você falhar". A questão não é nem se você falhar, mas quando. Inevitavelmente, falhamos. Até onde me consta somos todos humanos (exceto os robôs) e estamos todos sujeitos a dor, sofrimento, a morte, e a cometer erros. Convivendo muitos anos com um transtorno de personalidade como o meu, eu desenvolvi profunda desconexão comigo mesma, portanto tudo o que consegui sentir em relação a mim foi o que aprendi observando a reação das pessoas, de uma família disfuncional, ambiente abusivo e de uma mente distorcida. Eu sempre senti ódio, desgosto, desprezo por mim. Isso, infelizmente, ainda não mudou muito. Mas eu aprendi algo muito valioso chamado compaixão. 

Como eu disse na postagem anterior, a compaixão tem sido algo essencial na minha vida, ultimamente. É muito fácil desenvolvê-la pelas outras pessoas, mas quando se trata de mim mesma, eu considero quase impossível, pois o meu "eu" parece difícil de ser alcançado. Quando li a frase "não se puna se você falhar", eu me lembrei de todas as vezes que eu falhei, e fui punida quando criança. Severamente punida. A punição não era proporcional a falha, mas lá estava eu, sendo punida por algo que não era necessário. Por causa disso, eu aprendi, por associação, que isso era o "certo", pequenos erros, grandes erros, médios erros, isso não fazia diferença, todos deveriam ter a mesma punição exagerada. Até que a compaixão começou a definitivamente fazer parte do meu dia a dia. Parecia natural - e confortável - para mim, não ser punida por nenhum erro, mas sim, tomar a responsabilidade. São coisas bem diferentes. 

Quando eu era punida, eu só conseguia entender que eu era uma pessoa ruim e fazia tudo errado. Quando eu tomo a responsabilidade, eu consigo enxergar que eu cometi um erro e se eu puder consertá-lo, eu faço, se não, eu peço desculpas, e tento outro caminho. Isso não quer dizer que sou uma pessoa ruim, apenas humana, pois todas as pessoas erram, todas as pessoas tem a chance de reparar seus erros, é apenas uma questão de querer se responsabilizar ou não, de ter a oportunidade ou não. A responsabilidade contém compaixão, a punição tem agressividade. Há quem acredite que punir de vez em quando traz alguma vantagem. Eu fui punida todas as vezes que cometi pequenos erros quando era uma criança, isso me trouxe traumas de verdade, e hoje não me faz uma pessoa melhor. Eu precisei de terapia de verdade para superar. Então, acredito que a responsabilidade é um caminho muito melhor, pois contém compaixão. E não é a compaixão o centro do discurso da maioria dos grandes líderes religiosos? Ou das pessoas que tem grande resiliência?!

Antes de aprender tudo o que sei sobre compaixão, por conta da educação que eu tive, que também não foi culpa da minha mãe, nem da mãe dela, é uma cultura que passa de geração para geração, eu chorava quando cometia erros muito, muito pequenos. Eu me isolava e me sentia a pior pessoa do mundo. Eu ficava no pólo escuro do borderline, acreditando que ninguém gostava de mim. Sentia vergonha, medo e muita culpa. Isso me causava ansiedade, pânico. Hoje é diferente. Eu não me puno não. Eu sei que vou falhar muitas vezes porque é da natureza humana errar, só que eu tenho a opção de poder me responsabilizar, pedir desculpas, consertar ou tomar outro caminho. Isso é bom, não é ruim. Isso ensina, faz crescer. E eu sempre gostei de aprender.


segunda-feira, 13 de março de 2017

Descobrindo a compaixão


compaixão
1 Dor que nos causa o mal alheio.
2 Participação da dor alheia com o intuito de dividi-la com o sofredor.
 
Eu desenvolvi uma grande dificuldade em confiar nas pessoas. De uma certa idade para frente, por mais que eu quisesse, eu não conseguia estabelecer a confiança com mais ninguém, nem com pessoas da minha própria família. Todo mundo começou a parecer perigoso. Eu sempre sofri com isso, por que, no fundo, eu queria me relacionar, me conectar, chegar mais perto, mas parecia haver uma barreira emocional entre eu e as pessoas e isso fazia com que muitas delas se afastassem, inclusive amigos de muitos anos e parentes. Ainda hoje, pessoas que eu acabo de conhecer ou que não me dão um tempo para me conhecer, me julgam por esse comportamento de distanciamento, quando na verdade, é um mecanismo de defesa, que eu sei que não me beneficia muito, mas ainda estou tentando alterá-lo. 

Quando eu tive minha última crise, há poucos dias, eu tive apenas alguns segundos de lucidez entre morrer e pedir ajuda. Eu estava naquela velha e conhecida espiral de autodestruição, mas, dessa vez, muito mais destrutiva. Eu estava completamente descontrolada, fora da realidade e faria qualquer coisa para aquela dor parar. Qualquer coisa. Mas descobri que poder da confiança pode ser algo poderoso. Meu cérebro podia estar 98% em total descontrole, mas 2% ainda tinha esperança e não ia seguir a luz no fim do túnel, de jeito nenhum. Eu não tinha tempo para nenhum exercício da terapia, nenhuma meditação, eu tinha que ser rápida. Foi então que lembrei do meu terapeuta falando  com aquela voz de quem está desesperado mas não pode demonstrar porém obviamente falhou (rs): "Não se isole" e ao mesmo tempo a desconfiança surgiu. Porque confiar nele? Porque confiar em alguém naquele momento? Ninguém podia me ajudar. Ninguém ia acabar com a dor! Eu não raciocinei, nem levei para o lado emocional, eu reagi e confiei no meu médico. Corri e pedi ajuda aos meus amigos. E estou aqui. 

E então eu entendi o significado de compaixão e auto compaixão. A compaixão que todas aquelas pessoas sentiram por mim, e a que eu senti pela minha dor quando escolhi superar o meu medo e pedir ajuda. Eu podia estar no meio do caos, havia voltado a me cortar depois de seis meses, estava com muitos hematomas que eu não me lembrava como havia feito, já havia chorado muito, enfim, eu estava em pedaços e muito, muito cansada porque era de madrugada, mas de repente, tudo começou a fazer sentido. Eu estava me conectando as pessoas e aquilo me fazia sentir validada, pertencente a algum lugar, real, tudo o que a doença geralmente não permite que eu sinta. Meu médico tinha toda a razão: eu não podia me isolar. 

Eu sou muito grata a todos eles, pois seria muito fácil terem fingido não ver ou não entenderem o que estava acontecendo, ou simplesmente ter uma atitude de julgamento, apontar dedos e dizer que eu estava tentando chamar atenção, sendo manipuladora, ou algo assim. É claro que eu imaginei que muita gente ia mesmo pensar isso, e tive medo de falar qualquer coisa, mas ao mesmo tempo, se eu não falasse (e foi uma postagem no Facebook, para ficar bem claro!), eu tinha altas chances de não acordar mais, então a opinião dos outros parecia muito menos importante do que salvar a minha vida. Mas contra todas as minhas desconfianças, contra todas as paranoia da minha mente e todas as profecias do borderline, muita gente falou comigo e se importou DE VERDADE, e todas aquelas conversas distraíram o meu cérebro, diluíram as minhas emoções intensas até o ponto em que viver parecia a única opção possível e a melhor opção. 
 
Eu fui acolhida pela minha rede de amigos e de fato meu psiquiatra/terapeuta estava muito certo quando disse que era disso que eu precisava em momentos de descontrole como esse. Me isolar me levaria a uma única possibilidade, mas me conectar as pessoas poderia me levar a inúmeras possibilidades, pois me fez ver a mesma coisa de vários ângulos diferentes. A minha dor poderia ter outras soluções, inclusive nenhuma, mas, de fato, haviam outras soluções, eu só não conseguia enxergar isso sozinha. Ele estava certo esse tempo inteiro, sozinha não dá. 
 
Eu acredito que essa foi a primeira barreira que foi quebrada dentro de mim após esse um ano e meio de terapia: a da desconfiança completa (uma barreira que dura uns 18 anos!). É claro que fiquei triste por ter dados alguns passos para trás, mas eu não regredi, pois me recuperei muito rápido e com um 'plus' que foi passar a confiar um pouco mais em mim e nas pessoas ao meu redor. 
 
Os hematomas estão mais claros, os cortes estão quase curados, e a instabilidade emocional passou, mas a vontade de continuar seguindo em frente só aumenta. 
 
 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Depois da última crise


As manchas roxas já começam a desaparecer. Eu ainda não me recordo exatamente como eu as fiz. Sei que fui eu. Há fragmentos de lembranças. É tudo o que sobrou da minha mente, daqueles dias sombrios da crise. Fragmentos. Eu faço uma tentativa patética de juntá-los para, quem sabe, ter um cenário que faça algum sentido, mas meus esforços são em vão. Eu terei de acreditar no que as pessoas que tiveram de viver isso junto comigo dizem e nos flashes de memória.

Eu me lembro muito bem dos sentimentos. Eles entravam e saíam em uma velocidade absurda, sem pedir permissão e sem controle. Eu desejava que tudo aquilo parasse, mas meus pedidos não podiam ser ouvidos. O meu próprio senso de "eu" havia sido completamente roubado, submergido, abafado por todas aquelas sensações que me invadiam a todo instante. Era como andar na montanha-russa mais radical do mundo, mas não havia diversão, apenas muita raiva e os altos e baixos de todos os sentimentos possíveis e existentes que um ser humano pode sentir.

Eu não lembro de tudo o que fiz, nem de tudo o que disse. Também não lembro de tudo o que me foi dito, nem de tudo o que me disseram. Não sei dizer o quanto isso é bom ou ruim. Infelizmente, eu já me acostumei a esse sintoma. Eu não fico mais chocada. Eu aceito que faz parte do meu quadro. Talvez a aceitação e a compaixão que veio junto tenham deixado essa dissociação um pouco mais leve dessa vez, pois meus machucados foram hematomas e não cortes, e meus impulsos foram bem mais suaves. Eu entrei em comportamentos autodestrutivos sim (nos fragmentos que me lembro, e pelos rastros que sobraram é o que sei!), mas já foi muito, muito pior.

Diferente do que eu havia imaginado, dessa vez, eu levantei muito mais rápido. Eu tive meu momento "não vou mais continuar", mas em seguida eu percebi que não fazia sentido. Eu olhei para trás e eu vi que já havia percorrido um caminho bem longo, e, talvez ainda houvesse um caminho ainda mais longo a frente, mas não é assim a vida? O segredo, quem sabe, seja esse: persistir. Então, eu fiz algo que, ao menos para mim, é completamente novo. Eu tive muita compaixão por mim. Eu aceitei que tive uma crise e que muito provavelmente vão acontecer outras. Eu percebi que meu problema era que eu estava com medo de ter uma crise, e todos os meus atos, pensamentos e intenções eram justamente para evitar essas crises. Não há nada de errado com isso, mas eu não estava, de fato, vivendo o presente em sua totalidade. Eu estava vivendo o presente parcialmente, pois eu me preocupava muito em "não ter uma crise a qualquer custo". Depois da crise, eu senti toda a compaixão por mim. Eu sou um ser humano sujeito a dor, sofrimento, doenças e a morte como todos os outros. A minha doença tem algo a mais, é um transtorno mental, é um desafio. Não há nada de errado ou esquisito nisso. É apenas um desafio. É da característica dela ser assim, feita de crises, e assim é a vida. Eu não gosto de ter crises, ninguém gosta, mas como eu posso fazer para lidar melhor com isso? Bem, eu já faço isso. Eu dou o meu melhor. Então, talvez, eu não tivesse como evitar. Sendo assim, foi um ato de pura compaixão eu perceber que não teria como evitar e me libertar do sentimento de culpa e vergonha que veio junto com a crise.

Eu quis desistir por me sentir sozinha. Aqui, novamente, eu tive de aplicar a compaixão. Talvez, eu não esteja sozinha. Eu tenho, de fato, pessoas que me amam ao meu redor, e é a doença que, nas crises, me faz pensar assim, que estou sozinha -  e isso passa. Mas, durante as crises, de fato, eu estou sozinha, não tem como ninguém passar uma crise junto comigo, então, será que não teria como eu facilitar as coisas para mim mesma antes de acontecerem as crises? Eu meio que faço isso, mas não totalmente. Eu falho um pouco no quesito autoimagem, autoestima. Então percebi que aqui está algo que eu deveria cuidar, quem sabe, eu devesse me abrir um pouco mais sobre isso com meus terapeutas?

Se eu estou melhor, então eu posso ser melhor para as outras pessoas e isso gera um ciclo de melhorias, perpetuando sentimentos bons, gentileza, etc.  Por isso, eu percebi que ter compaixão por si e pelos outros é algo tão importante, tem sido essencial para mim, me torna mais forte a cada dia.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Longa pausa





Essa será uma longa postagem seguida de um longo silêncio. Uma longa - e necessária - pausa... 

Ontem, eu tentava colocar em prática o conselho que havia recebido do meu terapeuta, eu não estava impedindo, nem estava me entregando ao turbilhão de pensamentos que entravam e saiam da minha mente, eu simplesmente testemunhava a bagunça que se desenrolava a minha frente. O conselho foi sábio, foi técnico, estava inclusive dentro daquele livro sobre mindfulness e auto compaixão bem a minha frente, e estava sendo muito útil. 

Tão longo eu finalizei a prática, eu me senti sendo "possuída" pela "entidade" chamada "borderline" que em apenas alguns segundos conseguiu a mágica de transformar sentimentos confusos em dor e vazio, ao mesmo tempo. Era como automutilar-se, mas sem fazer um único corte em si, pois o corte está sendo feito de dentro para fora, e a sensação é mil vezes pior. Você prefere sentir dor física, você deseja sentir dor física. Mas eu não recorri a esse meio. Não se enganem, eu recorri a outro. Eu bebi. Eu não queria ficar lúcida. Ninguém quer ficar lúcido com uma dor desse tamanho. 

Eu tentava me manter no "aqui e agora", mas isso não ajudava, pois a realidade não é agradável. Ela é ainda mais dolorosa. Eu tenho que lidar com o fato repetitivo de que, afinal de contas, eu sou considerada uma pessoa difícil, dramática, egoísta e que nunca entende o que as pessoas falam. Eu escuto isso tantas vezes, que, bem... deve ser verdade. Eu me sinto um peso, me sinto culpada por ter nascido, por ter um transtorno, por ser quem eu sou. Eu olho para mim. Eu me sinto um fracasso. Eu vejo todas as minhas falhas, e odeio o que eu vejo. (Muito diferente das lições de auto compaixão do livro, mas... ). É graças aquela pessoa refletida no espelho que eu estou perdendo tudo o que eu mais amo agora. Eu começo a sentir os sinais da crise. Eu tento respirar. Eu tento me manter no presente. Já era. Eu sei que eu sou um desperdício. Eu não tenho dúvidas. A vida errou. Eu não deveria ter nascido. Não, eu. Além de tudo, eu sou dramática, eu nem mesmo deveria estar reclamando. Eu não tenho direito a nada. Nem mesmo de estar reclamando. Eu me sinto patética. Eu me sinto confusa. Eu me sinto morrendo aos poucos. Eu bebo mais um pouco. Eu tento reprimir o amor. Não sei mais o que é amor. Meu amor não foi suficiente para salvar meu relacionamento. Meu amor nunca foi suficiente para nada. Meu amor estava sujeito a regras e eu nunca fui boa com regras. No momento em que eu não cumpri essas regras, eu joguei tudo fora. As pessoas tem razão. Fui eu quem estraguei tudo. Eu e esse meu jeito diferente de ser. Esse jeito impulsivo, cheio de raiva e sentimentos que eu nunca consigo controlar, a minha mania de querer que tudo seja do jeito x e não do y em certos momentos, e o fato de eu acreditar que tudo o que as pessoas fazem refletem no mundo uns dos outros e é exatamente por isso que, pessoas como eu, têm crises. Não importa. Ninguém se importa.

Eu nunca tive escolha, desde que eu nasci. Aliás, nascer não foi uma escolha de ninguém. Eu fui um acidente. Acho que ninguém queria que eu nascesse, só tiveram que engolir que eu nasci porque foi um desses infortúnios da vida. Meu avô, ah, meu avô... ele também não queria, mas aprendeu a me amar, do jeito dele, do meu jeito, cada um respeitava o limite do outro, eu nunca me senti mal com ele, mesmo quando ele estava bêbado. Eu sei que é por isso que eu bebo. Eu me sinto mais perto dele. É a única escolha que eu posso fazer e não é saudável. A vida é assim, não é justa, nem simples, nem leve, mas pode ser. Eu vejo muitas pessoas tendo vidas incríveis. E eu desejo isso a todos vocês. E eu fico feliz por elas, ao menos alguém consegue levar algo de bom dessa vida. Ao menos alguém tem opções. Não, eu. 

Eu olhei para as garrafas no chão. O remédio em cima do livro. Reparei que meus pensamentos estavam mais lentos. Eu me sentia melhor. Muito melhor. Eu sabia que não era o cenário ideal, mas me permiti um pouco de compaixão. Qualquer coisa para parar aquela dor. Qualquer coisa. 

Hoje eu escutei muitas coisas doloridas e me dei conta de que escutei todas elas nos últimos seis anos. Eu não me arrependo de nada. Nada. Eu me arrependo é de ter um transtorno que eu não pedi e que atrapalha sim todo e cada aspecto da minha vida, mesmo que meu terapeuta diga o contrário. É muito doloroso você ser visto como um monstro, um incapacitado, um coitado ou alguém a ser evitado ou calado. Eu gostaria, mesmo, de nunca ter existido, ao mesmo assim, ninguém teria sofrido o que sofreu (o que alegam estar sofrendo) por minha causa. 

Eu queria poder matar o transtorno. Queria apontar uma arma na cara dele e acabar com isso. Eu poderia alegar legítima defesa. Ele me fez de prisioneira, me enganou, iludiu, me obrigou a fazer e dizer coisas quando eu estava em estado dissociativo. Se eu conhecesse uma pessoa assim, eu não definiria como pessoa. Eu fui tão invadida, tão mutilada de dentro para fora, que eu não sei mais reconhecer o que é meu, o que é a doença, o que são os outros. Eu não sei mais. Então, não tem o que dizer. Eu estou falhando muito seriamente comigo mesma. E a culpa é toda minha, exatamente como estão me dizendo, não tem outra explicação. 

Eu tomei o meu remédio e esperei o efeito de sonolência. Pensei como seria a morte. Eu não tentei me matar, mas pensei como seria morrer. Pensei se meu avô ainda estaria em alguma dimensão, algo assim, ou se tudo acabava aqui... Dormi desejando não sonhar. Mas sonhei. Um sonho inquieto. 

Eu lembro que há mais ou menos seis anos atrás, eu tinha tudo. Eu acreditava que estava com o amor da minha vida inteira, que moraríamos juntos para sempre, que eu teria um cachorro grande, uma casa só nossa, um bom trabalho, que eu escreveria um livro, e que um dia, eu me curaria disso. Tudo foi escapando por entre meus dedos... Cada coisinha... Caindo sobre mim... Estou terminando agora de perder tudo... 

Eu não posso matar meu transtorno, então... como no meu sonho, eu encosto a minha cabeça no colo dele (minha doença tem a forma de um homem no meu sonho), e choro com a perspectiva de que realmente não há mais nada que eu possa fazer porque toda a esperança que depositaram em mim acabou...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

3 meses




"Meu melhor inimigo quer me ajudar
Quando chega chegando sem avisar
Esfregando na cara que haverá
Quem me pague a recompensa
Meu melhor inimigo, onde quer chegar?
Na fronteira sem visto pra viajar
Me avisando que sempre estará
Exilado na cabeça"

(Jay Vaquer, Meu Melhor Inimigo) 


3 meses... 3 longos meses...
Nesses meses o máximo que aconteceu foram crises de choro, alguma manifestação de raiva, alguns comportamentos impulsivos, nada que fosse considerado grave ou fora do "normal" para alguém com o meu transtorno.

3 meses...
Nesses meses eu comecei até a intensificar as meditações, os exercícios de mindfulness, os exercícios físicos e passei a me preocupar com a minha saúde física. A integralidade que forma quem eu sou começou a fazer parte dos meus pensamentos. A dor de estar viva começava a se tornar uma parte suportável e gerenciável. Eu acreditava que poderia suportar qualquer coisa.

3 meses...
O transtorno da personalidade borderline é feito de nove critérios conforme especialistas, e eu apresentei apenas quatro durante todo esse tempo. Nada de dissociação, nem automutilação, nem mesmo medo de ser abandonada ou algum comportamento agressivo.  Nada. 

3 longos meses...
Eu deveria usar a auto compaixão agora. Comigo, com o próximo, mas eu não consigo me desvencilhar do sentimento de fracasso. Eu falhei. E falhei feio. 

Em todos esses meses após a última crise, eu vivi um período de razoável paz e tranquilidade, mas isso não durou muito tempo. De repente, um dilúvio de situações estressantes se apresentaram a mim e eu me vi sem saber o que fazer, quer dizer, ao menos eu tentei. Eu usei todas as técnicas, respirações, meditações, tudo o que eu sabia que deveria fazer, mas a vida não parava de me socar. Eu tentava desviar ou socar de volta, mas aí eu me vi com todas as minhas emoções desreguladas, com problemas de impulsividade, raiva e identidade. Um sintoma atrás do outro. Como uma avalanche sobre mim. Esfregando na minha cara que não, o transtorno não ia embora, jamais. Que estaria isolado dentro da minha mente para sempre, esperando sempre os momentos de estresse para mostrar todo o seu potencial destrutivo e venenoso. Acabando comigo, com meus relacionamentos. E não, não importava o quanto eficaz ou efetiva (ai como eu odeio essas palavras!) eu tentasse ser, nada adiantaria, porque é ele quem manda na minha mente quando tudo está sendo destruído. Ele é o dono da minha mente quando eu perco o controle emocional. Se isso não é ser um fracasso, então me digam o que é... 

Eu sei, eu sei que muitos de vocês admiram a minha capacidade de ser resiliente, de recomeçar, de tentar outra vez... E eu não estou dizendo que quero desistir. Não é isso. Mas depois de três meses você começa a fazer planos, a ter esperanças, a crer que vai ter uma vida melhor, sem borderline, e aí tudo cai bem na sua frente... Eu tive uma crise completa com todos os nove critérios. Incluindo a dissociação. Eu não lembro o que eu disse. Eu não lembro (parcialmente) o que eu fiz. Eu tive comportamento autodestrutivo (bebi excessivamente e ingeri medicamentos ao mesmo tempo) e ainda lembro de ter dito que queria morrer. Eu não posso evitar de me sentir um grande e enorme fracasso. 

Eu me sinto uma fraude escrevendo isso. Mas se eu não contasse, aí sim eu seria uma fraude. Essa droga de transtorno não tem nada de legal. Ele não é fácil, nem simples, mas eu insisto em dizer que ele é gerenciável. Eu fiz isso durante três longos meses. E foi muito bom. Eu falhei. Ok, eu falhei. Mas talvez eu apenas não esteja enxergando que eu fiz o melhor que eu pude e que a vida ás vezes é muito dura também.


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O que eu não compreendo...


Eu costumava acreditar que a melhora aconteceria de uma vez. Que um dia eu acordaria "curada", feliz e nunca mais sofreria novamente. Todos nós gostaríamos que isso acontecesse. De vez em quando até imaginamos como seria essa sensação. Mas, com o tempo, descobri que a melhora é um processo que leva tempo, trabalho árduo, persistência e porque não, um pouco de esperança. Mas há momentos que são especialmente incômodos. 

Eu sou uma pessoa, naturalmente, tímida. O transtorno deixou pior, mas eu sempre tive esse traço mais retraído. Hoje não vejo problema nisso. Eu também sou uma pessoa extremamente imaginativa, e isso já me trouxe problemas, não por causa da imaginação, mas por causa do desequilíbrio mental que o borderline já me causou. E eu sou hipersensível. Eu sinto tudo em demasia e esse não é o problema. Não há nada de errado em ser tão sensível, o problema é quando eu não consigo controlar as emoções e elas acabam falando por mim. 

Algo que me deixa muito chateada é o isolamento. Eu tenho perfeita noção que eu já fiz muitas pessoas se sentirem excluídas, isoladas ou desconectadas ao meu lado, mas eu também entendo que sempre foi um mecanismo de defesa. O medo excessivo sempre me controlou. E, ao menor sinal de rejeição, eu excluía antes que a pessoa me abandonasse. Mas isso me trouxe muito sofrimento, porque eu nunca quis agir dessa forma, mas, por algum motivo, eu não conseguia (mesmo) controlar. O que me mostrou que o que eu tinha era uma doença, e não uma escolha (e por isso eu explico para as pessoas hoje o que aconteceu e acontece comigo)

Eu compreendo, perfeitamente, porque pessoas com transtornos mentais, em sua maioria, tem dificuldades em se conectar, mas não compreendo porque uma pessoa que se diz "normal" exclui e isola. Se quando alguém fica doente, a melhor prática é acolher e cuidar da pessoa, porque isso não vale quando se trata de um transtorno mental?

Todas as vezes que alguém que se diz "normal" isola alguém com um problema de ansiedade, fobia social ou borderline, na verdade, está aumentando ainda mais a sensação de exclusão que já sentimos permanentemente. E eu não vejo meu discurso como vitimismo. É a realidade. Porque existem doenças socialmente aceitáveis e outras não? Por exemplo, a AIDS ou qualquer outra DST... porque existe o comportamento de excluir em vez de acolher? 

Eu compreendo que as pessoas temem o que é diferente. Não há nada mais "diferente" do que um transtorno mental. Mas é justamente a capacidade de adaptação que nos faz, como humanidade, ser incrível e eu não vejo nenhum movimento de adaptação quando se tratar de aceitar o outro com todas as limitações que ele tem. A maioria prefere repetir comportamentos preconceituosos que nem sequer sabem como aprenderam, em vez de analisar racionalmente e emocionalmente a nova situação a sua frente. 

Eu nunca quis ter nenhum comportamento negativo que eu já fiz, mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia controlar. Era como se eu estivesse dentro de mim observando minha mente enlouquecendo, mas não tinha como tomar uma atitude, pois algo no meu cérebro parecia "quebrado". De certa forma, eu não estava errada, realmente há uma alteração no funcionamento do meu cérebro, mas com as ferramentas corretas, eu pude ter de volta o controle de minhas ações. Isso só aconteceu porque eu tive algumas pessoas que não me isolaram. Mesmo eu não sendo uma pessoa "normal" (no melhor sentido da palavra ok?), eles se mantiveram do meu lado, acreditando que eu superaria meu transtorno. E todo esse apoio me deu força para levantar e cair, levantar e cair, quantas vezes fosse necessário até que eu desenvolvesse a minha força interna. 

Vocês conseguem perceber? Se tivéssemos um comportamento de família acolhedora uns com os outros, estaríamos incentivando pessoas como eu a melhorar. E quanto mais você isola, ou porque não compreende, ou porque só está repetindo algo que aprendeu, ou simplemsnete porque gosta de isolar, você está reforçando que a pessoa ou continue na mesma ou não veja sentido na vida. 

Eu acreditava que não precisava de ninguém porque todas as pessoas me pareciam hostis. Minha experiência com pessoas não era a melhor. Eu já havia sido vítima de negligência, abuso psicológico e sexual, portanto, ninguém parecia confiável, mas, quando você encontra pessoas que acreditam no seu potencial, tudo muda. Eu comecei a ter incentivo e forças para melhorar, até que eu pudesse encontrar a mim mesma.Talvez pareça meio clichê ou new age para você, mas, de fato, estamos todos interligados de alguma forma.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Visitando o passado

Trecho da postagem de 02/01/2015: Vou começar 2015 reafirmando a frase que mentalizei quando percebi que não havia morrido: de que eu lutaria por mim, mesmo se ficasse sozinha, até minhas últimas forças. Porque sim, eu mereço uma vida melhor e sim, eu sei que eu posso. Todos podemos. 

Trecho da postagem de 04/01/2016O fato é que se eu pudesse escolher, estaria sozinha, isolada em uma ilha só para não causar mais nenhum dano a ninguém. Pode me chamar de dramática agora, mas é isso que sinto. 

No começo do ano de 2015, eu havia acabado de desistir de mais um psiquiatra porque ele não era especializado em transtorno da personalidade borderline, não queria aprender, não se esforçava e não conseguimos estabelecer nenhum tipo de vínculo terapêutico. Não me entendam mal, ele é um ótimo psiquiatra e psicanalista, mas não para o meu transtorno. Eu o indicaria, sem medo, para alguém com depressão (e que goste de psicanálise, claro). Talvez o erro mais grave que ele tenha cometido - por causa da falta de confiança entre nós - foi ter mantido os medicamentos que obviamente não estavam ajudando em nada, aliás, eles me deixavam pior. O rivotril causava picos de comportamentos impulsivos e depressão, e o antidepressivo me causa muito mais crises de dissociação, mas, como eu ainda não lia muito sobre isso, eu não sabia das correlações, e nem ele, por não ser especialista e nem se quer ter perguntando a um colega dele. 

Eu lembro bem da sensação de desamparo e desespero que eu sentia. Eu não conseguia parar de pensar em morrer. Eu vivia entre automutilações, impulsos e crises onde eu dissociava. Muitas das minhas memórias foram prejudicadas por causa disso. Era para ter sido um momento muito bonito da minha vida, afinal, eu estava morando junto com meu marido, em um apartamento legal, com meus gatos, a vida parecia boa, finalmente, mas infelizmente, tudo saiu do controle. Eu me senti profundamente desamparada porque meu médico não conseguia me ajudar, então eu acreditava que não havia solução para o meu caso e eu acabaria perdendo tudo e todos a minha volta. Mas... eu sou bem teimosa. Esse trecho de 2015 deixa bem claro. Depois de uma tentativa frustrada de suicídio, eu decidi, de uma vez por todas, que lutaria por mim. Com todas as minhas forças. E eu estou cumprindo. 

Em janeiro do ano passado, por conta de uma situação familiar (que ainda persiste), eu estava na fase depressiva, porém algumas coisas já haviam mudado. Eu me sentia mais forte, apesar de ainda pensar que a morte ou o isolamento seriam soluções mais viáveis. Primeiro, eu comecei a tomar os remédios corretos e isso faz toda a diferença. O topiramato me dá a possibilidade de regular as minhas emoções, ele não me tira nada, apenas possibilita que eu tenha controle sobre elas. E a quetiapina, apesar de eu ter minhas dúvidas, o psiquiatra diz que reduz a agressividade e as chances de eu ter uma crise de dissociação.  De fato, conforme o tempo passa, as crises diminuem. Eu me sinto mais leve e com maior liberdade em relação as minhas emoções. Elas não me controlam tanto quanto antes. Aliado a isso tem a terapia, que não é apenas sentar e falar, mas também existem exercícios (que, ao meu ver, são bem chatos, mas necessários) e uma troca de experiências com o terapeuta, o que possibilitou a tão sonhada confiança médico-paciente. Isso me deixou mais forte. Eu posso ter em quem confiar. E mesmo que ele erre (e ele erra um pouco, rs), o fato de ter uma confiança dos dois lados, faz com que o relacionamento seja verdadeiro, algo muito mais importante do que simplesmente um contrato, algo que, para uma pessoa com o meu problema é mais valorizado do que a própria terapia. 

Eu sei que eu ainda tenho muito a melhorar, mas agora que eu tive a chance de visitar o passado, graças as postagens desse blog, eu pude comprovar o quanto eu já conquistei, o quanto eu persisti e o quanto eu sofri também. Eu quis desistir incontáveis vezes, por centenas de motivos diferentes. Cada motivo foi legítimo, e eu não invalido nada do que eu sofri, porque eu aprendi muito com minha história. Eu estou aprendendo a ser alguém mais forte, mais amável, mais leve, mais livre, mais divertida, que julga menos e que exige menos. Eu estou aprendendo a ser mais humana. Eu jamais sequer imaginei que alcançaria metade do que estou sentindo agora. Eu só posso agradecer a mim, as pessoas que continuaram ao meu lado e, claro, aos meus terapeutas por serem tão pacientes. 

"...que eu lutaria por mim, mesmo se ficasse sozinha, até minhas últimas forças. Porque sim, eu mereço uma vida melhor e sim, eu sei que eu posso. Todos podemos."

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Intolerância


Eu tenho 30 anos. Eu vivi boa parte da minha vida tentando me encaixar. Eu sempre tentava fazer o que as pessoas queriam, mesmo que fosse o contrário do que eu desejava, acreditasse ou pensasse. Eu não levava em consideração nada que fosse relevante a mim, eu priorizava totalmente o outro. Hoje em dia não é mais assim. Eu aprendi o que é o amor próprio, auto respeito, limites, valores e que se eu quero algo, eu devo lutar por isso, respeitando os direitos das outras pessoas. 

Mas viver em sociedade é algo complexo, pois cada pessoa é um mundo a parte. Eu tenho uma opinião, você tem outra. Discordamos. Poderíamos discutir, mas, você não aceita que alguém se oponha ao seu ponto de vista. Você tem que estar certo, afinal você tem certeza absoluta estar do lado certo, então não existe espaço para discussão, apenas imposição. Uma briga acontece porque eu não concordei com você e deixamos de ser amigos. Isso é triste. 

Eu fico muito chateada quando isso acontece por dois motivos. Primeiramente porque eu já fui assim. Eu era intolerante. E pior ainda, eu acreditava que era por causa da doença, que era determinado por algum problema no meu cérebro e que eu jamais mudaria. Eu colocava toda culpa no transtorno borderline. E eu não tenho medo de admitir isso, pois ser assim me ajudou muito, me ensinou muitas coisas. A intolerância me deixava isolada, com uma maior sensação de vazio, tédio e ainda mais desconectada de mim mesma. Foi apenas através da compreensão de que eu não era o transtorno borderline, de que, de fato, não tem como saber quem causa o que (se é o cérebro que causa o comportamento ou o contrário),  e de que eu poderia sim controlar o que eu penso, faço e sinto, foi que eu comecei a perceber melhoras no meu quadro. Eu me tornei aberta. Eu comecei a escutar empaticamente, a não julgar, a falar o que eu sinto e viver o presente. Eu já não sinto necessidade de estar sempre certa, eu prefiro sentir conexão, que eu sei que é algo muito mais importante para meu cérebro. 

Eu sou muito agradecida a todas as pessoas que me deram tantas chances de mostrar que eu mudei, que não desistiram de mim, que não esperaram que eu agisse de acordo como elas queriam. Se você fica ao lado de uma pessoa, mesmo nessa circunstâncias, isso significa que você a ama. Porém, eu ainda continuo (e continuarei, eu sei) me decepcionando com a grande pressão de outras pessoas para que eu aja conforme o entendimento delas, pois se eu não agir conforme os valores delas, então eu só posso ser "louca" ou estar tremendamente errada. Por eu já ter sido assim, eu dou inúmeras chances, mas ninguém parece querer mudar, é muito mais confortável permanecer do jeito que está, afinal é mesmo um grande esforço fazer tudo o que eu fiz para modificar a própria personalidade. Só que vale a pena. Cada sofrimento. Cada lágrima. Vale a pena. Meus relacionamentos hoje são baseados em sentimentos verdadeiros, em conexões reais e não em apenas agradar e não receber nada em troca. Algumas pessoas ainda se decepcionam comigo porque esperam que eu vá fazer apenas o que elas esperam, mas se você quer isso de uma pessoa, se você quer que ela apenas concorde com você, então talvez devesse rever seus conceitos. 


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Quando alguém sugerir que borderline não existe...



*Já me desculpo pelos erros de tradução e interpretação. Estudos científicos não são simples de traduzir! :) 

Dificuldades para regular as emoções na personalidade borderline podem ser causados ​​pela atividade cerebral frontal, de acordo com um estudo publicado em junho pelo Brain Imaging and Behavior. A pesquisa sugere que transtorno de personalidade borderline envolve um sistema feedforward (é um termo que descreve um tipo de sistema que reage a mudanças no seu ambiente, normalmente para manter algum estado desejado do sistema. Um sistema que exiba um comportamento de alimentação avante responde a um distúrbio medido de uma maneira pré-determinada. fonte: wikipedia) em que a entrada de regiões cerebrais frontais - pensamentos conscientes e cognições - leva a ativação excessiva da amígdala.

O transtorno de personalidade borderline é uma condição grave que afeta a forma como a pessoa regula a emoção, e envolve principalmente aumento da sensibilidade à informação negativa. Consequentemente, esses indivíduos se envolvem em uma série de comportamentos perigosos, como auto-mutilação e tentativas de suicídio, e também têm problemas em diversas áreas como relacionamentos (incluindo consigo mesmos), trabalho e lazer. 

As pesquisas destacam as diferenças significativas no funcionamento do cérebro entre o sistema límbico e as regiões frontais em pacientes com transtorno de personalidade borderline. Mais especificamente, na área do cérebro que é importante para o processamento da emoção - a amígdala - a pesquisa mostrou que há maior ativação quando se visualiza informação negativa, como a raiva, e quando se recordam de eventos traumáticos.  

A pesquisa também indica que há diferenças na ativação entre processamento consciente e inconsciente, o que fornece uma visão sobre os mecanismos através dos quais os indivíduos com transtorno de personalidade borderline processam informações.Para o estudo, conduzido por Kathryn Cullen da Faculdade de Medicina da Universidade de Minnesota, 12 mulheres com transtorno de personalidade borderline e 12 mulheres sem o transtorno, para o grupo de controle, foram submetidas ao fMRI (Ressonância Magnética Funcional), e enquanto tinham seus cérebros escaneados, as participantes viam rostos expressando emoções (medo e expressões neutras). Esses rostos foram apresentados em duas condições: Ou com a emoção abertamente expressa para medir o processamento consciente da emoção ou com a emoção suprimida para medir a resposta automática e o processamento inconsciente de emoções (rostos com emoções foram rapidamente apresentado por 26ms antes de serem mudados para faces neutras). 

Os resultados revelaram que, quando o medo estava expresso nos rostos, os pacientes com transtorno de personalidade borderline apresentaram maior ativação na amígdala e em várias regiões corticais frontais. Quando o medo estava implícito e estímulos felizes encobertos, o grupo que tinha borderline também mostrou maior ativação do que o grupo de controle em várias regiões, incluindo regiões corticais frontais e temporais.Os pesquisadores concluíram que há uma maior ativação cortical e da amigdala do que o grupo de controle quando a emoção está abertamente expressa, mas não quando é implícito, o que sugere a hipótese de que a desregulação emocional neste grupo é principalmente devido à disfunção na regulação cortical da emoção e sugere a possibilidade de que o borderline envolva um sistema de feedforward no qual a entrada frontal pode, em parte, conduzir a ativação excessiva da amígdala. Em outras palavras, pensamentos e cognições conscientes relacionados às regiões cerebrais frontais podem levar ao aumento da atividade da amígdala e sensibilidade emocional.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Descobrindo a resiliência


Tradução:

Não importa qual tipo de tratamento estiver fazendo, a cura do transtorno borderline envolve o cultivo das seguintes qualidades para TODOS os envolvidos:
Estar aberto: uma disposição para experimentar os sintomas sem se fechar ou entrar na defensiva desnecessariamente. 
Validação: reconhecer o que cada pessoa está dizendo e ouvir, mesmo se você discordar.
Pausar e imaginar o que os outros estão sentindo: a pausa nos permite responder antes de reagir.
Mindfulness: desenvolver consciência do corpo, sentimentos, pensamentos, reações e o ambiente ao redor.
Paciência: permitir a si e a outros que nem sempre as coisas estão ao nosso controle. 
Não julgar: não impor nosso ponto de vista, focar nos fatos.
Dar o benefício da dúvida: não pular para conclusões precipitadas sobre o comportamento de outras pessoas. 
Curiosidade: perguntar "o que está acontecendo?" em vez de fazer presunções e julgamentos.
Esperança: acreditar que a recuperação é possível!  

Eu senti vontade de compartilhar porque isso faz muito parte do meu dia a dia desde o começo do meu tratamento e, de fato, mudou muito a minha vida como um todo. Eu acreditava que uma pílula resolveria todos meus problemas e achava que, um dia, a ciência descobriria uma fórmula mágica para sumir com a dor. Mas um dia eu descobri que a coisa toda é muito mais complexa. Cérebro, consciência, mente. Tudo é complexo. E quanto mais você estuda, mais perguntas você tem e, de fato, de real, ninguém tem uma resposta. As pessoas tem muitas "certezas", mas a real é que ninguém tem a verdade. Então, eu percebi que essa coisa que eles chamam de borderline não me controlava e sim, eu poderia controlar a mim mesma, eu só precisava descobrir como, e precisava de ajuda. Foi aí que eu conheci as terapias mais modernas através do meu último psiquiatra. Esse quadro aí em cima dá uma ideia do que eu aprendi com ele e remédio nenhum poderia me dar isso. Nenhum. Eu posso dizer, com toda propriedade, que vale cada lágrima, cada surto, cada crise de raiva, cada erro que ele comete... tudo vale a pena, porque eu jamais deixei de aprender alguma coisa, porque eu, hoje, comando minha história, e eu tenho muito orgulho de ter chegado até aqui. 

Quando eu desconhecia o borderline, eu tinha medo, e o que a gente teme, nos controla. É o que testemunhei. Então, eu estudei. Eu li muito. Eu lutei. Eu quis saber cada detalhe recente sobre o borderline. Eu quis entender como ele funciona, mas principalmente o que eu poderia fazer para melhorar. E eu fiz, mesmo com dor, machucada, querendo morrer, eu fiz. Eu levantava. Todas as vezes que eu abria os olhos e via a luz do sol, eu sabia que tinha uma nova chance. E ainda assim é hoje. Hoje eu não desejo mais morrer, eu não sinto toda aquela raiva, eu consigo amar mais, mas ainda tenho minhas dificuldades. Mas todos esse valores aí em cima me dão impulso para seguir e eu não sei dizer se foi algo que eu escolhi, parece algo que emergiu de algum lugar da minha consciência. Algo difícil de explicar, transcendental, eu diria. 

Antigamente, quando uma pessoa errava comigo, eu simplesmente parava de falar com ela. Eu me isolava. Sentia tanta dor que não conseguia mais conversar. Hoje não. Eu enfrento, eu discuto, mas acima de tudo, eu desejo ouvi-la, eu desejo saber o que está acontecendo, eu dou o benefício da dúvida quantas vezes eu achar necessário e principalmente eu sempre tento não julgar, porque eu me lembro de todas as vezes que fizeram isso comigo. Quantas vezes duvidaram de mim ou simplesmente não me validaram. Sei o quanto isso machuca. Por isso eu acredito em segundas, terceiras e quinquagésimas chances... porque me deram isso. Ainda existem pessoas assim e sempre existirão. E por isso que eu acredito nesses valores acima. Quanto mais eu tento praticá-los, melhor eu me sinto, menos sintomas eu tenho, mais amor flui. Eu jamais imaginei que, um dia, eu me sentiria assim, mas aqui estou. Agora eu sei o significado de resiliência.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Carta (diferente) para borderline #7



Borderline,

Há muito tempo eu não te via ou ouvia. Eu apenas sentia sua presença uma vez ou outra: algum medo, angustia, vazio, tédio, impulsividade, depressão, enfim, todo sentimento e ação ligados a você. Eu senti muito pouco, menos intenso, suave. De repente, você quis uma trégua, você declarou paz. 

Eu não percebi, mas, a maior parte do tempo eu, naturalmente sentia felicidade, vivia o momento, apreciava o bom e o ruim, sabia ser resiliente e conseguia chorar (sem exageros) minhas perdas. Senti você por perto, mas só de observador. 

Eu sinto que entramos em uma espécie de acordo. E o que você ganha é poder ser materializado (e talvez eternizado) através da minha arte, da minha criatividade. Eu não sabia que poderia canalizar você em personagens de historias. Mas posso, e você aceitou e sou grata por isso, pois escrever é o que acho que sei fazer.

De repente, eu sofri um duro golpe. Você estava presente, mas, para minha surpresa não reagiu. Eu sinto um pouco mais da sua presença agora, mas nada tão grande quanto antes. Agora você até me acolhe (distante, claro), enquanto eu recolho os pedaços do meu coração. Você não quer mais me machucar. Não quer me enlouquecer. Claro que estamos longe de um relacionamento perfeito... Você ainda gosta de me isolar, me levando a comportamentos que afastam as pessoas que amo, mas eu te entendo, é difícil lidar com tanta dor daí de dentro. 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Pensando na morte




Eu nunca pensei que a morte fosse me assustar um dia, mas agora ela me assusta. Eu considero isso um forte indício de melhora, pois além de eu não pensar mais em morte, eu sinto medo. Instinto de sobrevivência, autopreservação. Chame do que quiser. Eu lutei muito para restabelecer essa vontade de viver, mas junto com a sensação de estar vivo vem o medo da inevitável morte. Um dia vai acontecer. Pode ser hoje, amanhã ou daqui há 50 anos, eu não sei, ninguém sabe. Eu apenas comecei a torcer para que demore bastante.

Eu comecei a viver o momento, cada segundo e cada minuto. Cada dia é tão precioso agora. Acontecem coisas boas e ruins em todos os dias, mas eu tento focar em continuar respirando, pois essa é a coisa que mais me importa agora. Eu amo as pessoas que fazem parte da minha vida, amo os desafios e amo aprender. Mesmo não compreendo qual o sentido (ou se tem sentido) da vida, agora existe um desejo sincero e profundo de vivê-la.

É uma grande ironia uma pessoa como eu sentir medo de morrer agora. Acho que é o medo do desconhecido, de não existir, de desaparecer, pois isso significaria que todo esse esforço que eu fiz teria sido em vão. Todo amor dentro de mim, em vão. Desaparecido. Sem razão. Isso me parece até um pouco cruel (tá, eu sei que eu não vou ligar porque eu vou estar morta, inconsciente, etc etc etc)... A verdade é que nem eu, nem ninguém tem a certeza de nada. E a morte pode ser apenas um processo de transformação. Uma mudança de estado. Nem precisa de religião para pensar nisso. Mas fica a dúvida. Pode ser mesmo o fim e tudo ser em vão. De fato, triste e cruel..

Eu sei que não adianta me preocupar ou ficar ansiosa sobre isso. Não há como impedir ou retardar. Quando for a hora, será a hora. Mas não consigo deixar de lamentar que passei boa parte da minha vida sem esse apego pela vida por causa do transtorno e me fez falta. É como nascer outra vez. 

De fato, é estranho. O medo me deixa mais presente, mais viva, com real vontade de viver, como se fosse o verdadeiro combustível para uma vida plena. O medo da morte, do desconhecido, do que eu ainda não sei e talvez nunca saiba. Da eterna dúvida. Eu não sei se é muita vantagem ser um ser autoconsciente e sensível, mas infelizmente ou felizmente é o que somos e estamos aqui de alguma forma. Alguns tem certeza da aleatoriedade, outros tem certeza da não-aleatoriedade e outros, como eu, sabem que não sabem de nada. É tudo muito incerto para se ter certeza absoluta de algo que não se pode provar ou não provar. 

Nossa natureza é curiosa, instintiva, racional, sensível, nós somos uma mistura de várias coisas ao mesmo tempo, e, no fundo, estamos perdidos em um universo que parece não se importar com a nossa existência. Eu digo parece porque eu realmente não sei. Eu só tenho perguntas, e quase nenhuma resposta. A ciência me responde muitas, a psicologia algumas, a filosofia outras e a minha consciência uma ou outra. Certeza, muito pouca. 

Será que o sentido da vida é não ter sentido? Mas então porque procuramos sentido? Qual é o sentido de procurar sentido? Perguntas que eu não sei de onde vem. Ninguém realmente sabe. Alguns dizem que não importa. Outros dizem que importa. A quem importa, eu digo, existe até uma Universidade (fica curioso aí porque eu não vou dizer, não estou a fim dos céticos-chatos) que estuda justamente o sentido da vida: porque o procuramos e se existe algum, se há alguma evidência, qual seria ele, qual seria o ideal. Padrões. Buscas. É o que fazemos. Procuramos respostas para perguntas mais absurdas.

Eu senti o medo paralisante de ter toda a minha história, informações, sentimentos, enfim, toda a minha combinação única encerrada no meu cérebro, destinada a acabar assim que meus neurônios pararem de funcionar. Será? Será que somos apenas um liga/desliga. Eu não sou do tipo que vê as coisas pelo lado religioso então... vai ser meio difícil acreditar em deus, algo assim, mas eu leio muitas coisas e tive minhas experiências. De qualquer forma, parece que todos saberemos um dia. Mais cedo ou mais tarde...