terça-feira, 8 de agosto de 2017

Carta para borderline #7


Borderline,

Já faz muito tempo que eu não te escrevo, pois não senti necessidade. Estamos chegando cada dia mais perto de um acordo definitivo e isso me deixa muito satisfeita. Quer dizer, eu sempre sei que você está na espreita, que vive em mim, só que agora ocupa um espaço menor. Você me deixa no controle a maior parte do tempo, exceto como agora.

Eu me sinto exposta, vulnerável e feita de boba. É como se nesse momento tivesse uma placa de "idiota" na minha testa. Todo mundo sabe, todo mundo sempre soube. Eu era a única ingenua.

Eu estou sendo tomada pelo vazio, pela raiva incontrolável e mais ainda pela tristeza. Não consigo conceber a ideia de que a pessoa que eu admiro, respeito e gosto demais está se tornando alguém inconstante e não confiável. Você sabe, ele me jurou que nossa amizade era sincera. Era amizade? Era sincero? Eu não sei mais. Eu não sei o que esperar de alguém que, na minha frente age de uma forma, prometendo que irá me ajudar e que o sentimento é recíproco, mas quando estamos distantes existe um longo e doloroso vazio. As vezes, acho que lido com duas pessoas diferentes. As vezes acho que me iludi, delirando.

Sei que tem muita gente feliz por saber que estou assim. Você sabe melhor que eu. É você que ouve todos os cochichos, fofocas e comentários sobre mim. Me dói, mas não me surpreende, que todos eles realmente sejam verdades. As pessoas são incrivelmente cruéis, ou talvez elas tenham razão, e eu sou mesmo muito estranha e devesse me isolar num cantinho.

Border, border, eu nunca me senti tão só. Eu sei, eu sei, já disse isso muitas vezes, mas agora é diferente... Eu consigo controlar tanta coisa que acho que controlei demais e perdi o controle do que você esta fazendo. Só sinto. Dor, tristeza, raiva, tudo sufocado por todas as técnicas que aprendi na terapia. Eu sei que você tá aí no fundo. Eu sei. Sabia enquanto tomava os remédios e sabia enquanto falava com o terapeuta. Você me deu mais espaço, mais autonomia, mas não foi embora.

Você tá aqui nas lágrimas, na dor, na depressão, na bebida... Eu não me machuco mais, eu não entro em crises que me faziam perder o controle e a memória, e só tenho 1 comportamento impulsivo (e não dois),mas eu sei que você controla o vazio, a tristeza e a raiva. Tô sentindo agora, mas sabe...eu te agradeço. Você me avisou que eu me machucaria e eu me machuquei mais do que pensei. Apenas peço que me console, porque agora eu estou em pedaços.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Brandon Marshall e o Borderline



Se você gosta de futebol americano, com certeza já ouviu  sobre a estrela na NFL, Brandon Marshall. Ele era conhecido por ter uma personalidade bastante familiar para alguns de nós,  frequentemente, envolvido com problemas em seguir a lei e respeitar autoridades, dirigir alcoolizado (comportamento impulsivo e autodestrutivo), constantes brigas domésticas com a esposa que o levou a ser esfaqueado por ela (raiva inadequada e possivelmente dissociação), entre outros, tudo entre 2007 e 2008. Muita gente poderia - e vai - considerá-lo alguém sem solução e que deveria ser isolado da família e da sociedade... Eu fico imaginando o que as pessoas mais radicais pensam sobre o esfaqueamento (provavelmente um sonoro "ele mereceu").

Mas... ele percebeu que havia algo diferente com ele. O nome era transtorno de personalidade borderline. E o nome fez toda a diferença para ele (algumas pessoas costumam dizer por aí que o "diagnóstico não importa", eu discordo, é o diagnóstico que faz a diferença...como você vai se tratar de algo que você não sabe o nome, não conhece e não sabe qual é o tratamento? É uma ilusão achar que você vai conseguir sozinho, todo mundo, uma hora ou outra, precisa de ajuda. Seu diagnostico não é você, são as outras pessoas, cheias de preconceito que fazem você achar isso!).

Brandon Marshall entrou na terapia comportamental dialética, tomou os remédios, claro, e, hoje é um novo homem, quer dizer, o mesmo homem só que no controle do transtorno. Recuperou a esposa, a autoestima, a paz e tranquilidade interna e hoje não só é um dos mais brilhantes jogadores da NFL, como também atua para educar as pessoas sobre o transtorno. Eu o acho incrível, pois ele, por ser uma pessoa de destaque na mídia, serve como exemplo para outras pessoas de que é possível sim superar e que julgar é algo muito perigoso.

Ás vezes, aquela pessoa aparentemente agressiva, impulsiva e que parece não se importar com ninguém, pode apenas ter um transtorno de personalidade. Assim como qualquer doença física, em uma doença mental, a pessoa não tem culpa. Ninguém pediu por isso, e não tem como saber se não for diagnosticado por um especialista. E, apesar de todo o estigma envolvido, o transtorno borderline é considerado o transtorno mais tratável da psiquiatra, ou seja, tem jeito, aliás, vários jeitos diferentes. 

Reflita um pouco na história do Brandon, ele poderia ter mantido a mesma personalidade, mas preferiu mudar assim que soube do diagnóstico. Não existe, eu repito, pedido de desculpas maior do que a mudança de comportamento. A mudança do coração e não a falsa. E hoje não só demonstra ser um homem equilibrado, como tenta educar as pessoas sobre isso através do Project Borderline (http://projectborderline.org) e o Project 375 (https://project375.org/) ambos sites para aumentar a consciência sobre borderline e outros transtornos mentais e arrecadação de fundos para os mesmos objetivos. 

Eu acredito que toda a pessoa que tem consciência de seu problema e entra em uma terapia com vontade de fazer sua própria mudança, sempre vai superar seus obstáculos. O borderline é um obstáculo bem grande e espinhoso, que afeta a nós e as pessoas ao nosso redor, mas não é impossível de se vencer. 

Trecho de uma entrevista do Brandon:

"Qual é a coisa mais mal compreendida sobre as pessoas que sofrendo com transtorno de personalidade borderline?
Sabe o que é? Eu diria que todas as doenças mentais são altamente estigmatizadas. As pessoas tem que entender que elas não são seus diagnósticos. Toda hora que ouvimos sobre um tiroteio em nosso país [EUA], a primeira coisa que dizem é "oh, aquela pessoa deve sofrer de doença mental". Não, não necessariamente. E eu acho que é extremamente importante que nós mudemos essa narrativa. Não apenas em nossa comunidade, mas também na mídia, pois as pessoas continuam colocando aqueles sofrendo com uma depressão em uma caixa e dizendo "essa pessoa é louca e é impossível para ela viver uma vida efetiva e feliz". Nós temos que entender que um transtorno mental deve ser tratado do mesmo jeito que a doença física. Não tem diferença"


segunda-feira, 10 de julho de 2017

2 anos de tratamento e uma história

Hoje eu vou contar a historia de alguém muito relevante no meu tratamento - que completa exatos 2 anos hoje. Ele pode ser um psiquiatra, um psicologo, um terapeuta holístico, um filosofo ou um amigo meu. Um desses papeis é o que ele realmente exerce, mas, para mim, ele é um pouco de tudo isso e muito mais. É com a ajuda dele que eu aprendi e aprendo o valor do não julgamento, que viver o presente é o mais importante e que a compaixão é o meu estado natural. 

A primeira vez que o vi, eu pensei "será que eu não o conheço de algum lugar?", mas, como eu estava tao imersa em dor, caos e confusão, eu achei que tivesse algo a ver com a idealização. Se você tem borderline, você sabe como é, a gente acabou de conhecer a pessoa e já a considera "a mais legal", "a mais inteligente", "melhor pessoa do mundo". Isso também aconteceu comigo em relação a ele, mas eu, me esforçava ao máximo para não demonstrar, criando uma mascara de durona, insensível e até mesmo rude de vez em quando. Eu precisava proteger meus sentimentos, pois em todos meus relacionamentos anteriores, demonstrar a intensidade dos meus sentimentos me levava a ser machucada, mal interpretada ou excluída. Até então, eu achava que todas as pessoas reagiam iguais, porque ele seria diferente? Seria questão de tempo até eu ver que, no fundo, ele era igual todos os outros. 

Só para constar, eu tenho uma regra: aguardo quatro meses para descobrir se eu realmente gosto da pessoa ou se apenas estou idealizando (enxergando apenas o lado positivo da pessoa, como se fosse um herói ou salvador). E, para minha surpresa, quatro meses depois, percebi que realmente tinha apreço por ele, mas ao mesmo tempo, sentia imensa raiva. Depois de algum tempo a pessoa segura, inteligente e que sempre tinha uma resposta também se mostrou inconstante, instável e indecifrável. E, para alguém com borderline, esses três últimos aspectos podem levar a mais instabilidade. Não foi diferente comigo, era como se nós dois estivéssemos compartilhando das mesmas emoções, e porque não dizer, era como se os dois se tornassem uma coisa só, uma coisa instável. Eu odiava não compreender, não ter um padrão, e pior do que isso eu não conseguia encaixar aquela relação em lugar nenhuma: amigo? Ouvinte? Profissional? Nada conseguia definir o que estava acontecendo.

O tempo foi passando e eu conheci mais aspectos positivos e negativos em relação a ele, mas o que me comovia era o modo como ele lidava com as coisas do dia a dia - coisas realmente pessoais, que você não conta a qualquer um. Eu não entendia porque ele me contava todas aquelas coisas, porque alguém como ele se abriria daquela forma, sobre sentimentos tão delicados, para uma pessoa como eu? Aos poucos, eu descobri que ele confiava em mim, me arrisco a dizer que até mais do que eu confiava nele.

Eu me mantinha distante, fingindo que não me importava, mas eu estava deixando que, indiretamente, o jeito com que ele lidava com a vida me afetasse no meu dia a dia, no bom e no ruim. Eu comecei a entender, então, que nem todas as pessoas eram iguais, que a vida não era tão preto e branco (tinham dias que eram bem coloridos) e que a maior parte das pessoas não eram desonestas e cruéis. Que, na verdade, se eu quisesse saber como uma pessoa era, eu tinha que ficar vulnerável, exatamente como ele fazia comigo... Quando consegui ultrapassar a minha desconfiança crônica em relação a isso, eu constatei que era real, apesar de ser muito doloroso, ás vezes, ficar vulnerável me permitia ter uma outro olhar sobre a vida... Quando eu me abria e escutava mais do que falava e não esperava retribuição de alguma forma, eu conseguia ter o melhor das pessoas, eu conseguia compreendê-las através dos olhos delas.

Houve momentos que eu não queria mais vê-lo e me decidia em romper a relação, mas, mais uma vez, ele admitia o erro, reparava, se fosse o caso e mudava o comportamento se necessário, me ensinando que sempre há chance de recomeçar se as duas pessoas estiverem dispostas a reconstruir a relação. Eu comecei a entender que não precisava me desculpar a cada cinco minutos, nem me vingar, nem ressentir. Brigas faziam parte de qualquer relacionamento, e havia mais opções além de remoer e me apegar a raiva.

Para resumir, o maior ensinamento que eu tive foi o desapego. Toda aquela conversa insistente sobre viver o agora, enfim começou a fazer sentido. E aprendi, finalmente, que as pessoas fazem o melhor que elas podem com o que elas tem, que o importante é a intenção e não o ato em si (a maioria das coisas dolorosas que as pessoas fazem no dia a dia não é intencional, assim como acontecia entre nós dois) e que julgar levava a frustração e preocupações,sendo que a melhor opção era ouvir, apenas ouvir, vivendo o agora, sem me apegar aos julgamentos que passassem pela minha mente.

Eu perdi o medo de ficar só (quem tem borderline, sabe como isso parece horrível!), porque comecei a apreciar minha companhia. Mas, se depois de todas aquelas brigas e de ele ver como eu realmente sou, ele não fugiu, nem julgou (ao contrário, ele ficou do meu lado e me ajudou), então eu não era uma pessoa ruim, nem difícil, eu só tinha uma doença difícil. E por isso, estou aprendendo a viver de bem comigo mesma. Não é fácil, mas eu sei que é possível. 

Eu sei que ainda não estou tão bem quanto eu gostaria, mas eu já melhorei muito e eu não teria conseguido sem a ajuda dele, sem esse relacionamento tão complicadinho no inicio, mas que se transformou em amor (no sentido fraternal) no meio do caminho, igual o processo de metamorfose da borboleta.

Eu já o vi como herói, depois como vilão, alguém que não era confiável, uma pessoa inconstante, agora eu o vejo como o humano que ele é. Um homem sensível, cuidadoso, inteligente, mas cheio de defeitos também, como todas as pessoas são, como eu sou. Talvez ele não saiba, mas ele me ajudou a mudar algo que eu acreditava ser impossível graças a quem ele é. E por isso serei eternamente grata.


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Pelo direito de sentir (e expressar) raiva




Há quase um mês eu não tomo mais a medicação para estabilização do humor. Eu, agora, posso dizer que, finalmente, estou em remissão de sintomas do borderline. Isso quer dizer, que, eu preenchia todos os nove critérios que definem a doença, agora eu preencho, ao menos, seis. É uma redução e tanto para alguém que jamais imaginou que isso pudesse acontecer.

Esse fato não significa que eu sou uma pessoa "curada", mas demonstra que é possível melhorar - e superar - dos sintomas mais graves. Os dias não ficaram melhores, nem mais felizes, eu não me tornei uma pessoa positiva o tempo inteiro, eu não fico falando frases de afirmação para todo mundo. Os dias continuam os mesmos, com suas facilidades e dificuldades, com todo o bom e ruim da vida. O que mudou foram as minhas respostas aos eventos externos. Hoje, eu me considero com muita mais controle do que antes. Eu não permito ser levada pelas emoções, eu que as conduzo a maior parte do tempo. É claro que há momentos de descontrole, mas é importante eu dizer que qualquer pessoa tem esses momentos de descontrole. Muitas pessoas sofrem com o estresse e as pressões do dia a dia, e, exatamente por isso elas acabam tendo alterações nas emoções, muitas vezes afetando a saúde física. Eu não me tornei diferente disso, eu sofro de dor crônica por causa de duas hérnias de disco, uma na lombar e outra na cervical, e isso me causa muito estresse, que altera meu humor alguns dias. 

O único problema de ter borderline e estar melhorando é que, na minha experiência, as pessoas esperam que você reaja do mesmo jeito de antes, principalmente ao que diz respeito a raiva. Qualquer pequena demonstração de insatisfação ou raiva da nossa parte, as pessoas reagem do mesmo jeito que antes, esperando que você se descontrole, tenha um surto, seja abusivo verbalmente ou fisicamente, chore por horas sem parar ou faça algum comportamento autodestrutivo. É frustrante, eu não vou mentir, é até doloroso. Mas você não agia dessa forma porque queria, você agia assim porque não tinha outra opção a não ser levar-se pelas emoções. O cérebro jamais disponibilizava outra opção, mesmo que você quisesse - e eu sei que você queria!. Durante muitas brigas e discussões, eu me via, dentro de mim, lutando para reagir de outra forma - e sempre perdendo. Agora, há algum tempo, essa luta simplesmente deixou de existir. Eu consigo compreender, analisar e escolher como reagir e geralmente se eu estiver com raiva, eu não costumo esconder, mas também não me deixo levar por ela.

A raiva é um sentimento natural, humano e compreensível. Todo mundo sente raiva e deve expressá-la adequadamente (quem sabe escrever em um diário, praticar um esporte, jogar no computador, pintar, sei lá, as opções são muitas). O que acontece é que nossa cultura e sociedade - e também um pouco do legado das religiões mais presentes - acha que ter raiva é algo ruim, feio. Na idade média, dizia-se que uma pessoa cheia de raiva era considerada "louca", talvez por isso associamos uma coisa a outra, mas acho que a idade média foi há muito tempo, eles não tinham nem um terço da nossa tecnologia, psicologia e conhecimento sobre o cérebro, portanto está na hora de mudar isso. Uma pessoa realmente boa não deveria sentir algo como a raiva, é o que eles ensinam. Só que não. Bondade não tem nenhuma relação com isso, ela é uma manifestação da empatia e da compaixão. Você pode ser uma pessoa muito boa, e, ainda assim sentir raiva, medo, inveja. A questão é a resposta que você tem. 

Ás vezes, quando começo a discutir com alguma pessoa, ela começa a expressar medo, preocupação e algumas coisas acontecem: ás vezes, elas começam a ficar vingativas em retribuição ao que falei  ou fiz a elas enquanto estava em surto, no passado (o pior é que eu não lembro de nada) ou elas se mantém dizendo "você está alterada, cuidado para não ter um surto", mudando de assunto no mesmo momento, ou ás vezes elas nem começam a falar. Tudo isso é compreensível, mas frustrante. Apesar de eu demonstrar que estou tendo melhoras significativas, parece que não vale muita coisa para algumas pessoas. Eu entendo que, em um passado não muito distante, a convivência comigo não era fácil, mas, de modo algum era proposital ou manipulado (eu não me considerava alguém difícil, mas sim com uma doença difícil - isso poderia ser um bordão, não é?). Eu também sofria bastante por não conseguir controlar. Quase ninguém lembra disso. Eu também entendo que, também por causa da nossa educação, aprendemos que a melhor resposta é o "olho por olho", se alguém te fez algo ruim, você devolve na mesma moeda. Isso não faz o menor sentido, porque se todo mundo for nessa de "olho por olho", no final, todo mundo fica cego. A melhor resposta é o perdão, apesar de que, algumas coisas são mesmo imperdoáveis (crimes terríveis, por exemplo). Mas não somos encorajados a perdoar. É como se isso fosse atributo de pessoas fracas.

Não existe maior pedido de desculpas de alguém do que a mudança de comportamento, e não existe maior prova de amor do que perdoar essa mesma pessoa. Eu já passei por isso, e perdoei justamente por ter visto a mudança. Poucas pessoas querem mudar, elas querem respostas e soluções rápidas (e quem não quer?), mas mudar exige trabalho, paciência e compaixão. É um processo sem fim. Eu admiro muito pessoas que superam seu orgulho, seu medo e abandonam o passado em nome do perdão (das coisas que devem ser perdoadas), e eu tento ser uma dessas pessoas. 

Por outro lado, eu também entendo que as pessoas fiquem ressentidas, com medo e vingativas por coisas do passado. Eu também sou assim com muitos assuntos da minha vida, mas eu tento enxergar todos os dias que a melhor maneira de perdoar é vivendo o presente.

Hoje em dia, em alguma discussão, quando percebo que a pessoa está agindo como se com medo de eu ter um surto ou se vingando por algo do passado, eu paro e analiso a mim mesma: porque vou entrar na raiva? Porque estou com raiva dessa pessoa? O que há de instável em mim que engatilhou a raiva? E, então, aos poucos, eu percebo que a raiva diminui, eu a vi, eu a aceitei, e deixei que ela fosse embora. Eu não espero que a outra pessoa compreenda, nem que pense de outra forma, nem peça desculpas, eu apenas deixo ela expressar e ser o máximo que ela pode naquele momento, eu já estive daquele lado tantas vezes quanto você piscou nas últimas duas horas, portanto eu sei que é muito difícil mudar isso - mas é possível, se eu consegui, eles conseguem, você consegue, basta apenas ficar presente, analisar e conhecer a si mesmo e querer mudar. 


terça-feira, 13 de junho de 2017

Os lobos dentro de mim



Eu acho lobos fascinantes. É muito mais do que admiração por serem animais bonitos ou porque os cães são descendentes deles. Eu me identifico e tenho enorme respeito. Eu comecei a pesquisar sobre os hábitos dos lobos há algum tempo, e, cada vez mais compreendo porque minha mente escolheu essa espécie como meu animal de poder, meu totem. Devo confessar que tenho uma inclinação para religiões antigas, principalmente as indígenas. O xamanismo ainda ocupa grande parte do meu coração e, foi através disso que comecei a compreender o que significava ter um animal de poder, funciona com um arquétipo, uma imagem dentro de você que simboliza algo mais, como se o inconsciente estivesse falando diretamente com você, mas, em vez de palavras, ele usa símbolos. Você pode chamar como quiser. 

Minha mente tem facilidade de alcançar os sonhos simbólicos. Segundo o psiquiatra Carl Jung, esses tipos de sonhos são manifestações dos arquétipos existentes dentro de cada pessoa. Arquétipos também se manifestam em mitos. De qualquer forma, eles parecem ter necessidade de se propagar de geração em geração através das histórias que contamos e também em nossos sonhos. Eu sonho com lobos, deuses (ou reis, ainda não entendi direito) e de vez em quando uma pantera. São sonhos contínuos e que, de alguma forma estranha, impactam meu dia a dia, transformam quem eu sou. Mas vamos nos focar nos lobos. Eu sonhos com dois, um preto e um branco, o que talvez represente a noção de dualidade da vida (bom e mau, yin e yang, etc).

Através da minha pesquisa sobre os lobos, eu descobri várias coisas interessantes que se encaixam nos meus sonhos e a mim. Lobos são animais sociais, assim como nós. Eles vivem em grupos, bandos, matilhas. Ao contrário do propagado pela crença popular, não existe o "alfa". Existe um par de lobos, macho e fêmea, que tem papéis estabelecidos - mas que podem trocar entre eles - e lideram o grupo, funcionando como "pais" e não, exclusivamente, como líderes. A matilha precisa ficar unida, pois disso depende a sobrevivência deles. 

Tão pouco a crença sobre o "lobo solitário" é completamente fiel. Lobos não gostam de viver sozinhos, é uma situação de exclusão do bando. Eles não simplesmente ficam sozinhos, são autossuficientes e vivem muito bem assim. Não! Só existe - até onde eu pesquisei! - duas situações em que eles são excluídos: ou quando um dos "pais" está velho demais e é desafiado por um jovem lobo em disputa com o papel de líder, ou quando, se o jovem lobo perder essa disputa, é "convidado a se retirar". Então, o lobo se torna o famoso "solitário". Isso encurta a vida do lobo, e consequentemente ameaça a sobrevivência deles, pois, se todos os lobos fossem assim, estariam em extinção. Um lobo sozinho tem mais probabilidade de ser morto por outro animal ou em consequência de uma ferida que não consiga resolver sozinho. Lobos cuidam dos doentes na matilha, assim como também educam os filhotes e se mantém unidos. Não é vantajoso ficar sozinho, assim como não o é para o ser humano. 

Tudo isso me fez pensar - muito. Eu me senti excluída muito cedo, sendo o período escolar - aonde deveríamos ser integrados socialmente - aonde tive mais certeza de que o meu lugar era sozinha. Eu sempre era "expulsa" dos grupos por um motivo ou outro, e não raramente por desafiar o líder. Não estou dizendo que somos iguais aos lobos, mas há muitas características em comum. Eu comecei a ficar perdida em grupos quando eu me separei do meu "alfa", meu "líder": meu avô. Sem pai e com um péssimo padrasto, eu enxergava meu avô como a única fonte de nutrição, amor, carinho e validação emocional. Mesmo sendo um alcoolista e alvo de piadas e pessoas que julgavam, ele era uma figura que eu admirava e respeitava. Quando ele escolheu ir morar longe de nós, quando ele se isolou certamente porque se sentia um fardo e tinha muitos problemas devido ao alcoolismo em estágio avançado,  eu sofri uma perda terrível. Foi como se ele estivesse morto (e quando ele morreu de verdade, foi como se tivesse morrido pela segunda vez). Lobos sentem o luto, e sofrem também, é uma verdadeira tragédia quando um lobo morre na matilha, e se forem os líderes, o bando pode ser desfeito. A morte é impactante para qualquer ser vivo. Meu avô foi para tão longe que eu tinha certeza de que nunca mais voltaria a vê-lo, portanto era mesmo uma espécie de morte. Foi a primeira vez que me percebi como um lobo solitário. 

Em casa, sozinha, tudo o que eu conseguia sentir, desde muito pequena era o vazio e o sentimento de não pertencimento. Após os nove ou dez anos, as pessoas passaram a ficar ameaçadoras para mim. Como se eu, de repente, houvesse sido expulsa do meu bando e fosse condenada a andar sozinha. Havia a desconexão interna, a falta do meu avô e não ter mais com quem contar para ter esperança, carinho, nutrição. Eu procurei me encaixar em diversos grupos, mas sem sucesso. A idade e os traumas só pioravam a situação. Era como se eu, além de um lobo solitário, fosse alguém marcado, desprezível. Sim, eu era diferente da maioria. Eu era reservada e desconfiada demais - igual um lobo. Eu procurava o meu bando, minha família, pessoas que compreendessem ou ajudassem a me fazer entender o que estava acontecendo comigo, mas, que acima de tudo me restaurassem o sentimento de pertencimento. 

Eu procurei muito, mas não achei. E, por obrigação, me tornei o lobo solitário. De alguma forma ou de outra, eu tenho um dom (ironia) para ficar sozinha, um talento (ironia, de novo) para acabar com as minhas amizades, devido a eu ser como sou. Não é uma vida muito agradável, eu tenho que ficar mudando de grupo em grupo, de tempos em tempos, porque, uma hora ou outra eu serei banida. É questão de tempo.  Eu sei que o texto está longo, mas eu preciso explicar. Existe um famoso experimento feito com lobos criados em cativeiros e cães. Os cientistas colocaram a comida em um local que eles jamais poderia alcançar e então observaram seu comportamento. O lobo não parou de tentar, ele não desistiu, mesmo que fosse impossível. O cachorro, após algumas tentativas, parou e olhou para o humano com aquela expressão de "me ajuda". Lobos não podem ser domesticáveis, o seu instinto é selvagem. Cães tem um pouco de lobo. Eu também. Eu não desisto mesmo quando tudo em mim aponta para desistência. Existe mesmo uma força de lobo dentro de mim que me impulsiona a viver, seguir em frente, mesmo que tudo esteja desabando. 

Eu não encontrei meu bando, minha matilha ainda, mas ás vezes eu entro na matilha de outras pessoas e é bom testemunhar laços familiares, conversas amigáveis, aquele ar de conforto e aceitação que a gente, como ser humano, sabe fazer tão bem. Eu gosto de observar, de fazer parte por um momento, mas depois eu vou embora. Nem sempre eu vou, ás vezes eu fico, mas, frequentemente a distância, o tempo ou minhas atitudes confusas fazem com que as pessoas me deixem. Muitas vezes penso que o problema sou eu, algumas vezes - ultimamente - percebo que não há nada de errado comigo, eu apenas sou diferente e isso assusta, incomoda, afasta. Eu me importo com isso... e ainda estou buscando meu grupo. Talvez eu nunca ache, talvez seja apenas um simbolismo, eu não sei. 

Eu tenho essa mania estranha de não desistir, de insistir, teimar, em não deixar a vida escapar tão fácil assim. Eu também nunca paro de tentar. Por isso, me identifico tanto com lobos. Eles são uma metáfora de tudo que aconteceu comigo de bom e de ruim, e acima de tudo são a certeza de que um dia eu vou ter de volta a sensação de pertencimento. 



sexta-feira, 9 de junho de 2017

Uma conversa franca sobre meu trauma



Transtorno do Estresse Pós Traumático

Eu serei breve e direta: eu sofri assédios sexuais e um estupro. Não existe outro nome para o que aconteceu naquela época, e não há motivos para não falar sobre isso. Eu já me silenciei por tantos anos, guardando esse segredo dentro de mim como se eu tivesse cometido um grande erro e tivesse de ser punida por isso, enquanto outra pessoa o cometeu e jamais foi punida. Isso aconteceu há treze anos atrás, mas ainda parece que foi ontem. Nem toda a terapia de exposição ao qual fui submetida foi capaz de extirpar as lembranças que tiveram de ser reprimidas de qualquer forma. 

Eu não tive opção. Eu não podia falar nada para ninguém. Eu não sabia nem que precisava pedir ajuda. Um manipulador sabe o que tem que fazer, dizer e como ameaçar, ele conhece os seus pontos frágeis e os usa contra você. Quando você entra em uma relação, você fica vulnerável, exposto, aberto, e existe uma troca, existe amor fluindo de um lado a outro, dedicação, carinho, reciprocidade... um manipulador se aproveita disso. Não existe relacionamento, só existe ele. Ele quer retirar tudo de você em benefício dele, fazendo você acreditar que há uma relação, e qualquer coisa que der errado (e vai dar) a culpa será sua, porque não se dedicou o suficiente. É um jogo mental. E você não escolhe cair nele. Qualquer pessoa pode cair nele, pois todas as pessoas estão abertas a relacionamentos (exceto se você for um antissocial). 

Infelizmente, eu já tinha o transtorno borderline muito avançado nessa época, devido a série de abusos que eu sofrera no ambiente familiar, e sem tratamento, nem apoio. Eu sabia que eu tinha alguma coisa diferente, que não era uma depressão como um psiquiatra havia dito, pois aqueles remédios que eu havia tomado não funcionavam, na verdade, eles pioravam, mas eu não tinha nenhuma informação, era como tatear no escuro. Eu, claramente, era um grande alvo e não era minha culpa. Eu simplesmente estava sendo vítima de várias situações infelizes ao meu redor que acontecem diariamente com muitas pessoas e, coincidentemente, eu tive o azar de cruzar com um manipulador. Ele me destruiu, fisicamente, e mais ainda, psicologicamente. Foram alguns dos piores meses da minha vida. Foi como se rompesse um fio muito fino de toda a esperança que me mantinha acreditando na vida. 

Eu entrei em delírios cada vez maiores, alucinações, paranoias, e dissociações tão fortes que haviam personalidades distintas (e claro, que fui acusada de mentir e blá blá blá e claro que eu me sinto culpada até hoje!). Em um momento, eu não sabia mais o que era realidade e o que era fantasia. Meu corpo e minha mente pareciam mesmo duas coisas distintas, separadas e eu estava com medo de me perder para sempre. 

Eu me vi tendo como única opção o isolamento. Não tinha mais amigos, pois eles me achavam uma louca que inventava histórias (devido a cisão de personalidade) e eu mesma me culpava por achar que eu era uma grande psicopata. Eu me culpava pelo abuso, me culpava por tudo. Eu só queria me isolar para sempre. De alguma forma (desespero?), eu reprimi todas aquelas memórias em algum lugar escuro da minha mente e prometi a mim mesma nunca mais falar ou pensar sobre aquilo. Só que não. 

Gatilhos são poderosos. Traumas são traumas. Todas as vezes que alguém me tocava para me cumprimentar com beijos, abraços ou simplesmente se aproximava, lá estava eu com as lembranças de todos os assédios sofridos na vida (ainda acontece). Todas as vezes que eu via algumas cena de sexo na televisão ou alguém mencionava a palavra "estupro", eu tremia por dentro, e me lembrava do que havia acontecido (não acontece mais, devido a terapia). Os gatilhos fazem da minha vida uma prisão. Obviamente, isso influência na minha vida, nos meus relacionamentos, e apesar de saber que esse sintomas são comuns em vítimas de abuso sexual, eu ainda sinto um pouco de culpa pela reação das outras pessoas. É muita pressão!

A minha mente teve que ligar o "sobreviva a qualquer custo" desde muito cedo. Negligência, falta de cuidado primário, assédio sexual do padrasto, pai ausente, o distanciamento do meu avô, várias mudanças de casa (para alguém com borderline isso é terrível), bullying, falta de apoio emocional nos momentos chaves da adolescência, e claro, um transtorno mental que eu não compreendia. Eu pensei em me matar a primeira vez aos sete anos de idade. Minha mente foi obrigada a ligar o instinto de sobrevivência muito cedo. Eu fiz o melhor que eu pude com o pouco que eu tinha. E eu considero que eu tive sorte pois eu ainda tive um pouco, tem pessoas que não tem nada. Quando você tem que sobreviver a qualquer custo, não interessam as regras, etiquetas, a educação, essa "pressão social". Isso é irrelevante. Você só precisa sobreviver (mesmo que sua mente insista na sua morte!). 

Eu compreendo que somos seres sociais, mas alguns de nós não tem tanta sorte quanto os outros. Meu cérebro ficou danificado e eu não consigo ver as coisas do mesmo jeito que a maioria. É só isso. Eu sou diferente. Não me sinto a vontade com toques, abraços e beijos de qualquer pessoa. Isso incomoda, porque causa gatilhos. Tente imaginar que cada vez que isso acontece, eu lembro o que aconteceu comigo. Não é questão de me fazer de vítima, é questão de realidade, de ser prática. Eu tenho uma regra para esse nível de intimidade: sou eu que toco, abraço e beijo, e são apenas pessoas que eu gosto muito. Eu não gosto, nem sou obrigada a gostar de todas as pessoas. Eu não vivo, nem vou viver em falsidade. Mas eu respeito a existência de todo mundo. E se precisar, eu vou falar mesmo se eu não gostar da pessoa e gostaria que ela falasse comigo caso precise. Eu jamais deixaria de estender a mão a ninguém, só por falta de sintonia. Eu só não acredito que dê para agradar todo mundo, nem que sejamos obrigados a fazer um papel teatral. Foi assim que eu percebi o mundo enquanto tentava sobreviver.  

Eu quis compartilhar isso porque eu tenho certeza de que há muitas pessoas que se sentem como eu e que são pressionadas e julgadas pelas outras pessoas simplesmente porque elas não compreendem o quanto um trauma pode ser impactante e danoso e que, ao contrário do que se diz, nem o tempo consegue amenizar. Algumas pessoas desenvolvem estratégias para lidar com isso, e eu sou a favor de que isso seja respeitado. Cada ser vivo nessa terra deve ser respeitado pelo que ele é, desde que ele não machuque ninguém, nem viole a liberdade de ninguém. Tudo tem um motivo, uma explicação e temos a ciência, hoje, nos mostrando isso. Só é necessário mais empatia, amor e um pouquinho de aceitação, para que possamos conviver em paz e harmonia, sem tantos julgamentos desnecessários. Um trauma não é uma frescura, é uma ferida tão profunda que vai deixar uma marca que você jamais vai esquecer e isso já é muito para qualquer pessoa ter de lidar. Dê espaço e amor a ela, acredite que ela está fazendo o máximo para superar - e por favor, jamais desista dela, assim como jamais meus amigos e familiares desistem de mim (isso faz toda a diferença!).


 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Aniversário, aceitação, presença


 
Hoje eu completo 31 anos. Uau! Eu jamais imaginei que chegaria até aqui. É uma grande oportunidade formada por uma série de superações - que ainda não acabaram. Eu me sinto muito grata por simplesmente estar aqui, agora, respirando, testemunhando mais um ano de experiências incríveis, felizes, infelizes, instáveis, estáveis e até mesmo inusitadas. 

Ao mesmo tempo, não posso dizer que me sinto completamente a vontade. Eu sinto um tanto de culpa. Eu gosto dos sentimentos positivos, mas as vezes as pessoas e as comparações que eu faço me fazem sentir que eu não deveria me sentir bem. Nunca. Em nenhuma ocasião. O que, quando eu paro e penso, soa muito cruel comigo mesma. Porque, afinal, a vida é esse processo dual, bom e ruim, alegre e triste, nascer e morrer. Cada evento, positivo e negativo, está contido dentro deste processo e tem emoções correspondentes. Não posso escapar delas. Eu já fiz isso a vida toda. Eu também não deveria me culpar por isso...

...O que fazer? Eu me sinto feliz por um lado, mas por outro acho que eu não deveria sentir coisas positivas! A única alternativa que veio a minha mente foi a aceitação completa do meu julgamento. Eu julgo que não mereço sentir coisas positivas porque há pessoas em situações piores que a minha, porque o mundo é cheio de crueldade, injustiças e eventos imprevisíveis. Eu deixei todo o julgamento, crítica e racionalização passar por mim e a culpa foi minimizando, pois a verdade é que eu não tenho controle sobre o comportamento de ninguém além de mim mesma (eu sei que eu já disse isso em outras postagens, mas não tem como chegar em outra conclusão). Isso não é triste, é bom, pois quer dizer que tenho poder e controle sobre mim e cada pessoa tem poder e controle sobre si. Tristes são as escolhas de algumas pessoas, que torna o mundo em que vivemos cruel, injusto e caótico. E, por isso, elas devem ser responsabilizadas - infelizmente, não é o que vemos, mas a esperança é a ultima que morre.

E porque eu decidi escrever sobre isso? Para mostrar que mesmo sendo um dia de comemoração, eu tenho de lidar com conflitos emocionais, instabilidade, decisões, ou seja, o trabalho nunca termina, a consciência, a presença é sempre uma ação constante. Existem dias que eu desanimo completamente e as emoções me levam, mas eu prefiro quando existe um equilíbrio. Não é fácil, mas vale a pena, é possível.

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