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terça-feira, 13 de junho de 2017

Os lobos dentro de mim



Eu acho lobos fascinantes. É muito mais do que admiração por serem animais bonitos ou porque os cães são descendentes deles. Eu me identifico e tenho enorme respeito. Eu comecei a pesquisar sobre os hábitos dos lobos há algum tempo, e, cada vez mais compreendo porque minha mente escolheu essa espécie como meu animal de poder, meu totem. Devo confessar que tenho uma inclinação para religiões antigas, principalmente as indígenas. O xamanismo ainda ocupa grande parte do meu coração e, foi através disso que comecei a compreender o que significava ter um animal de poder, funciona com um arquétipo, uma imagem dentro de você que simboliza algo mais, como se o inconsciente estivesse falando diretamente com você, mas, em vez de palavras, ele usa símbolos. Você pode chamar como quiser. 

Minha mente tem facilidade de alcançar os sonhos simbólicos. Segundo o psiquiatra Carl Jung, esses tipos de sonhos são manifestações dos arquétipos existentes dentro de cada pessoa. Arquétipos também se manifestam em mitos. De qualquer forma, eles parecem ter necessidade de se propagar de geração em geração através das histórias que contamos e também em nossos sonhos. Eu sonho com lobos, deuses (ou reis, ainda não entendi direito) e de vez em quando uma pantera. São sonhos contínuos e que, de alguma forma estranha, impactam meu dia a dia, transformam quem eu sou. Mas vamos nos focar nos lobos. Eu sonhos com dois, um preto e um branco, o que talvez represente a noção de dualidade da vida (bom e mau, yin e yang, etc).

Através da minha pesquisa sobre os lobos, eu descobri várias coisas interessantes que se encaixam nos meus sonhos e a mim. Lobos são animais sociais, assim como nós. Eles vivem em grupos, bandos, matilhas. Ao contrário do propagado pela crença popular, não existe o "alfa". Existe um par de lobos, macho e fêmea, que tem papéis estabelecidos - mas que podem trocar entre eles - e lideram o grupo, funcionando como "pais" e não, exclusivamente, como líderes. A matilha precisa ficar unida, pois disso depende a sobrevivência deles. 

Tão pouco a crença sobre o "lobo solitário" é completamente fiel. Lobos não gostam de viver sozinhos, é uma situação de exclusão do bando. Eles não simplesmente ficam sozinhos, são autossuficientes e vivem muito bem assim. Não! Só existe - até onde eu pesquisei! - duas situações em que eles são excluídos: ou quando um dos "pais" está velho demais e é desafiado por um jovem lobo em disputa com o papel de líder, ou quando, se o jovem lobo perder essa disputa, é "convidado a se retirar". Então, o lobo se torna o famoso "solitário". Isso encurta a vida do lobo, e consequentemente ameaça a sobrevivência deles, pois, se todos os lobos fossem assim, estariam em extinção. Um lobo sozinho tem mais probabilidade de ser morto por outro animal ou em consequência de uma ferida que não consiga resolver sozinho. Lobos cuidam dos doentes na matilha, assim como também educam os filhotes e se mantém unidos. Não é vantajoso ficar sozinho, assim como não o é para o ser humano. 

Tudo isso me fez pensar - muito. Eu me senti excluída muito cedo, sendo o período escolar - aonde deveríamos ser integrados socialmente - aonde tive mais certeza de que o meu lugar era sozinha. Eu sempre era "expulsa" dos grupos por um motivo ou outro, e não raramente por desafiar o líder. Não estou dizendo que somos iguais aos lobos, mas há muitas características em comum. Eu comecei a ficar perdida em grupos quando eu me separei do meu "alfa", meu "líder": meu avô. Sem pai e com um péssimo padrasto, eu enxergava meu avô como a única fonte de nutrição, amor, carinho e validação emocional. Mesmo sendo um alcoolista e alvo de piadas e pessoas que julgavam, ele era uma figura que eu admirava e respeitava. Quando ele escolheu ir morar longe de nós, quando ele se isolou certamente porque se sentia um fardo e tinha muitos problemas devido ao alcoolismo em estágio avançado,  eu sofri uma perda terrível. Foi como se ele estivesse morto (e quando ele morreu de verdade, foi como se tivesse morrido pela segunda vez). Lobos sentem o luto, e sofrem também, é uma verdadeira tragédia quando um lobo morre na matilha, e se forem os líderes, o bando pode ser desfeito. A morte é impactante para qualquer ser vivo. Meu avô foi para tão longe que eu tinha certeza de que nunca mais voltaria a vê-lo, portanto era mesmo uma espécie de morte. Foi a primeira vez que me percebi como um lobo solitário. 

Em casa, sozinha, tudo o que eu conseguia sentir, desde muito pequena era o vazio e o sentimento de não pertencimento. Após os nove ou dez anos, as pessoas passaram a ficar ameaçadoras para mim. Como se eu, de repente, houvesse sido expulsa do meu bando e fosse condenada a andar sozinha. Havia a desconexão interna, a falta do meu avô e não ter mais com quem contar para ter esperança, carinho, nutrição. Eu procurei me encaixar em diversos grupos, mas sem sucesso. A idade e os traumas só pioravam a situação. Era como se eu, além de um lobo solitário, fosse alguém marcado, desprezível. Sim, eu era diferente da maioria. Eu era reservada e desconfiada demais - igual um lobo. Eu procurava o meu bando, minha família, pessoas que compreendessem ou ajudassem a me fazer entender o que estava acontecendo comigo, mas, que acima de tudo me restaurassem o sentimento de pertencimento. 

Eu procurei muito, mas não achei. E, por obrigação, me tornei o lobo solitário. De alguma forma ou de outra, eu tenho um dom (ironia) para ficar sozinha, um talento (ironia, de novo) para acabar com as minhas amizades, devido a eu ser como sou. Não é uma vida muito agradável, eu tenho que ficar mudando de grupo em grupo, de tempos em tempos, porque, uma hora ou outra eu serei banida. É questão de tempo.  Eu sei que o texto está longo, mas eu preciso explicar. Existe um famoso experimento feito com lobos criados em cativeiros e cães. Os cientistas colocaram a comida em um local que eles jamais poderia alcançar e então observaram seu comportamento. O lobo não parou de tentar, ele não desistiu, mesmo que fosse impossível. O cachorro, após algumas tentativas, parou e olhou para o humano com aquela expressão de "me ajuda". Lobos não podem ser domesticáveis, o seu instinto é selvagem. Cães tem um pouco de lobo. Eu também. Eu não desisto mesmo quando tudo em mim aponta para desistência. Existe mesmo uma força de lobo dentro de mim que me impulsiona a viver, seguir em frente, mesmo que tudo esteja desabando. 

Eu não encontrei meu bando, minha matilha ainda, mas ás vezes eu entro na matilha de outras pessoas e é bom testemunhar laços familiares, conversas amigáveis, aquele ar de conforto e aceitação que a gente, como ser humano, sabe fazer tão bem. Eu gosto de observar, de fazer parte por um momento, mas depois eu vou embora. Nem sempre eu vou, ás vezes eu fico, mas, frequentemente a distância, o tempo ou minhas atitudes confusas fazem com que as pessoas me deixem. Muitas vezes penso que o problema sou eu, algumas vezes - ultimamente - percebo que não há nada de errado comigo, eu apenas sou diferente e isso assusta, incomoda, afasta. Eu me importo com isso... e ainda estou buscando meu grupo. Talvez eu nunca ache, talvez seja apenas um simbolismo, eu não sei. 

Eu tenho essa mania estranha de não desistir, de insistir, teimar, em não deixar a vida escapar tão fácil assim. Eu também nunca paro de tentar. Por isso, me identifico tanto com lobos. Eles são uma metáfora de tudo que aconteceu comigo de bom e de ruim, e acima de tudo são a certeza de que um dia eu vou ter de volta a sensação de pertencimento. 



sexta-feira, 9 de junho de 2017

Uma conversa franca sobre meu trauma



Transtorno do Estresse Pós Traumático

Eu serei breve e direta: eu sofri assédios sexuais e um estupro. Não existe outro nome para o que aconteceu naquela época, e não há motivos para não falar sobre isso. Eu já me silenciei por tantos anos, guardando esse segredo dentro de mim como se eu tivesse cometido um grande erro e tivesse de ser punida por isso, enquanto outra pessoa o cometeu e jamais foi punida. Isso aconteceu há treze anos atrás, mas ainda parece que foi ontem. Nem toda a terapia de exposição ao qual fui submetida foi capaz de extirpar as lembranças que tiveram de ser reprimidas de qualquer forma. 

Eu não tive opção. Eu não podia falar nada para ninguém. Eu não sabia nem que precisava pedir ajuda. Um manipulador sabe o que tem que fazer, dizer e como ameaçar, ele conhece os seus pontos frágeis e os usa contra você. Quando você entra em uma relação, você fica vulnerável, exposto, aberto, e existe uma troca, existe amor fluindo de um lado a outro, dedicação, carinho, reciprocidade... um manipulador se aproveita disso. Não existe relacionamento, só existe ele. Ele quer retirar tudo de você em benefício dele, fazendo você acreditar que há uma relação, e qualquer coisa que der errado (e vai dar) a culpa será sua, porque não se dedicou o suficiente. É um jogo mental. E você não escolhe cair nele. Qualquer pessoa pode cair nele, pois todas as pessoas estão abertas a relacionamentos (exceto se você for um antissocial). 

Infelizmente, eu já tinha o transtorno borderline muito avançado nessa época, devido a série de abusos que eu sofrera no ambiente familiar, e sem tratamento, nem apoio. Eu sabia que eu tinha alguma coisa diferente, que não era uma depressão como um psiquiatra havia dito, pois aqueles remédios que eu havia tomado não funcionavam, na verdade, eles pioravam, mas eu não tinha nenhuma informação, era como tatear no escuro. Eu, claramente, era um grande alvo e não era minha culpa. Eu simplesmente estava sendo vítima de várias situações infelizes ao meu redor que acontecem diariamente com muitas pessoas e, coincidentemente, eu tive o azar de cruzar com um manipulador. Ele me destruiu, fisicamente, e mais ainda, psicologicamente. Foram alguns dos piores meses da minha vida. Foi como se rompesse um fio muito fino de toda a esperança que me mantinha acreditando na vida. 

Eu entrei em delírios cada vez maiores, alucinações, paranoias, e dissociações tão fortes que haviam personalidades distintas (e claro, que fui acusada de mentir e blá blá blá e claro que eu me sinto culpada até hoje!). Em um momento, eu não sabia mais o que era realidade e o que era fantasia. Meu corpo e minha mente pareciam mesmo duas coisas distintas, separadas e eu estava com medo de me perder para sempre. 

Eu me vi tendo como única opção o isolamento. Não tinha mais amigos, pois eles me achavam uma louca que inventava histórias (devido a cisão de personalidade) e eu mesma me culpava por achar que eu era uma grande psicopata. Eu me culpava pelo abuso, me culpava por tudo. Eu só queria me isolar para sempre. De alguma forma (desespero?), eu reprimi todas aquelas memórias em algum lugar escuro da minha mente e prometi a mim mesma nunca mais falar ou pensar sobre aquilo. Só que não. 

Gatilhos são poderosos. Traumas são traumas. Todas as vezes que alguém me tocava para me cumprimentar com beijos, abraços ou simplesmente se aproximava, lá estava eu com as lembranças de todos os assédios sofridos na vida (ainda acontece). Todas as vezes que eu via algumas cena de sexo na televisão ou alguém mencionava a palavra "estupro", eu tremia por dentro, e me lembrava do que havia acontecido (não acontece mais, devido a terapia). Os gatilhos fazem da minha vida uma prisão. Obviamente, isso influência na minha vida, nos meus relacionamentos, e apesar de saber que esse sintomas são comuns em vítimas de abuso sexual, eu ainda sinto um pouco de culpa pela reação das outras pessoas. É muita pressão!

A minha mente teve que ligar o "sobreviva a qualquer custo" desde muito cedo. Negligência, falta de cuidado primário, assédio sexual do padrasto, pai ausente, o distanciamento do meu avô, várias mudanças de casa (para alguém com borderline isso é terrível), bullying, falta de apoio emocional nos momentos chaves da adolescência, e claro, um transtorno mental que eu não compreendia. Eu pensei em me matar a primeira vez aos sete anos de idade. Minha mente foi obrigada a ligar o instinto de sobrevivência muito cedo. Eu fiz o melhor que eu pude com o pouco que eu tinha. E eu considero que eu tive sorte pois eu ainda tive um pouco, tem pessoas que não tem nada. Quando você tem que sobreviver a qualquer custo, não interessam as regras, etiquetas, a educação, essa "pressão social". Isso é irrelevante. Você só precisa sobreviver (mesmo que sua mente insista na sua morte!). 

Eu compreendo que somos seres sociais, mas alguns de nós não tem tanta sorte quanto os outros. Meu cérebro ficou danificado e eu não consigo ver as coisas do mesmo jeito que a maioria. É só isso. Eu sou diferente. Não me sinto a vontade com toques, abraços e beijos de qualquer pessoa. Isso incomoda, porque causa gatilhos. Tente imaginar que cada vez que isso acontece, eu lembro o que aconteceu comigo. Não é questão de me fazer de vítima, é questão de realidade, de ser prática. Eu tenho uma regra para esse nível de intimidade: sou eu que toco, abraço e beijo, e são apenas pessoas que eu gosto muito. Eu não gosto, nem sou obrigada a gostar de todas as pessoas. Eu não vivo, nem vou viver em falsidade. Mas eu respeito a existência de todo mundo. E se precisar, eu vou falar mesmo se eu não gostar da pessoa e gostaria que ela falasse comigo caso precise. Eu jamais deixaria de estender a mão a ninguém, só por falta de sintonia. Eu só não acredito que dê para agradar todo mundo, nem que sejamos obrigados a fazer um papel teatral. Foi assim que eu percebi o mundo enquanto tentava sobreviver.  

Eu quis compartilhar isso porque eu tenho certeza de que há muitas pessoas que se sentem como eu e que são pressionadas e julgadas pelas outras pessoas simplesmente porque elas não compreendem o quanto um trauma pode ser impactante e danoso e que, ao contrário do que se diz, nem o tempo consegue amenizar. Algumas pessoas desenvolvem estratégias para lidar com isso, e eu sou a favor de que isso seja respeitado. Cada ser vivo nessa terra deve ser respeitado pelo que ele é, desde que ele não machuque ninguém, nem viole a liberdade de ninguém. Tudo tem um motivo, uma explicação e temos a ciência, hoje, nos mostrando isso. Só é necessário mais empatia, amor e um pouquinho de aceitação, para que possamos conviver em paz e harmonia, sem tantos julgamentos desnecessários. Um trauma não é uma frescura, é uma ferida tão profunda que vai deixar uma marca que você jamais vai esquecer e isso já é muito para qualquer pessoa ter de lidar. Dê espaço e amor a ela, acredite que ela está fazendo o máximo para superar - e por favor, jamais desista dela, assim como jamais meus amigos e familiares desistem de mim (isso faz toda a diferença!).


 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Aniversário, aceitação, presença


 
Hoje eu completo 31 anos. Uau! Eu jamais imaginei que chegaria até aqui. É uma grande oportunidade formada por uma série de superações - que ainda não acabaram. Eu me sinto muito grata por simplesmente estar aqui, agora, respirando, testemunhando mais um ano de experiências incríveis, felizes, infelizes, instáveis, estáveis e até mesmo inusitadas. 

Ao mesmo tempo, não posso dizer que me sinto completamente a vontade. Eu sinto um tanto de culpa. Eu gosto dos sentimentos positivos, mas as vezes as pessoas e as comparações que eu faço me fazem sentir que eu não deveria me sentir bem. Nunca. Em nenhuma ocasião. O que, quando eu paro e penso, soa muito cruel comigo mesma. Porque, afinal, a vida é esse processo dual, bom e ruim, alegre e triste, nascer e morrer. Cada evento, positivo e negativo, está contido dentro deste processo e tem emoções correspondentes. Não posso escapar delas. Eu já fiz isso a vida toda. Eu também não deveria me culpar por isso...

...O que fazer? Eu me sinto feliz por um lado, mas por outro acho que eu não deveria sentir coisas positivas! A única alternativa que veio a minha mente foi a aceitação completa do meu julgamento. Eu julgo que não mereço sentir coisas positivas porque há pessoas em situações piores que a minha, porque o mundo é cheio de crueldade, injustiças e eventos imprevisíveis. Eu deixei todo o julgamento, crítica e racionalização passar por mim e a culpa foi minimizando, pois a verdade é que eu não tenho controle sobre o comportamento de ninguém além de mim mesma (eu sei que eu já disse isso em outras postagens, mas não tem como chegar em outra conclusão). Isso não é triste, é bom, pois quer dizer que tenho poder e controle sobre mim e cada pessoa tem poder e controle sobre si. Tristes são as escolhas de algumas pessoas, que torna o mundo em que vivemos cruel, injusto e caótico. E, por isso, elas devem ser responsabilizadas - infelizmente, não é o que vemos, mas a esperança é a ultima que morre.

E porque eu decidi escrever sobre isso? Para mostrar que mesmo sendo um dia de comemoração, eu tenho de lidar com conflitos emocionais, instabilidade, decisões, ou seja, o trabalho nunca termina, a consciência, a presença é sempre uma ação constante. Existem dias que eu desanimo completamente e as emoções me levam, mas eu prefiro quando existe um equilíbrio. Não é fácil, mas vale a pena, é possível.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Dos relacionamentos e a sociedade



Todos estamos conectados. Eu tenho um relacionamento complicado com essa frase. Houve um tempo em que eu a amei com todas as minhas forças, depois a odiei com a mesma intensidade, agora não sei, as vezes concordo, as vezes discordo, depende do meu humor, das minhas emoções. Não gosto de funcionar assim, faço o possível e o impossível para ser uma pessoa melhor todos os dias, mas em algum momento sempre sinto que não é o suficiente.

Eu não foquei sonhando que a meditação me tornaria outra pessoa, mas certamente tem ajudado a saber o que realmente estou sentindo, sem confusão. E, de fato, todos estamos conectados, de alguma forma ou de outra, o que eu faço (ou não faço) repercute em você e o que você faz (ou não faz) repercute em mim. Eu me vejo, agora, aqui, coberta em rejeição, culpa, abandono e em auto críticas e auto julgamentos sobre ser paranoica, ou talvez eu tenha ouvido demais ou exagerado em alguma coisa, mas, de fato, existem fatos, gatilhos que me trouxeram até a dor que sinto agora. Viver em sociedade, em grupos, acredito não ser tarefa fácil para ninguém, mas é uma tarefa ainda mais difícil para quem tem algum transtorno de ansiedade, personalidade, enfim qualquer coisa que "prejudique" as relações.

Eu nunca me senti a vontade em grupos. Eu me sentia deslocada, não sabia o que fazer, como agir, como deveria me portar, o que dizer, pensar, eu simplesmente achava todas aquelas interações muito complexas, desnecessárias e sem nexo. Quando eu realmente me conectava a alguém era diferente, mas ainda assim difícil, pois eu tinha de lidar com emoções que iam e vinham em velocidades que nem eu conseguia suportar, nem mesmo as outras pessoas, muitas vezes eu sofria de delírios, e fui taxada de mentirosa, mas eu não me lembrava o que tinha dito, quando me lembrava não sabia o porquê, era como se minha mente estivesse se dividindo para poder lidar com aquele mundo externo, sem nexo e com um trauma do abuso sexual, verbal e psicológico, escondidos no inconsciente

Cumprimentos, beijos, abraços, apertos de mãos, apelidos. Nada disso fazia o menor sentido para mim. Por que eu era obrigada a conviver com pessoas incompatíveis comigo? E por que eu era obrigada a ter tantas etiquetas sociais com essas mesmas pessoas? Isso me parecia falso.

Com a terapia e a dolorosa experiência, eu aprendi a controlar muitos impulsos, inclusive aprendi que, ser educada não é ser falsa, mas eu não sou obrigada a falar com quem eu não gosto, apenas devo respeitar. Respeito é não maltratar, ter uma atitude não agressiva e caso a pessoa precise de mim, eu esteja lá por inteiro e não por vingança. Com isso eu conheci a compaixão. Sempre a vi nos discursos de Jesus na Bíblia (minha avó é católica, eu fiz catecismo e sim, eu gosto de ler sobre religiões mesmo que o fanatismo dela, um dia, tenha me traumatizado; estudar religiões foi a minha forma de superar esse trauma), mas não a compreendia. Com bastante neurociência, conceitos de mindfulness e uma ajudinha do meu terapeuta, aos poucos eu fui integrando esse conceito dentro de mim e percebi que é um sentimento. Eu sinto a compaixão. Eu não explico, nem raciocínio. Eu simplesmente a sinto.

Quando me vejo em situações de interação social, hoje, seja no trabalho ou no dia a dia, a primeira coisa que eu faço é tentar ver o outro sob a perspectiva da compaixão, ou seja, em vez de eu ficar em estado de alerta, pensando que "todos são perigosos" e não confiáveis, eu dou o beneficio da dúvida, eu apenas sinto a compaixão fluindo por mim, e a outra pessoa passa a ser o que ela é: uma pessoa igual a mim, sujeita a dor, sofrimento emocional, a doenças e a morte, igual a mim. Isso me deixa com a escuta mais empática, mais aberta e mais relaxada. Eu não espero que a pessoa aja igual. Eu apenas sinto. Pois eu sou responsável apenas por mim, não tenho nenhum poder sobre o outro.

Mas, eu não sou perfeita. Ninguém é. Acredito que todo ser humano merece atenção, carinho e respeito. Por causa do meu transtorno, percebo muitos julgamentos implícitos e explícitos, criticas, olhos que me julgam. Outras pessoas querem obter vantagem disso, algumas querem me afundar ainda mais. Eu não compreendo porque uma pessoa tem essa necessidade de perturbar a vida do outro. Acho que apenas respeitar estaria de bom tamanho. Frequentemente, eu sou isolada ou por mim mesma ou pelas pessoas, que, inconscientemente, ou conscientemente, adotam comportamentos de estigma e preconceito.

Eu procuro ficar distante de pessoas com quem me sinto mal ou que acho incompatíveis, e mesmo assim as pessoas me julgam. O que aprendo com tudo isso é que vão falar não importa o que você vai escolher, por isso escolha aquilo que faz sentido para você e que não prejudique a ninguém (incluindo a si mesmo). Eu gosto muito de uma frase do Dalai Lama que diz assim: "O maior juiz de seus atos deve ser você mesmo e não a sociedade. Aprenda as regras e quebre algumas". Muitas vezes, a sociedade não faz o menor sentido, principalmente com as minorias, há muita crueldade, injustiça, indiferença e ódio. Quando nós tentamos nos encaixar, ser igual a essas pessoas, perpetuamos esse modelo de sociedade. Por isso, acho essa frase do Dalai Lama tão importante e me lembro dela quando me sinto triste ou desconectada por não ser igual aos outros, por não me "encaixar", e então eu lembro: você aprende as regras, conhece elas e quebra algumas justamente por conhece-las, por entender que ou elas não fazem sentido ou elas devem ser mudadas (modernizadas), é assim que se inicia uma mudança. E não se importe com nenhum outro juiz além da sua consciência, pois se você estiver consciente, saberá que está no seu caminho. Afinal, o mundo precisa de um Você e não de mais um igual.

sábado, 20 de maio de 2017

Das transformações


Desde o começo do mês eu tenho pensado muito sobre culpa, responsabilidade, compaixão, amor, raiva, tristeza, desapego e perdão. Por causa da instabilidade emocional, em situações em que eu era seriamente ferida, eu não conseguia ficar nem por um minuto do lado racional, o que me levava a comportamentos impulsivos, mais tarde me faziam sentir vergonha, mais culpa e angústia por eu não compreender porque eu fazia coisas que eu não queria, de verdade, ter feito. Era como se as minhas emoções tivessem vida própria, um corpo, uma personalidade, e, de repente, se apropriavam de mim, aproveitando-se da minha vulnerabilidade de não ter um senso de identidade definido. Eu sinto que, hoje, ainda não tenho esse senso de "eu" muito bem estabelecido, porém, muitas coisas mudaram dentro de mim. Eu consegui estabelecer algum controle sobre todas essas emoções, e, na maior parte das vezes, não são elas que me levam, e sim eu que as controlo. 

Talvez por causa da proximidade do meu aniversário, eu tenho pensado mais sobre a minha vida, em todas as situações semelhantes a que estou passando agora e parece haver um padrão. Alguns dirão que é coincidência, mas eu não acredito mais nisso. Frequentemente, pessoas em que confio muito, que deixo entrarem em meu coração, acabam levando algo muito valioso de mim ou acontece alguma situação de "quebra de confiança" entre nós, mesmo que seja um mau entendido, mas, de qualquer forma, a amizade ou o relacionamento jamais é recuperado. Eu acabava imersa em raiva, tristeza e vazio, o que me levava a culpa, vergonha e isolamento. Eu nunca mais tornaria a ser a mesma pessoa. Eu acabava trazendo isso para os meus relacionamentos seguintes e então as situações se repetiam. Daí eu percebi que alguma crença deveria mudar dentro de mim, afinal eu não posso mudar as pessoas ao meu redor, a minha única responsabilidade é comigo mesma. 

Uma vez, uma monja me disse que o sofrimento é uma oportunidade de aprender, e que, um dia, eu entenderia isso. Na hora em que ela me disse isso, eu senti vontade de rir de raiva, pois não fazia sentido, e eu estava resistente em aceitar. Mas desde que sofri essa ferida, eu comecei a lembrar de todas as coisas que ela me disse e de tudo o que li e aprendi nesses últimos quase dois anos na terapia e nos últimos onze anos lendo todos esses livros de psicologia e religiões diversas (apesar de eu não seguir nenhuma religião). Realmente tem sido uma oportunidade. Não é menos doloroso, nem menos injusto, mas é uma oportunidade. 

Eu fiz um pequeno isolamento, um retiro de 10 dias seguidos de meditação. Todas as noites, antes de dormir, eu me propus a meditar para acalmar a minha mente sobre esse assunto, para poder ter clareza e decidir, se perdoar era possível ou necessário nessa situação. Eu gosto muito da meditação da compaixão (metta), mas também fiz uma que me ajudasse a praticar o desapego. Apesar de terem se passado 12 dias e eu continuar meditando todas as noites, sinto que minha mente está muito mais calma, e eu finalmente pude decidir. Eu acreditava que perdoar era sobre o outro. Acreditava que eu deveria esperar e ver como estaria o estado de espírito do outro, ver se ele mudaria comigo, se estaria diferente, para, só aí, perdoar ou não. Mas essa crença falava mais sobre as minhas emoções do que sobre o perdão em si. Eu estava apegada a ideia do que o outro pensa sobre mim - isso é algo que realmente me preocupa demais. 

Enquanto eu estivesse preocupada com a preocupação do outro sobre mim, eu não conseguiria perdoar, pois era um apego. Perdão parece exigir desapego. Quando você perdoa, você não esquece, você lembra, mas aquilo não dói igual antes, é apenas uma lembrança. E sim, você pode ter lembranças sem sentimentos e sentir sem ter pensamentos. Então, sim, foi uma oportunidade de fazer diferente, pois dessa vez, eu escolhi não ser controlada pelas minhas emoções. E eu posso dizer que foi muito difícil - ainda está sendo - mas vale cada segundo!. 

Eu ainda sinto um pouco de raiva e tristeza quando lembro de todas as coisas ditas e feitas (ou não ditas e não feitas), mas eu tenho conseguido manter a mente de teflon (caso você não tenha lido, clique aqui) e todos os pensamentos negativos passam por mim sem julgamentos ou críticas, pois eles são legítimos, eu realmente fui ferida, mas eu escolhi perdoar em vez de me apegar a raiva e a vingança. Seria muito mais simples permanecer na raiva, pois bastaria eu permanecer sem fazer nada, meu cérebro, minhas emoções já estão acostumadas a reagir nesse modo, porém eu nunca sou beneficiada dessa forma, nem a outra pessoa, é uma situação em que todo mundo perde e eu me sinto muito culpada depois. Além disso, nessa situação especifica, a pessoa pareceu demonstrar arrependimento. Eu não sei se foi legitimo, mas eu escolhi perdoar. Eu escolhi por mim. Eu escolhi pelo meu propósito de vida, porque acredito que seja a coisa certa a fazer, pelos meus valores. 

Além disso, enquanto eu meditava, descobri que existia mais uma crença que me impedia de exercer minha verdadeira vontade que era perdoar: eu acreditava que não merecia nada de bom, que eu não merecia ser feliz, por isso eu sempre acaba sendo ferida pelas pessoas, eu merecia isso. Pareceu algo muito cruel, ao "ouvir" no silêncio da meditação. Se era essa crença que norteava a minha vida, então era por isso que eu via sentido em me isolar em vez de tentar um reaproximação com as pessoas com que eu tinha algum conflito. Eu percebi que não deseja isso a nenhuma pessoa, nem aos meus inimigos, então porque desejava isso a mim mesma? Isso tinha que mudar e venho me esforçando para mudar essa crença dentro de mim desde então, por isso eu posso dizer que essa grande ferida abriu o caminho para uma real transformação. 

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Mente de Teflon


A primeira vez que eu li a expressão "Teflon Mind" (mente de Teflon) foi em um livro sobre terapia comportamental dialética. Na primeira vez, eu não dei muita atenção, pois eu tinha mais facilidade com as habilidades mais práticas do que com o mindfulness. A segunda vez que eu li foi no manual da terapia dialética da Dra. Marsha Lineham que, para quem não sabe é a criadora desse tipo de terapia e já foi diagnosticada com transtorno de personalidade borderline. Na segunda vez, eu estava mais focada porque eu tinha um "coaching", um treinador, alguém que poderia me orientar, meu psiquiatra. Ele parecia ser "o melhor", o mais sábio, mas, com o tempo, vi que muito do que eu pensava sobre ele era devido a idealização (por causa do borderline), quando me dei conta de que eu estava o colocando em um pedestal e desvalorizando as outras pessoas que também me ajudavam, eu dei um passo para trás e esperei meus famosos quatro meses - que eu conto em outra oportunidade. Após os quatro meses, eu voltei a ler sobre a mente de Teflon e desde então venho tentando praticar, porém ela nunca fez tanto sentido como agora. 

A nossa mente costuma funcionar como velcro. Por exemplo, você ouve uma música que não é o seu estilo, mas toca freneticamente nas rádios, em todos os lugares que você chega, o ritmo pega fácil, a letra é muito fácil de lembrar, então, quando você menos espera, bum!, ela "toca" na sua cabeça, parece que nunca mais irá tirá-la de sua mente, pois ela grudou. Sua mente é um velcro e a música "chiclete" grudou nele. Usando a técnica da mente de Teflon, a música entra na sua mente (por causa do ritmo, da letra simples, podem ter n motivos) porém você não precisa mantê-la dentro do seu pensamento, nem quando ela não foi convidada a tocar na sua mente, você simplesmente deixa a música passar, como nuvens no céu e, magicamente, voltará tudo ao normal. É claro que eu dei um exemplo simples, afinal essa técnica deve ser usada com emoções, pensamentos intrusivos, todos aqueles julgamentos, críticas e sentimentos ruins que você não chamou, mas insistem em ficar falando em sua mente, te colocando para baixo. 

Eu uso a técnica há quase dois anos, mas ela apenas fez sentido agora. Eu sofri um abalo de confiança em um relacionamento que eu prezo bastante. Talvez nós não devêssemos ser amigos, mas algo na vida nos leva a isso, é como um "velcro", e talvez haja uma recusa da pessoa em aceitar esse fato (porque é fato, ela querendo ou não!). Essa negação fez com que houvesse um atrito após o outro, e o resultado foi um rompimento de confiança que eu ainda não sei dizer se poderá ser restabelecido. Com a técnica da mente de Teflon, eu posso deixar a raiva excessiva, a tristeza, a confusão e a dor de perceber que, talvez, eu não signifique para essa pessoa o tanto quanto ela significa para mim, passar. Mas tudo bem. Deixar passar, como nuvens no céu, me deixa mais leve para perceber que a vida é um ciclo, mas que, apesar de tudo ter um final, eu posso fazer diferente dessa vez, em vez de me apegar a raiva e ao ressentimento, eu escolho deixá-los passar por mim. Meus sentimentos são legítimos, mas eu não preciso me apegar a eles. Isso é uma mente de Teflon. 

Para praticar a mente de Teflon, basta praticar mindfulness (caso você não saiba o que é, clique aqui). Parece simples, mas não é, ás vezes eu me sinto exausta e frustrada, mas o trabalho vale, pois eu sinto como se tivesse "restaurado" meu cérebro, consigo pensar com maior fluidez e clareza. E quanto maior a prática, melhor fica. Eu demorei para assimilar, mas parece que tudo tem uma hora certa para cada pessoa.


sábado, 6 de maio de 2017

Algumas palavras...


Quando um dos meus psiquiatras anteriores, o Dr. X., confirmou meu diagnóstico de transtorno de personalidade borderline eu entrei em estado de negação. Sim, eu já desconfiava, mas o estigma e o preconceito em cima dessa doença é tao grande que eu rezava para ser qualquer outra coisa, menos isso. Mas...os sintomas apareciam ano após ano, ficando cada vez pior, eu não podia mais negar o que estava a minha frente

Hoje algumas coisas mudaram. Eu troquei de psiquiatra 2x e talvez troque a terceira, eu fiz algumas terapias atuais, mas, infelizmente quando se trata de relacionamentos interpessoais, eu fracassei. Todo meu esforço foi pouco, insuficiente. Pouco a pouco, eu vejo a doença me levando outra vez ao isolamento...e eu não consigo mais lutar contra.

Eu voltei a morar com a minha mãe, eu continuo tendo problemas de insatisfação com meu trabalho, apesar de lidar muito melhor com ele agora do que antes, mas eu contínuo falhando em relação as pessoas. As vezes, no meu quarto, eu choro me perguntando porque esse transtorno aconteceu comigo, porque ele quer tirar tudo de mim e, geralmente, choro baixinho pedindo para ele ir embora, que eu preferia ter qualquer outra coisa do que ser alguém tão hostil para as pessoas que eu amo (mesmo não querendo, mesmo depois de todo o esforço que e fiz).

Talvez eu não tenha feito algo certo, e perdi algum detalhe, não ouvi algo que o terapeuta falou. Será que foi aquele dia? Será que estou resistente ao tratamento? Será que eu não tenho conserto?

E como se não bastasse, eu tenho transtorno do estresse pós traumático e dissociações frequentes. A sensação é de ser amaldiçoada. O que eu fiz? Será que mereço tudo isso? A única certeza que tenho é que nenhuma dessas pessoas deveriam estar feridas, sobrecarregadas e estressadas por minha causa. Eu carrego uma bomba dentro de mim, que explode toda vez que se sente ameaçada, por coisas, geralmente pequenas. Coisas que vejo pessoas sem o transtorno lidarem muito bem. As pessoas superam, seguem em frente, deixam para lá, meu borderline não, até quando eu decido mudar, decido agir conforme a normalidade a minha doença me lembra que ela é quem controla, não eu. Alias, eu tive a ilusão de ter algum controle nesse tempo, mas não. Aqui estou eu, em crise, com uma raiva que eu não consigo suportar, um vazio interminável e a maior culpa do mundo. Eu olho no espelho e falo para mim mesma: "olha no que essa doença me transformou... Eu sou o monstro agora".

Eu odeio cada palavra hostil que sai da minha boca, cada gesto violento, cada crise de choro e todas as coisas que, por causa do sintoma dissociativo, eu não sou capaz de lembrar. Eu odeio porque me sinto fora do controle, levadas por emoções que não deveriam estar tão exacerbadas. Eu não consigo ter compaixão comigo nesse estado. Eu fracassei com todas essas pessoas.

Eu sei que, no final, eu acabarei sozinha. É isso o que o borderline quer (quem sou eu? O que é a doença? Eu nao sei mais diferenciar... Eu perdi a identidade novamento). Porque é "mais seguro". Mas eu discordo. Seguro seria estar com as pessoas que eu amo, mas graças a esse transtorno, eu não sou mais digna. Eu sou apenas uma pessoa hostil, violenta, sensível demais e difícil de lidar.

Apenas lágrimas e muita dor podem resumir a postagem de hoje.