terça-feira, 28 de abril de 2015

Uma experiência sombria


Desta vez não foi um surto. Não foi um acesso de raiva. Não foi minha agressividade. Foi uma experiência profunda e sombria que, de alguma forma que eu não sei explicar, me transformou, acendeu uma luz no fim de um túnel no qual eu não via mais saída. 

De repente eu estava só. Completamente sozinha. Meu marido havia viajado. Minha mãe estava comigo, porém ela trabalhava a maior parte do tempo e mesmo que ela estivesse presente eu ainda me sentiria completamente sozinha. Um deserto emocional era o que eu me sentia. Eu precisava me libertar daquela camisa de força que segurava todos os meus sentimentos. Eu não os sentia mais. Eu parecia ter me transformado em uma espécie de psicopata sem sensações, sem medo, sem culpa, sem emoções boas ou ruins e pior que isso, sem a minha criatividade. Sem nada de autêntico. Sem um eu. Sem nada. Completamente vazia. Mais vazia do que eu já era e eu pensava que isso não fosse possível. 

Mas lá estava eu. Uma intuição me dizia que aquela camisa de força emocional era ocasionada por um dos meus remédios e eu parei de tomar, contrariando toda a razão, ciência e medicina. Eu não queria saber se era bom ou não fazer isso, eu precisava dos meus sentimentos de volta, não importava o quanto isso me custasse. Eu estava só. E estar só sempre foi o meu medo mais secreto, apesar de eu fazer tudo para isso acontecer. Ficar sozinha sempre foi bem confortável para mim, porém quando eu sou deixada sozinha por alguém que eu amo parece que eu fui jogada no lixo e não tenho mais valor. Parecia que eu havia perdido um pedaço de mim, um pedaço importante, e eu buscava pela morte, eu queria morrer, eu desejava com todas as minhas forças morrer. Era tudo o que eu precisava, era melhor do que me sentir descartada como um pedaço de lixo. Meu ego brincava comigo. Alucinações, delírios, frases de depreciação, memórias do passado, criações sobre o futuro, despersonalização. Eu não sabia o quanto eu era real. Eu não me sentia nenhum pouco real. Quem eu era? O que eu era? Eu já não sabia mais. Foi aí que eu comecei a descer a escada do meu inferno pessoal. Remédios para dormir não eram o suficiente para amortizar a dor de ser rejeitada. Rejeitada por quem? Pelo meu marido? Ou por mim mesma? Essa última pergunta começou a incomodar o meu ego. Ele ficou furioso! Para quem não sabe meu ego tinha cara, voz, roupas, personalidade... eu o vi começar a desintegrar conforme as perguntas começavam a pular em alguma parte da minha consciência. Então, porque não beber? E lá se foram uma, duas, três, quatro doses de rum, duas latas de cerveja, remédios, e minha mãe nem desconfiou... tonturas e mais tonturas... e mesmo assim, eu ainda me perguntava: mas se eu morrer, o ego também vai morrer, então...o que vai sobrar? Quanto mais profundo eu descia na minha sombra, mais necessidade de álcool e remédios eu sentia, eu pensei em fumar, usar drogas, eu passei literalmente pelo inferno, minha mente estava se quebrando pouco a pouco, e eu parecia estar apenas parada observando tudo, sem poder fazer nada... 

Após alguns dias de muito choro e automutilação, ao me olhar nos olhos e observar meu reflexo no espelho, eu percebi algo que não havia percebido antes. As alucinações haviam acabado, as vozes também, o ego era apenas uma voz mental como a de todas as pessoas, e a minha mente continuava dividida porém eu sabia disso, mas havia algo além disso... eu não estava desconfortável com meu reflexo, com minha imagem. Eu sorri. Aquela não era eu. Era apenas uma imagem, uma representação de mim. É o que os outros veem de mim, mas não sou eu. Eu sou mais. Eu sou consciência. Apenas consciência. E era essa a reposta que eu procurava nas sombras em que me afundei. A consciência é apenas saber que eu sou luz e sombra e que eu posso escolher quando e em que lado ficar, eu posso ser o que quiser. E isso é divertido. É uma celebração. Todos os dias poder ter uma vida diferente, simplesmente porque eu sou consciência. Foi algo interessante, diferente...mágico, eu diria. Não tenho como explicar em palavras. O silêncio me explica mais do que qualquer outra coisa. Claro que eu não deixei de ter um transtorno, mas muita coisa mudou e eu não sei explicar o porquê. A única coisa que eu sei é que ás vezes temos que passar por experiências difíceis e dolorosas para despertar algo dentro de nós: a consciência, nossa força interna, e assim começamos a entender o quanto a nossa vida é mesmo preciosa. Uma chance única de fazer algo diferente. 

Um comentário:

  1. Oi, Michele!
    Confesso que estou sumido, na correria da nova graduação, entupido de leituras... Não podia deixar de passar por aqui. Que texto magnífico... Adoro a intensidade de sua escrita, a sinceridade das palavras. Não pude deixar de simpatizar. Admiro muito sua luta, sua busca pelo equilíbrio. Continue com seus projetos, objetivos.
    Muito obrigado por esse texto! Às vezes, ao falar das trevas, nós iluminamos. E você me iluminou hoje. Fique em paz!
    Abraços

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