domingo, 17 de maio de 2015

A dor invisível


Meu dia começou bem. Eu acreditei que ia continuar assim. Eu estava sorridente, eu me sentia alegre. Mas... uma coisa pequena, tão pequena que não vale a pena ser dita, tão pequena que quem não me conhece e não sabe do meu transtorno pensa que eu estou fazendo tempestade em copo d'água porque eu quero...uma coisa tão pequena mudou meu humor, me deu um empurrão sem aviso, me jogou no chão, e ainda riu da minha sensação de humilhação. 

Os dias não tem sido fáceis. O caminho da cura não é cheio de luz e flores, não. Ele é cheio de pedras, dor e sofrimento, pois, para conhecer a si mesmo, você vai ter que colocar o dedo na sua ferida mais profunda, ver o sangue escorrer e suportar a dor. Você já sabe como é ficar sem fazer nada, você não tem mais nada a perder. Quando eu penso em desistir - como agora - eu me lembro disso. Eu cheguei até aqui e está sendo incrivelmente doloroso, porém eu me conheço de um jeito que eu jamais pensei que fosse conhecer. Eu sei coisas sobre mim, hoje, que eu jamais pensei que fosse saber, eu melhorei e muito... Mas não tem mágica. É um processo que, no meu caso, tem levado anos - e como isso cansa!

Eu estava tentando não me importar com a sensação de rejeição, de inutilidade e de exclusão que sempre aparece quando alguém simplesmente ignora a minha opinião/presença. Oras, eu também faço isso, sem querer, mas faço, quando eu estou naquele humor negro e sem vida, eu simplesmente não ouço mais ninguém. E quem entende, entende. Quem não entende, vai embora, e eu aceito, fazer o quê. Eu só estava cansada... Estava na minha cozinha, tentando distrair os cacos da minha mente quando eu senti a dor. Não era a dor da hérnia. Essa fica até suportável nessa hora. Era uma dor que vinha da alma, do ego, sei lá de onde, de todos os lugares e de lugar nenhum. Doeu tão fundo.. fez brotar um choro. Pensei em álcool, pensei em me cortar, tomar uma quantidade enorme de ansiolíticos e apagar... como pode existir uma dor tão imensa? Mas tudo o que eu fiz foi me entregar a dor! Chorar, gritar, deixar a minha mente simplesmente mergulhar na dor! E cada segundo que passa isso fica mais insuportável. Eu sei o que vem depois, e daqui a pouco eu vou ter que tomar meu remédio, mas antes disso eu queria escrever, antes que o medicamento me leve para um mundo onde tudo fica distante e confortável. 

Eu sei que dói para todo mundo. Eu compreendo isso. A gente quer encontrar o exato lugar onde essa dor está, arrancar a dor de lá e nunca mais senti-la novamente. Mas ela brinca com a gente, cada hora em um lugar e em lugar nenhum. Não existe remédio. Não existe fuga. Não dá para fugir de si mesmo. As pessoas me perguntam o que fazer nessa hora... Sinceramente, eu não sei. Eu tento todas as técnicas que aprendi nesse tempo todo, porém nada parece ter efeito quando a dor vem lá do mais profundo do inconsciente. Eu continuo a minha procura, eu vivo pela busca, um dia eu vou encontrar uma resposta, eu sei disso, eu sinto isso, mas, por enquanto, parece que existe algo a aprender, e apesar de doer, e de ser terrivelmente assustador, não há nenhum outro lugar onde eu gostaria de estar, pois essa é a primeira vez que eu não senti vontade de morrer.

4 comentários:

  1. Que bom que não sentiu vontade de morrer e sim de ficar para lutar. Isso é uma vitória muito grande e torcendo para tenha outras, pq a luta continua. Seremos tentados sempre por esses monstros invisíveis e só o que temos que fazer é lutar contra eles. Fugir já vimos que não adianta. Então, que toquemos nas feridas e encaremos a dor. Uma hora ela vai ficar suportável e talvez não existirá mais. Ou ficará num canto sem que prestemos atenção a elas. Força!

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  2. Ah! minha querida, você não imagina como a entendo !
    Tenho hoje 60 anos. Pensa em alguém que desde a infância sofre de dores na alma !... Venho de um histórico de rejeição, incompreensão, frustrações, e negligencias emocionais por parte da família. Não por não me amarem. Mas por total ignorância. Sofri uma sucessão de traumas, que nem mesmo minha família, meus filhos, os companheiros que tive, souberam. - E sempre julgada como problemática e difícil. Não foi fácil carregar sózinha tanta DOR . Não é fácil. Não tem sido fácil. - Mas como tudo sempre pode ser pior, eu recebi da vida o golpe de misericórdia, e fui lançada no abismo. Perdi um filho de 36 anos em decorrência de um infarto. E a morte do meu filho é o meu caos absoluto. Eu não tenho mais volta, e sei disso. Não tem trégua pra dor que sinto . Dor que você descreve bem . É assim mesmo. Milhões de vezes eu pensei em me matar; Mas não tive e não tenho coragem; Exatamente porque tenho pelo menos 6 pessoas que amo e que sei , que me amam. Que sofreriam muito. Tenho 2 netos, e mais dois filhos. E os amo acima de tudo. - Contudo sou e estou absolutamente sózinha. Optei há alguns anos por viver só. Sei que assim, eu lido melhor com esse monstro que devora minha alma, minha mente, minha carne, minha sanidade, sem prévio aviso. Muitas vezes por dias e noites sem fim. Contudo, eu desenvolvi alguns recursos pra me socorrer, e são esses que tenho pra sobreviver. Tento focar no amor aos meus, e sigo... As vezes não tenho forças pra me carregar,... mas sigo. Sei que Não tenho cura. Vivo na condição de amputada emocional. Tenho um buraco no peito. Posso quase que senti-lo , literalmente. E Já aceitei isso. O mais doloroso , e que me revolta muito, é o preconceito, a ignorância, e a absoluta falta de amor e solidariedade das pessoas , com quem esta ou vive em sofrimento. Ninguém quer saber, ninguém quer por perto, ninguém respeita. Eu desacreditei completamente da espécie humana. O que restou ? ... No meio desse caos que vivo, acredite, eu sinto profundo e sincero orgulho pela pessoa forte que sou, apesar de tanto abandono. Sinto sincero orgulho pelos sentimentos nobres que possuo, e pela capacidade que tenho de amar, e que ainda tenho de me socorrer, de me por no colo, quando a dor transcende todo o entendimento . Sinto-me como um desperdício por ter tanto amor, tanta solidariedade ao proximo, e ninguém, absolutamente ninguém, me enxergar . - Foi bom te ler viu. Te desejo forças . Beijo linda!

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    1. Neusa, obrigada por compartilhar sua história comigo, eu fiquei muito emocionada. Sinto muita admiração pela sua força, sua trajetória e o modo como você encara a vida. Meu maior respeito por você e por tudo que você passa, eu espero conseguir me manter com essa visão igual a sua! =) Obrigada mesmo por compartilhar, foi muito importante para mim e espero que ajude outras pessoas! Beijos

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    2. Neusa, fiquei triste pela sua realidade, mas feliz em saber que não estou sozinha. Me identifiquei com você. Apesar de não ter vivido tanto quanto você, compartilho desses sentimentos, e sei o quanto é difícil. Acho que sou uma mistura de Michele e Neusa. E, assim, vamos vivendo...

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