domingo, 23 de agosto de 2015

O peso do diagnóstico

 
Não foi fácil tomar a decisão de mostrar o meu rosto e meu nome para todo o mundo e dizer que tenho um transtorno mental, mas eu o fiz porque achei que era o melhor caminho para que outras pessoas como eu também sentirem-se livres para fazerem o mesmo. Claro que, naquela época eu não sabia que eu tinha um transtorno de personalidade borderline - eu fui diagnosticada erroneamente desde os onze anos com um quadro depressivo o que piorou muito a minha melhora. Mas seja qual for o diagnóstico, ter um transtorno mental pode ser uma salvação ou uma condenação. Calma, eu vou explicar...

O que define uma pessoa ser considerada "normal"? Não ter um diagnóstico? Bom, basta então uma pessoa não ir ao psiquiatra então! Se você não for, não terá um diagnóstico de nada, mas isso não impede de você ter algum problema, e convenhamos, a maioria das pessoas, em algum nível, tem alguns conflitos emocionais a resolver só que muitas vezes elas não admitem e é aí que o paciente psiquiátrico entra em uma história muito injusta. 

Vamos a uma breve explicação: a ciência já sabe que 95% de nosso cérebro funciona através do inconsciente, ou seja, nós agimos de forma automática, sem estarmos presentes a maior parte do tempo. E o que isso significa? Um clássico exemplo é quando uma pessoa é assaltada e reage de forma contrária ao que imaginava que fosse agir. Ela sempre acreditou que fosse reagir ao assaltante, mas simplesmente paralisou pelo medo de morrer e depois que o assaltante foi embora ficou ainda mais chocada pela sua reação inesperada. Esse é o inconsciente: o que reagiu de forma inesperada. Esse é o modo com que agimos a maior parte do tempo. Simples assim. Se você não gerencia as emoções, elas controlam você. Quando uma pessoa decide não observar as próprias emoções e simplesmente ignorá-las, as emoções não somem. Elas vão para algum lugar. Elas vão para o inconsciente. Elas são reprimidas. E quanto mais você se distanciar, maior a chance de isso se voltar contra você qualquer dia desses... Um surto de raiva sem explicação, quem sabe.. Ou um bode expiatório: o paciente psiquiátrico!

Agora vamos voltar ao diagnóstico. Desde que eu "ganhei" e sustentei o título de pessoa com transtorno mental eu tive uma vida nova com muitas coisas boas, mas muitas coisas ruins, umas delas foi justamente ter me tornado um bode expiatório para pessoas que não querem sanar seus próprios problemas emocionais. De repente, eu me tornei o centro de uma história injusta e maldosa onde nada do que eu digo é verídico ou confiável devido ao meu histórico de transtorno mental; eu devo ser temida, pois posso ter um "surto" a qualquer momento; e sou uma pessoa instável o tempo inteiro, não podendo tomar conta de mim mesma, quando, na verdade não é nada disso. Assim, tira-se o foco da veracidade dos fatos: a pessoa está demonstrando desespero, instabilidade emocional severa e raiva contida e não quer olhar para si mesma porque vai dar um trabalhão, vai doer profundamente e ela não quer passar por nada disso! Quando eu entro no jogo "macabro" acabo ficando tão ou mais desesperada que ela e aí mais crises acontecem comigo, confirmando para quem não me conhece que eu realmente sou a "louca" que a pessoa tanto fala, mas quando eu consigo sair do jogo e entro em mim mesma, por mais que as outras pessoas continuem me vendo como a "louca surtada", eu sei que eu não posso me calar. Eu não me esforço tanto para simplesmente deixar o preconceito me vencer. Nós somos mais do que isso. Nós somos uma força que não pode ser contida. 
 
Eu não estou sozinha. Eu não estou fazendo tudo isso apenas por mim.  Eu faço por todas as pessoas que estão de pé, lutando por suas vidas, como eu estou lutando. Nós não podemos deixar que pessoas tóxicas calem a nossa voz, distorçam o nosso discurso, acabem com nosso futuro ou tirem as nossas vidas. Nós estamos juntos. Nós somos seres humanos, não somos um diagnóstico. Cada célula do meu corpo sabe que eu ficarei saudável novamente porque eu quero, eu estou fazendo o que eu tenho que fazer para isso acontecer, eu não estou sentada esperando a salvação. Eu fui atrás, como muitos foram e muitos ainda irão. Eu não vou desistir nem agora, nem nunca. E isso é uma promessa antiga já. 

Um comentário:

  1. Olá, Michele.

    Acabei achando o seu blog clicando de link em link e andei lendo as suas postagens. Gostei de muitas delas mas essa deve ter sido a que mais me chamou atenção, pois é verdadeira e meio que mostra um medo que eu tenho: ser exposto.

    Essa maneira como as pessoas podem te enxergar após admitir os problemas que você tem deve ser mesmo frustrante. Eu cresci cercado de gente que com essa opinião de que quem vai ao psiquiatra é um "louco surtado" e só hoje vejo como isso foi nocivo pra mim. Perdi um tempo precioso tentando esperando uma salvação cair do céu sem querer admitir que tinha problemas. O resultado disso foi só mais ódio cultivado por mim mesmo. Então acho que é por aí mesmo, não digo que todo mundo precisa sair falando pra toda sociedade sobre suas angústias (se bem que lugares como o seu blog prestam um ótimo serviço), mas "sair da bolha" em alguns casos deve ajudar, acho meio difícil dar continuidade ao tratamento sem apoio de ninguém. Eu não tenho ninguém além da minha família (só pais e irmão), mas se eles não soubessem disso seria ainda pior.

    É isso, gostei do que li. Eu escrevo faz algum tempo mas só recentemente comecei a pesquisar pessoas com problemas similares. O meu blog é esse aqui: http://diariodeumjovemdepressivo.blogspot.com.br/

    Outra postagem que gostei muito foi a que você fala sobre o seu problema com a bebida. Por coincidência escrevi algo sobre isso há um tempo.

    Fica na paz.

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