quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Expondo a ferida




"1 2 3... 1 2 3, beba
(...)
E eu estou aguentando firme pela vida
Não vou olhar para baixo, não vou abrir meus olhos
Vou manter meu copo cheio até de manhã
Pois eu estou aguentando firme pela vida"
Sia - Chandelier

Você ficaria chocado se eu dissesse que eu bebo uma ou duas doses de álcool, de vez em quando, para esquecer do caos que é a minha vida emocional interna? Meu avô fazia a mesma coisa, mas de uma forma bem mais violenta do que eu. Eu sou discreta, não permito que a "sociedade" me veja fora de controle, sem inibição ou completamente deprimida. Eu não. Isso seria terrível. Que tipo de pessoa eu seria? Bom, eu vou dizer: um ser humano com um grave transtorno mental para superar. E, como qualquer ser humano, eu tenho meus altos e baixos. 

Sim, eu tenho problemas com álcool e eu devo ter mencionado muito superficialmente por aqui sobre isso, mas se eu não disse estou dizendo agora porque eu não preciso me envergonhar, nem esconder esse fato. Eu escolhi falar sobre o transtorno da personalidade borderline (ou qualquer outra coisa que eu tivesse) e tudo o que vem com ele. Tudo. Isso veio com ele. E é assim que é. Eu não gosto de agir com impulsividade e beber como uma idiota sem controle do meu corpo, mas de vez em quando acontece e foge completamente de qualquer explicação que eu possa dar. Tudo o que eu sei é que eu sinto muito, eu sinto tanto que dói. Dói demais. E eu tenho que fazer algo para essa dor parar. Na maior parte do tempo a meditação, a yoga, a aromaterapia, exercícios de bioenergética, tudo isso funciona, diminui a dor, porque eu controlo meu corpo mas, tem dias que nada disso...nada disso tem nenhum efeito. E aí reside o perigo. Nesses dias eu não consigo encontrar nenhum fragmento que eu possa chamar de "eu", desesperadamente, eu me perco em algum lugar sombrio dentro da minha loucura emocional. Todos os sentimentos parecem querem explodir ao mesmo tempo e eu não consigo suportar o peso. E muitas pessoas falam muita coisa, muitos conselhos... eu sei que elas querem ajudar, mas eu estou em algum lugar entre a sanidade e a total falta de bom senso e o inferno, eu não consigo sair de lá. Eu afundo. Eu estou sendo enterrada. Afogada. Morrendo sufocada pelas minhas emoções. A única saída "racional" é beber, me auto mutilar, auto medicar, fazer alguma bobagem da qual eu vou me arrepender muito. Mas, naquele momento, parece a única solução viável, porque as emoções querem me tirar a vida e isso eu não posso permitir. Nunca. 

É fácil julgar e dizer que eu sou uma pessoa fraca por simplesmente virar um copo e deixar uma substância agir sob meu cérebro. Entenda, antes de chegar nisso eu tentei com todas as minhas forças, mas pensamento obsessivo é algo chato. Ele não para até você olhar para ele e sucumbir. Mas eu aprendi algumas táticas. Antes eu tendia a brigar com o pensamento até ser vencida por ele e acabar no lago de sofrimento e vergonha que é beber até esquecer de si mesmo. Agora eu apenas deixo o pensamento e não imponho resistência. Parece loucura, eu sei, mas eu não sou uma pessoa sã. Eu aceito que quero beber, e não tento justificar, nem racionalizar. Faço um relaxamento muscular. A vontade aumenta. Eu não mexo um músculo, apesar de todo meu ser querer levantar e beber. Eu me apego ao fragmento de "eu", eu necessito dele para fazer isso ou eu vou sucumbir ao vício, e ali estou eu dizendo a mim mesma que "estou aqui e não vou a lugar algum", "está tudo bem", "você é bem vinda", "não tem nada com o que se preocupar agora", "tudo o que você está sentindo é ruim, mas vai passar, como das outras vezes"... e a vontade passa. Funciona 90% das vezes. E os outros 10%? Bem, não é milagre e não foi fácil chegar ao relaxamento total, pois minha mente ficava em protestos e súplicas. Mas eu consegui. 

Eu não estou aqui para dizer que estou curada e nunca mais bebi. Eu bebo. Mas muito menos do que antes. Ocasionalmente. Dez por cento. Só quando não consigo evitar de cair no poço profundo ou quando me perco de mim mesma. A medicação reduz o comportamento impulsivo, mas é a terapia que realmente o modifica. Eu tenho que aprender algo novo para substituir o antigo. Não é simples, mas também não é impossível, só leva tempo e paciência. Ás vezes eu sento e choro de medo de tudo isso não dar certo, mas aí me pego lembrando de alguma frase do meu psiquiatra ou da minha psicóloga ou até mesmo algo que eu descobri sozinha e sigo em frente. Eu estou tentando. Eu estou salvando a minha vida. Isso é por mim. Isso é por aqueles que amo e por aqueles que amarei. 

2 comentários:

  1. Garota... vc é forte! Te admiro por isso! Se parabenize, pois não é todo mundo que consegue se controlar 90% das vezes. Infelizmente a gente é humano e erra mesmo, mas importante é não desistir e continuar lutando contra o erro.
    Continue assim :)

    abraços da Fran,
    http://nomundodafrancine.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Gostei do depoimento. Não se sente livre (nem que momentaneamente) a cada vez que escreve se abrindo assim? Parabéns pela força e continuemos na luta. Vamos conseguir!

    ResponderExcluir

Sinta-se a vontade para comentar, apenas não seja grosseiro.
Se quiser me escrever, envie e-mail para blogenlouqueser@gmail.com , mensagens hostis/sem propósito não serão respondidas.

Pesquisar este blog