quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Um pouco do que descobri sobre mim

Um dos critérios para transtornos de personalidade borderline segundo a enorme (e controversa) "bíblia" dos psiquiatras - o DSM - Manual de Diagnósticos e Estatísticas é:
- Distúrbio da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self (si mesmo).



Pessoas com distúrbio da identidade tendem a questionar-se quase o tempo inteiro sobre a sua existência e automutilar-se para confirmar se realmente elas existem (cortar-se é uma forma física de provar a si mesmo que você é real para um cérebro distorcido pela "lógica" de um transtorno mental). Todas as vezes que eu leio esse critério eu repasso toda a minha adolescência, e os últimos nove anos da minha vida (eu tenho 29 anos) na minha mente. Eu fui, literalmente, uma metamorfose ambulante - e provavelmente, eu ainda sou. O problema é a incerteza e a necessidade de aprovação, de que haja outra pessoa para dizer que você é você. Isso pode soar extremamente ridículo para uma pessoa sem distúrbio de identidade, mas para mim isso foi o "normal" por muito tempo.

Desde que eu me lembro, principalmente na adolescência, eu via as pessoas como extensões minhas. Minha sobrevivência, minha vida, dependia delas. E não é exagero. Eu olhava no espelho e não via meu reflexo, via algum tipo de fantasma, um vazio, algo estava perdido dentro de mim, doía olhar aquela pessoa estranha olhando para mim, eu não era aquela pessoa, eu não sabia se eu existia, eu não tinha certeza, quem eu era?, qual era meu nome?, aquilo estava mesmo acontecendo?, a realidade era real?... essas perguntas pulam na minha mente de vez em quando, e, na minha adolescência gritavam todos os dias. Sem falta. Se eu não sabia quem eu era, nem mesmo sabia se a realidade estava correta, então nada mais justo do que procurar uma personalidade para "vestir". Era o que meu cérebro sabia fazer. Daí a instabilidade. Eu mudava de acordo com a pessoa, o ambiente, qualquer coisa. Eu copiava tudo, tom de voz, crença, valor, eu era maleável nesse ponto, vazia a ponto de qualquer um conseguir me preencher. Isso era perigoso. Foi tão perigoso que eu já fui alvo de lavagem cerebral por conta de religião - mas isso é outra história.

Eu era um barco sem rumo entregue a direção das minhas emoções e elas sempre quiseram me matar, ou, talvez, me enlouquecer. Vai saber. De qualquer forma, eu sempre acabava agindo em nível emocional. Quanto menos eu sabia sobre mim mesma, mais desespero eu sentia. Eu parecia estar invisível certas horas. Será que as pessoas me viam? Será que eu me via ou era apenas uma ilusão da minha mente? Automutilação era a única saída. Sangue. Dor. A prova de que eu tinha um corpo. Eu existia. Os efeitos colaterais disso eram os piores: vergonha, cicatrizes, tristeza, mais vazio. Eu tendia a acreditar que aquele sofrimento nunca teria fim.

Mas aqui estou eu. Talvez eu não devesse estar cantando vitória agora, mas parece que estabilidade é uma palavra que eu posso começar a considerar. Eu passei por várias situações estressantes nas duas últimas semanas (o que já é DEMAIS para mim) e não considerei a opção de me automutilar. Há muito tempo não me perco do meu "fragmento de identidade" que encontrei e estou construindo. Agora vejo as pessoas como pessoas e não extensões minhas, mesmo aquelas que amo, e sei que cada um tem a sua vida e eu tenho que respeitar isso. Eu continuo mudando muito, mas não tanto e eu considero isso bom. Continuo me perguntando quem sou eu, mas tem resposta: eu estou aqui e não vou a lugar algum. Não sei quem sou. Mas eu estou aqui, independente se alguém fala comigo ou não, se alguém me vê ou não, eu sei que estou e não preciso de confirmação, muito menos aprovação. Acho que isso é um pouco de liberdade, não? 

Um comentário:

  1. Oi, Michele! Sempre feliz com seus textos que, aliás, estão cada vez mais tocantes.
    Desde que comecei a praticar yoga tenho vigiado melhor meus pensamentos, hábitos... Tentando me manter longe do que me faz mal, mesmo que esse alguém seja eu mesmo. São dias e dias... às vezes, lidamos com as imagens de quem costumávamos ser. Neste processo de transformação acabei me fechando mais para uns, me abrindo para outros. Assim como você, tenho me sentido mais estável.
    Abraços!

    Blog do Ben Oliveira

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