sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Comportamento auto destrutivo

Vamos para outro critério para Transtorno da Personalidade Borderline, segundo o DSM-IV (a "Bíblia dos Psiquiatras"): (5) recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilanteJá falamos da (4) a impulsividade e (1) instabilidade afetiva.



É tudo muito rápido. Os segundos mais agoniantes da sua vida. E não, eu não estou exagerando, eu gostaria de estar, mas não estou. A angústia se mistura a mil e um sentimentos de uma vez só, sem te avisar e sem te a dar a menor chance de se defender ou tomar alguma atitude para que o que está por vir não aconteça. A avalanche. A tsunami. Invadindo cada célula do seu corpo. Aterrorizando sua imaginação. Matando toda a esperança de estabilidade emocional. Já era. Você se tornou um corpo possuído por emoções instáveis. Agora é só descida.

-Tenta respirar. Lembra daquele exercício? Que exercício? Que se dane, não quero respirar! Eu não consigo! Isso não funciona. Eu preciso de alguém. Eu preciso de ajuda. Meu deus, o que eu sou?  Quem eu sou? Eu não sou nada. Eu sou ninguém. Respirar? Respira fundo. Um. Dois. Três. Não funcionou. Viu? Eu te disse? (Gargalhada mental) Tá rindo de quê, idiota? De você. Você nem sabe quem é. Nunca soube. É por isso que cortar a garganta de um lado a outro é sua melhor opção... [Tomar o remédio agora é a minha melhor opção, essa foi a minha escolha, e foi mesmo!] ---> Isso é um fragmento do que eu me lembro de uma crise. Foi a primeira vez que eu lembrei de alguma coisa.

Isso acontece fora de crise também. Eu tenho uma imaginação muito ativa. O problema disso é o "muito". Quando a minha mente não está bem, a imaginação não é de grande ajuda e é aí que o critério número cinco entrou. Agora eu sofro menos com 'gatilhos emocionais' (situações atuais que recordam situações passadas, daí a gente sente como se ainda estivesse no passado e age como se estivesse emocionalmente no passado, mas tá no presente, deu nó na cabeça?) por causa dos tratamentos que faço, mas antigamente eram todos os dias. Qualquer coisa podia ser um gatilho e quando você puxa o gatilho de uma arma o que ela faz? Dispara. Eu disparo uma série de comportamentos chamados auto destrutivos: suicida e automutilante. Eu ainda sofro com pensamentos e impulsos de suicídio. E automutilação? Muito, muito menos. Comparado com antes, é quase zero. Eu não sinto mais vontade de me machucar. Eu consigo me equilibrar mais. A chave aqui é a palavra equilíbrio. Mas chegaremos nela mais para frente...

Porque uma pessoa precisa se mutilar? Porque a dor que ela sente é enorme. Você deve ter lido em alguma outra postagem o tamanho da minha dor. Ela parece bem real e ela é para o meu inconsciente e o que eu tiver de fazer para aquilo parar eu vou fazer porque é essa a mensagem que está vindo do meu inconsciente (que, para quem não sabe, manda em 95% de nós). Se eu ainda não aprendi outro mecanismo para lidar com aquela dor, eu vou usar o único que eu tenho: sentir uma dor física. É provado cientificamente, que, pessoas se automutilam porque sentir dor física é melhor do que a dor emocional, além de que através do corte são liberados hormônios que aliviam a dor emocional! Ou seja, por mais bizarro que você ache, a dor física alivia a dor emocional. Além disso, como já falei anteriormente, a falta de um senso de identidade faz com que alguns de nós precisam ver que são reais (meu caso), o corte nos faz sentir vivos, reais, existentes. Quando eu via o sangue, eu via que estava viva, e ficava feliz por estar viva, por existir. Bizarro, eu sei, mas o inconsciente age por caminhos estranhos.

E o comportamento suicida? É pra chamar atenção? Não. Esse é um genuíno pedido de ajuda. O borderline é emocionalmente instável, de repente tudo fica muito confuso, tudo o que a pessoa quer é que tudo acabe, rápido. Qual é a única alternativa que você conhece? Mas isso passa em minutos. Já pensou tentar acabar com a própria vida em um minuto e se arrepender amargamente no outro? Eu sei o que é isso. Eu sempre passei muito perto. Todas as minhas tentativas fracassaram. Ou alguém apareceu, ou aconteceu alguma coisa, mas eu até senti o hálito frio da morte na minha orelha - e me arrependi amargamente uns dois minutos depois. O que eu estava fazendo? E esse círculo ia e voltava, ia e voltava. Repetidamente. Ainda continua. Com maior espaço de tempo. A morte ficou mais distante. Esses dias até senti a mão dela no meu ombro... Porque? Porque é difícil suportar tantas emoções dentro de você, mudanças bruscas de humor sem previsão, alucinações, falta de identidade, problemas de autoimagem, choros, além de julgamentos, preconceitos, cobranças, medo, culpa, vergonha, estigma social, exclusão, pressão, medicações diárias, tratamentos que não deram certo e tantas outras coisas que eu deixei de citar. Mas não me entenda mal, não estou contando isso porque quero a sua pena, estou contando isso porque quero que você compreenda como é ter um transtorno mental. Se você tiver um transtorno mental, quero que se sinta a vontade para ser você mesmo. Se você não tiver, quero que você compreenda que não há o que ter medo. Só temos medo do que não compreendemos.

Uma atualização: esse critério foi o que me levou ao meu psiquiatria atual e à terapia comportamental dialética. Eu acreditava que não havia salvação para mim, mas não é verdade. O comportamento suicida e automutilante pode ser mudado. Pode ser substituído por novos comportamentos mais eficientes. Dá trabalho, mas vale a pena. Há recaídas, e isso só quer dizer que você está tentando e está conseguindo. Não desistam de si mesmos, nunca, nem quando alguém for uma pedra no seu caminho (desvie da pedra e continue, ok?)

20 comentários:

  1. Eu gosto muito quando vejo postagem assim, sabe?
    Acho que nunca conseguiria explicar as minhas crises de ansiedade tão bem quando você descreveu o que você sente quando tem as suas crises. Vez ou outra acho alguém chega bem perto de mostrar o que se passa dentro da minha cabeça.

    Às vezes, nos raros momentos que a medicação funciona em mim e eu tenho um dia inteirinho sem pensamentos depressivos e sem meus sintomas físicos de ansiedade, eu tento me colocar no lugar das pessoas que dizem que "isso não é nada'. Nossa, quem está no estado "normal" dificilmente vai conseguir compreender a gente nos nossos piores dias. Às vezes, quando meus remédios estão surtindo efeito eu acho isso tudo muito insano. Às vezes, nesses mesmos dias que eu estou me sentido melhor, eu até pergunto como pode haver tanta discrepância entre uma pessoa com boa saúde mental e outra com uma saúde mental não tão boa assim. Repito, eu acho isso insano. Como pode uma coisa dessas?!

    Texto excelente, Michele.

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    1. Obrigada, Skull, eu tenho um diário e na última consulta meu psiquiatra pediu para ler algumas partes, eu pensei "Jamais", porque se você já achou que esse texto parece o que se passa dentro da sua cabeça, no meu diário é exatamente o que tem dentro da minha cabeça, hahaha, é bem mais detalhado. Eu gosto de escrever assim, mas não escrevo sempre assim aqui porque ás vezes penso que vocês vão achar chato, mas que bom que gostou! =)
      Aqui vocês são livres para colocar para fora o que pensam. Sem censura. A linha entre a sanidade e insanidade é mesmo muito fina.

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    2. Pois é, Michele, Às vezes eu acho que escrever assim mesmo, sem muita preocupação em fazer sentido, é melhor. Muitas vezes, quando eu tento me fazer entender no que escrevo, fico frustrado pois não consigo passar o que quero com exatidão.

      Sobre essa terapia comportamental dialética, como você enxerga o tratamento antes e depois dela? Acha uma coisa eficaz?

      Abraço!

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    3. Skull, antes da terapia eu era a completa bagunça que vocês estão lendo nos textos, que vocês podem ler nos outros textos, eu vivia refém das minhas emoções, literalmente, eu não conseguia controlar nada, eu não sabia que podia. Por causa de psiquiatras anteriores, eu acreditava que estava condenada a viver para sempre assim, esperando o dia que as minhas emoções iam me matar, porque era uma montanha-russa emocional diária. Depois da terapia e de remédios certos, a montanha-russa começou a ficar mais espaçada, não é mais diária, era um dia sim, um dia não, e hoje em dia, as crises são semanais, ou depende do que está acontecendo. O mais importante: eu percebi que controlo meu comportamento, deu trabalho, mas eu controlo. Tem horas que não controlo, mas tem horas que sim, e é nessas horas que uso as ferramentas que o psiquiatra ensina. E eu sei que vai chegar um dia que eu vou controlar pelo menos a maior parte dos meus comportamentos (como toda pessoa normal) que é o alvo x da terapia... eu achava isso impossível, agora acredito e sei que é possível porque estou vendo acontecer mudanças em mim! =) Então acho muuuito eficaz, no meu caso, outra pessoa pode achar completamente sem sentido, é muito particular. Abraços.

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  2. Gente, seus textos estão cada vez melhores. Tenho certeza de que é muito difícil conviver, mas ainda assim, a maneira que você descreveu e brincou com as palavras. Foi muito mais do que um 'simples relato'. Você deu vida ao texto.
    Abraço! E torço sempre para que você fique em paz \o\

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    1. Ben, você sempre gentil! Obrigada pelo elogio ao meu texto, sempre importante sua opinião, querido!

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  3. Olá Michele,
    Muito obrigado por visitar meu blog e ter se identificado, visitei várias vezes o seu blog antes de criar o Sobrenome Ansiedade, então posso dizer que você foi uma excelente fonte de inspiração !!! Suas postagens são ótimas.
    Realmente o nosso trabalho no momento não é algo motivador. O funcionalismo público pode ser o sonho de muitos e o pesadelo de outros, mas ainda sim, em tempos de crise, vejo as suas vantagens (porém, continua sendo algo que me causa depressão). Sempre penso em ter algo próprio, em empreender, mas..... e o medo? Logo vem a depressão e os sonhos se diluem.
    Gostei da sua dica, vou procurar saber um pouco mais sobre Bioenergética e meditação, confesso que nunca tentei...
    Abraços.
    Bruno Deprê

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    1. Bruno, obrigada!!! Ai que honra ter sido inspiração para o seu blog! Eu fico tão emocionada quando vocês dizem isso... sabe, eu nunca esperei nada disso. É uma alegria e uma motivação para continuar a escrever. Sim, há vantagens no funcionalismo público, é questão de ver os dois lados, sempre. Meu sonho mesmo é escrever, mas tenho medo imenso de publicar meu livro... das críticas... ainda é algo a superar... rs.

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  4. Fiquei tão aliviada por finalmente ter encontrado alguém que expressou tão bem a DOR tão devastadora que me consome todos os dias, por senti-la também.
    Tive uma infância marcada por traumas e desamor familiar. Depois uma adolescência marcada pela rejeição e julgamento dos meus pais, irmãos, e parentes que não me entendia que eu já estava com depressão; e essa só se agravou mais e mais. Casei e dez anos depois divorciei, por ele me considerar louca; tive filhos que jamais compreenderam minhas crises de choro, de isolamento, e de tristeza profunda; e me isolaram também. Perdi um filho a dois anos, perdi um amor ; e perdi minha identidade como SER.
    Estou fragmentada, dolorida, perdida e com um buraco na alma.
    Tenho medo, tenho tristeza, tenho solidão, tenho panico, tenho desespero, tenho profundo desamino, e estou completamente só .
    Sinto muita raiva da insensibilidade das pessoas para comigo.
    Me acham orgulhosa, metida, negativa, seletiva ...
    Nunca alguém percebeu que eu só preciso de abraço, e alguém que me ouça.
    É um deserto sem fim .
    Tenho um ponto comercial vazio, em que eu gostaria muito de montar um negócio e me tornar produtiva, alegre, ... Mas tenho muito medo. Não consigo levar adiante nenhum projeto. Nem saem dos meus sonhos.
    Queria parar essa DOR , esse desconforto, essa solidão...
    Só queria parar essa DOR ...
    Mas não consigo.
    Grande abraço!

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    1. Neusa...sei bem como é sentir essa DOR tb.
      Infelizmente, estou tentando para-la, mas tb não consegui ainda.
      Mas não vou desistir.
      Bjs
      Não desista também. Ta?!!?

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    2. Michele, parabéns pelo seu blog. Comecei o meu a poucas semanas. Estou em tratamento contra Ansiedade e na tentativa de encontrar um novo caminho, estou escrevendo. Escrevo para fugir do que sinto, do que me prende, do que tanto me angústia.
      Amei ler suas postagens,estarei acompanhando seu blog e tirando inspirações para os meus textos.
      Forte abraço.

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    3. Neusa, tenho uma ideia de como se sente. Acredite, tem solução, essa dor que a gente sente, pode diminuir, não desista de si mesma, nunca, busque tratamento, busque ajuda, mas não desista, ok? Acredite. Existem profissionais sérios que querem ajudar. Eu sei que as pessoas não ajudam muito, mas é porque elas não compreendem o que a gente tem, e as pessoas tem medo daquilo que elas não entendem. Quanto mais informação, menos preconceito, menos medo, por isso eu criei esse blog para tentar diminuir a falta de informação e o estigma que existe em torno do paciente borderline. É uma gotinha, eu sei, mas tem mais pessoas fazendo isso... Estamos juntas!! =)

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    4. Gratitude, obrigada e seja bem vinda!!!! Escreva sempre porque isso ajuda a extravasar os sentimentos e diminui a ansiedade e fico honrada em ser inspiração para você, viu? =) Gente, vocês me deixam emocionada!

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  5. Esse texto reflete o que estou sentindo, realmente, sentir a dor física libera toda essa angustia emocional, mas por horas minha mente trabalha tanto em me frustrar que meu corpo todo cansa, e a mente não, é exaustivo, já troquei de medicamento, faço acompanhamento mensal com o psiquiatra e semanal com psicologo mas sinto que nada dá certo, acabei de descobrir seu blog, aposto que vai me ajudar muito, obrigada por estar ai!

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    1. Obrigada você por ter comentado! É exaustivo mesmo, sei como se sente, ás vezes me bate o desânimo... mas não perco a esperança!

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  6. Me faz muito bem ler a maneira como descreves teus sentimentos. Me faz pensar que não estou tão sozinha quanto parece. Só pra constar, compraria o sei livro! Hoje, em mais um dia de desespero noturno, foi a primeira vez que decidi procurar blogs de pessoas com experiências próximas a minha, e de certa meneira, me encorajou pra expressar mais o meu verdadeiro EU.

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    1. Camila, obrigada pelas palavras! É muito bom quando a gente encontra pessoas que entendem um pouco como a gente se sente, não é? =) Expressar o nosso verdadeiro eu nos deixa mais próximo da verdadeira cura, pelo menos, é no que acredito.

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  7. Michele, estou procurando uma nova terapia. A Cognitiva Comportamental tem sigo positiva? Eu faço faculdade de Psicologia, mas gostaria de saber a opinião do ponto de vista do paciente.

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    1. Camila, que legal que você faz Psicologia, entre tantos cursos que já considerei fazer, Psicologia foi um deles, acho muito bonita a profissão. Eu faço a Terapia Comportamental Dialética, e como foi desenvolvida para pacientes, a priori, com Transtorno de personalidade borderline, para mim, tem sido muito positiva. Eu tenho aprendido habilidades muito importantes para usar no meu dia a dia, é como se meu cérebro estivesse aprendendo novamente a interagir nos relacionamentos interpessoais. Como eu ainda estou no começo, encontro algumas dificuldades, mas estou bastante confiante porque meu psiquiatra faz tudo ficar muito fácil na hora de me ensinar as habilidades. Acho que a combinação psiquiatra humano e equilibrado + terapia eficaz é decisiva para alguém com um problema como o meu. Eu perco a vontade e a confiança muito fácil e sofro de muita desregulação emocional, mas não aconteceu dessa vez, mesmo em crise, eu confio na terapia, no psiquiatra, e acredito que vou ficar bem e continuo seguindo as ferramentas que ele ensina e o tratamento medicamentoso corretamente. =)

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  8. Michele, no momento fui diagnosticada com ansiedade cronica, estou estou estudando p concurso, tenho um bom emprego, namorado, familia, mas n tenho felicidade....
    Parece que falta tudo, não sou feliz e a coisas que mais eu gostava de fazer, já não me deixam tão feliz.
    Se não consigo fazer uma atividade isso me desespera, ex. se eu deixar uma louça na pia ja fico pensando.... e daí vem uma enxurrada de sentimentos ruins...uma coisa mto louca acontece em minha cabeça....

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