quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Afinal, quem sou eu?

Créditos da imagem: Google imagens

Continuando a falar sobre os critérios para o diagnóstico de Transtorno da Personalidade Borderline, segundo o DSM (o manual dos psiquiatras), falei até agora dos seguintes topicos:

Hoje vou falar sobre o critério (3) perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou sentimento de self.

Todo ser humano passa por suas crises existenciais, principalmente em idades como adolescência ou na fase de idoso (ou quando estamos doentes também), mas para mim, ou quem tem borderline, a simples pergunta "quem sou eu?" pode nos levar a fronteira da insanidade.  

Eu me pergunto quem é esse "eu" de que todo mundo fala. Uso muito a palavra eu, mas não sei o sentido real dela. Olho meu reflexo no espelho e não reconheço aquela pessoa, eu sinto desprezo e nojo da minha imagem. Pelo menos, é o que sinto nesse exato momento, pode ser que isso mude semana que vem ou daqui a cinco minutos. É imprevisível. A verdade é que nada na minha imagem física me agrada, nada. E estar expondo isso em nível público é como cortar uma veia muito, muito profunda e sangrar até a chegada da ambulância. Meu cérebro sempre teve essa desconfiança da imagem que vê através do espelho e por causa disso eu não tenho nenhum reconhecimento de que essa ser seja eu. E por acontecer há tanto tempo podemos considerar que tornou-se resistente, obsessivo e perturbador. Tão perturbador que vez ou outra eu penso em retalhar meu rosto na tentativa de ver se existe algo melhor por baixo de tudo isso (sei que é um delírio, mas, na hora que acontece parece fazer todo o sentido).

Não paremos por aí. Se meu rosto já tem todo esse efeito sobre mim, imagine meu corpo. Também sinto desprezo e nojo e sempre fantasiei em fazer mil e uma plásticas para melhorar ou transformar completamente a minha forma em algo com que meu cérebro ficasse confortável.  É como se nada em mim fosse bom o suficiente para alguma área sádica e doentia de mim. Desde criança eu me sinto assim. Em crises impulsivas acabo cortando meu cabelo, na verdade, com a vontade de arrancar com as mãos e deixar careca, com a intenção de saber se crescerá o cabelo perfeito. Também em crises impulsivas, quando eu me automultilava (não acontece mais) o que eu queria mesmo era ver se havia alguém aqui dentro, será que o "eu" estava dentro, debaixo da minha pele? Um pensamento completamente ilógico e irracional, mas, naquele momento fazia todo o sentindo. A minha vida é uma busca frenética atrás desse "eu". Muitas vezes eu achei que havia o encontrado, mas não passou de autoengano, pois se uma ideia se torna obsessiva, muitas vezes você vai preencher o seu desejo com algo que não é a verdade, mas sim com o que é conveniente.

Eu me pergunto todos os dias se sou essa doença. Sei que não sou. Eu tenho essa doença, ela faz parte de mim, ela me limita, me atrapalha e bagunça boa parte da minha vida, mas mesmo assim, não sou eu. Então, quem sou eu? Nem mesmo consigo me sentir confortável com o meu próprio nome. Quando me chamam parece que não sou e sim uma estranha que dizem que sou eu. Isso é insano. Eu vivo dentro de um livro de terror e ninguém me avisou, só pode. O problema maior de tudo isso é que não ter uma identidade definida me deixa instável, fluída. Uma hora eu sou de um jeito, no dia seguinte você encontra alguém completamente diferente, e vocês mesmos podem notar isso aqui pelas outras postagens. Eu mudo muito o tempo inteiro. E eu odeio isso. É sofrimento para mim e para as outras pessoas que acabam tendo medo e se afastando de mim ou sendo alvo do meu humor pesado, sarcástico e abusivo (gerado pelo ódio que tenho de mim mesma).

Eu mesma me afasto de mim o tempo todo - e ultimamente isso tem piorado. Questiono as escolhas que fiz, o modo como guiei minha vida, e o quanto o borderline destruiu muitas coisas que poderiam ser boas, principalmente a minha relação comigo mesma. Eu não sei como reconstruir isso pois o único jeito que conheço é me odiar. Eu faço isso desde criança. Mas ao mesmo tempo sei que deve haver alguma forma e é questão de tempo, paciência e compaixão comigo mesma. Eu preciso ter mais empenho e acreditar que tudo o que estou fazendo vai dar certo ou então estou apenas perdendo meu tempo (e do meu psiquiatra). O caminho ainda é muito longo...

Um comentário:

  1. Essa questão das escolhas tb anda cada vez mais forte em mim. Mas de que adianta ficarmos sofrendo com o que já passou? Não conseguimos mudar o passado. Ele só serve para balizar nossas escolhas daqui para frente. Muito fácil falar, eu sei. Mas temos que batalhar todo dia nesse longo caminho. São batalhas em que a única opção cabível é cair dentro. As outras, pelo menos na minha experiência, não me trouxeram resultado positivo nenhum.

    Melhoras para nós!

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