quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Ah que raiva!

Fonte: Google imagens

Continuando a falar sobre os critérios para o diagnóstico de Transtorno da Personalidade Borderline, segundo o DSM (o manual dos psiquiatras), falei até agora dos seguintes tópicos:

Agora o critério (8), de acordo com o manual dos psiquiatras, o DSM, raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (por exemplo, demonstrações frequentes de irritação, raiva constante, lutas corporais frequentes). 

Quem tem essa raiva sabe que ela não é qualquer raiva. É uma raiva descontrolada, desproporcional, desconfortável, enlouquecedora e dolorosa. Um vulcão que, de repente, entra em erupção espalhando lava quente e altamente corrosiva dentro de nós e sobre todos os que estiverem ao nosso redor. De certo modo, essa raiva também pode ser comparada a uma força da natureza.

Eu não consigo me lembrar o exato dia em que esse sentimento apareceu, acredito que desde que eu nasci, ou até mesmo antes disso, afinal a minha história sempre foi acompanhada de muita raiva, ódio e instabilidade no momento em que eu era apenas um sucessão de células se multiplicando dentro do útero materno. Compreensivo que a raiva praticamente tenha nascido incubada dentro de mim. Sempre ouvi histórias de quando eu era bebê do quanto eu chorava e gritava, eis mais uma prova da raiva começando a se manifestar de alguma forma. Mas deixando as interpretações analíticas de lado, vamos as consequências do que uma raiva tão profunda e primitiva causou a mim.

A situação que mais me incomoda e que eu ainda não consegui resolver e provavelmente eu já comentei antes é uma relação que eu mantive com algumas amigas há muitos anos atrás. Eu as conhecia desde a escola e as considerava mais do que amigas, eram como irmãs (olha o borderline aí) e eu acreditava que jamais conseguiria viver sem elas. O fato é que eu sobrevivi, e estou aqui escrevendo sobre isso. A outra realidade é que eu ainda mantenho uma ilusão de que um dia as coisas voltarão a ser exatamente como eram há seis anos atrás, antes de tudo acontecer e isso é uma mentira que tem de acabar na minha cabeça.

Naquela época, eu considerava a J. a minha cara metade em uma relação doentia aonde eu não sabia onde eu começava e ela terminava. Provavelmente, ela se sentia sufocada muitas vezes. Um dia, eu interpretei algo errado que ela nem tinha dito para mim e a briga começou. Depois disso, não nos falamos mais e eu decidi me afastar não apenas dela, mas de todas as amigas que tínhamos em comum (o pensamento tudo ou nada). Claro que isso não deu em nada e eu fiquei sozinha e todas defenderam a J (me senti rejeitada, abandonada). A raiva tomou conta de mim em segundos. Eu inflamei, peguei fogo. Eu queria matá-la. Queria feri-la, queria que ela sentisse toda a dor que eu estava sentindo. Ela estava me julgando sem saber o tamanho do meu sofrimento, sem saber o que eu realmente estava sentindo, sem ao menos me dar a chance de me defender. Eu comecei a ver a situação apenas por um lado só (borderline). E a partir daí o vulcão entrou em erupção. Quem estava ao meu redor nessa época sofreu horrores e eu sinto muito. De verdade. Eu gritava, eu me auto mutilava, eu maquinava alguma forma de fazê-la pagar pelo meu sofrimento, eu dedicava todo o meu tempo em persegui-la pela internet, cuidar de cada passo da vida dela a fim de saber o que eu poderia fazer para acabar com ela ou, pelo menos, torcer pelo sofrimento dela. Eu não conseguia pensar em nada mais além de raiva e vingança. Mas, quando passava, e eu voltava ao estado normal, me arrependia, não via o menor sentindo, só queria viver a minha vida e esquecer tudo aquilo, afinal, talvez não eramos para sermos amigas, não tínhamos mais nada a ver. No dia seguinte, a raiva tomava conta de mim, e a saga começava outra vez. Um verdadeiro martírio. Muitas vezes que pensei sobre o assunto a raiva me controla e eu quebrava coisas e tinha vontade de arrancar meus cabelos, bater minha cabeça na parede por causa da sensação de injustiça e da forma como eu escolhi simplesmente me isolar e ninguém - nenhuma das amigas - ter vindo perguntar porque eu tinha escolhido isso (de novo a sensação de rejeição).

Coisas como: problemas de outras pessoas, injustiças, multidões, gatilhos emocionais ou uma simples ida ao mercado podem ocasionar momentos de muita raiva e estresse, culminando, muitas vezes em situações vexatórias e explosivas onde depois tudo o que sobra é culpa e vergonha. A raiva pode chegar ao seu extremo quando acontecem os episódio de dissociação. Faço e digo coisas que eu não lembro, chegando a ser abusiva verbalmente, emocionalmente, e as vezes, fisicamente. É como se outra pessoa tomasse conta de mim, e, assim como em um acesso de raiva, tudo que sobra é culpa, vergonha, e nesse caso, o vazio.

Mas a terapia comportamental dialética tem mudado isso. Não gosto de fazer propaganda de nada, e muito menos gosto de grupos. Passei a desgostar de fazer parte de grupos devido a uma última experiência traumática, isso não quer dizer que eu, um dia, não considere participar de outros grupos novamente, mas, por enquanto não. Porém, a terapia dialética realmente tem mudado a minha vida para a melhor, mesmo quando eu estou em crise e isso é incrível. Eu tenho conseguido administrar melhor não apenas a raiva, mas todo e qualquer sentimento exagerado. Eu ainda não consegui superar a situação com as minhas amigas acima. Ainda penso sobre isso, ainda é algo obsessivo na minha mente, e sei que há um longo e penoso caminho pela frente, mas, diferente de antes, eu estou empenhada em melhorar porque estou vendo resultados reais. Se antes a raiva explodia como um vulcão, agora ela tem parecido mais como um mar revolto. Passa. E passa rápido. É por isso, meus amigos, que escrevo minhas experiências antigas e atuais, para que vocês também percebam que há solução. Não percam a esperança jamais. Se eu tivesse perdido, não teria comprovado a eficácia dessa terapia e não estaria tendo momentos de alegria. Acreditem em si mesmos e lutem. Sei o quanto é difícil, eu vivi no inferno assim como vocês  e saber que é possível sair dele agora é uma sensação indescritível. 

5 comentários:

  1. Oi Michele
    Como o psiquiatra gosta de fazer mistério, me ajude a pensar em uma coisa. Meu ex tinha uns ataques de raiva estranhos. Mas parece que ele era depressivo apenas. Esse não é um sintoma típico de depressão, pelo que tenho lido. Ao mesmo tempo parece que o descontrole emocional está presente em todas as doenças psiquiátricas.
    Eu grito do nada. Por causa às vezes de uma provocação boba.
    Eu acho que sou bipolar, por n sintomas...
    Um abraço

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    1. Oi, Flor, raiva é um dos sintomas de depressão. Não parece, mas é, por isso é fácil um psiquiatra confundir uma doença com a outra, são muito parecidas. A pessoa com depressão fica irritadiça e melancólica, mas o que se sobrepõe para as pessoas ao redor é o comportamento triste e não a irritação. É complicado. Eu costumo sentir muita raiva, por coisas muito, muito pequenas, agora tenho conseguido gerenciar melhor, mas nem sempre. Eu gritava por causa de alucinações auditivas e visuais, horrível. Bipolaridade, borderline e depressão, todas tem sintomas parecidos, podem ser confundidas, eu mesma tive os 3 diagnósticos.
      Abraços.

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  2. Raiva é um dos vários de sintomas da depressão, de outros transtornos psiquiátricos, e também físicos. A raiva pode ser totalmente extravasada (como no seu caso Michele) ou contida (Como no meu caso, o famoso "Ficar se remoendo de raiva...").
    Na terapia aprendo a tentar extravasar essa raiva contida para aproveitar essa explosão hormonal em alguma ação produtiva; assim comecei a fazer trabalhos manuais (Origami e desenho) e hoje faço algum curso. Quando bate aquela raiva ao invés de ficar me remoendo, entro no youtube e vejo alguns videos de cursos de qualquer coisa, as vezes até compro alguns on line. Alivia..... e como alivia.
    Abraços
    Feliz Natal atrasado, e
    Feliz Ano Novo adiantado.

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  3. Interessante tudo isso que você escreveu.

    O que eu mais achei interessante é o fato de você ainda não ter esquecido uma coisa que aconteceu há muitos anos atrás. Acho que a maioria das pessoas esqueci dessas coisas e vão viver a vida delas em poucos dias, não é? Você disse que ainda não superou a situação com suas amigas, isso quer dizer que você ainda tem raiva de uma delas ou apenas sente-se triste de alguma forma?

    De qualquer forma, com essa parte aí eu me identifiquei muito. Não sinto raiva por coisas que já fiz, mas parece que o meu cérebro adora ficar trazendo coisas que me aconteceram há 4,5, 6 anos atrás só pra fazer eu sentir vergonha da minha pessoa. Tem vezes que eu lembro de pequenas situações (muito pequenas mesmo) que na hora me fazem me sentir uma pessoa pior. Sinto muito isso, quase sempre é alguma lembrança que me faz sentir vergonha ou que me faz ficar muito arrependido, às vezes elas aumentam tanto a minha ansiedade que não consigo dormir. Já comentei isso com meu psicólogo e ele sempre diz que eu preciso tentar parar de pensar no passado que vive me assombrando, mas não sei como fazer, é uma coisa involuntária.

    Será que eu poderia perguntar se você se senti insegura em fazer amigos? Não sei, talvez por achar que toda essa situação e falta de controle emocional possa se repetir. Isso me atrapalha muito, morro de medo de arranjar mais situações desagradáveis agora pra ficar remoendo bobagens depois.

    Abraço, Michele!

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  4. Oi, Skull, eu ainda sinto raiva mas é de mim mesma por não ter me defendido na época, e também fico triste porque ninguém veio ouvir o meu lado da história. Acho que é uma questão de aceitação de que tinha de ser assim, ou algo parecido, mas ainda não consigo, é mais forte do que eu.
    Sim, eu me sinto muito insegura em fazer novos amigos, depois dessa situação eu nunca mais aprofundei nenhuma relação de amizade. Eu tenho medo de magoar as pessoas ou de ser magoada, tenho medos muito bobos, mas que, infelizmente, me atrapalham muito nessa parte de interação social.
    Abraços.

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