terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Caos mental


Último critério segundo o DSM: (9) ideação paranóide transitória e relacionada ao estresse ou severo sintomas dissociativos. Para ler as outras postagens, você pode clicar nos links abaixo:

(7) sentimentos crônicos de vazio
(8) raiva inadequada e dificuldade em controlá-la 


Eu adoro esse quadro do Munch, O Grito. Quantas vezes eu mesma me vi numa situação igual a essa? A realidade parecia completamente alterada, e tudo o que eu conseguia sentir era medo, desespero e vontade de gritar. Isso aconteceu inúmeras vezes, algumas eu me lembro vagamente, outras só sei porque me contaram.

A ideação paranoide é aquela sensação irreal e insistente de que você está sendo perseguido ou injustamente tratado. A dissociação é algo mais complexo mas é basicamente quando a pessoa perde a consciência de si e "se divide" em duas ou mais personalidades, causando a amnésia temporária.

Pelo menos, no meu caso, a paranoia sempre começa por causa de alguma má interpretação das ações de uma outra pessoa. Existe um estudo que fala que o único sintoma que distinguiria o borderline da bipolaridade seria a má interpretação das expressões faciais. Por exemplo, uma pessoa com expressão facial neutra (ou seja, a intenção é demonstrar sentimento nenhum), vemos como uma expressão negativa. Eu acho que isso seja válido porque é o que acontece comigo. Eu, geralmente, tento captar o que a pessoa está sentindo ou querendo dizer através da expressão facial e muitas vezes, quando estou com raiva, principalmente, eu falho, mas acredito que estou completamente certa.

Certa vez, depois de um surto, eu acreditava que todos dentro de casa estavam conspirando contra mim. De repente, todo o ambiente me parecia hostil. Eu tinha medo de sair de dentro de casa porque achava que as pessoas estavam com raiva de mim, minha leitura facial estava me dizendo que todas aquelas expressões neutras, na verdade, eram rejeição e medo. Eu não queria ver ninguém porque acreditava que estavam planejando algo muito ruim contra mim. O que, obviamente, não demonstrou ser verdadeiro. As pessoas estavam sim com medo, mas ninguém estava me rejeitando, eles só não sabiam o que fazer.

A dissociação acontece quando meu cérebro liga o alerta : estresse elevado - que pode ser qualquer coisa. É impossível prever. Geralmente eu começo a sentir uma raiva imensa até o ponto em que perco totalmente o controle, e volto a realidade com alguém furioso comigo porque eu disse coisas horríveis ou porque tentei agredir fisicamente. Mas eu não lembro de nada.  Até hoje tudo isso permanece um mistério para mim. Eu só lembro vagamente de uma coisa ou outra, como se fosse um sonho e não fosse comigo. Como se outra pessoa tomasse contra do meu corpo. É uma sensação bastante estranha e eu não desejaria isso nem ao meu inimigo.

Mesmo sabendo que nada disso era culpa minha e que não podia controlar (porque não tinha o tratamento certo), o arrependimento e a vergonha pesavam sobre mim. Eu só tinha cada vez mais certeza que só poderia estar enlouquecendo, afinal quem é a pessoa que perde a consciência de si mesmo por algumas horas e depois volta ao "normal" como se nada tivesse acontecido? É um verdadeiro caos mental e eu acreditava que isso não tinha conserto, ao contrário, eu tinha certeza que viveria assim para sempre. Será que chegaria um dia em que eu perderia completamente a consciência de mim mesma? Será que um dia eu sairia de casa e não voltaria mais porque esqueci meu endereço? Será que eu machucaria seriamente alguém e depois não me lembraria? Quem acreditaria em mim? Duvidas assim se passavam na minha cabeça o tempo todo. Eu tinha pavor de "enlouquecer" e perder a noção da realidade, ou ser presa por algo que eu não me lembraria. Mas nada disso aconteceu até hoje.

Conhecer a terapia comportamental dialética e tomar a medicação correta foram as melhores coisas que me aconteceram este ano. Quase cinco meses de tratamento e os sintomas diminuíram bastante e aquele medo de "enlouquecer" foi substituído pela certeza da melhora. Se eu tivesse aceitado o primeiro diagnóstico: depressão, eu jamais teria alcançado metade do que alcancei nestes últimos cinco meses. Eu fui teimosa, inquieta e não parei até que algum psiquiatra parasse de me tratar como alguém sem opinião. Eu não sei o que é uma crise dissociativa há meses. Com a paranoia eu tenho lidado muito melhor do que antes. É assim, um dia após o outro, que vou construindo uma nova vida, descobrindo quem eu realmente sou e modificando o comportamento que não quero mais ter. Tem dias bons e dias ruins, o truque aqui é manter o equilíbrio.

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