quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O vazio sem fim

Créditos da imagem: aqui
Continuando a falar sobre os critérios para o diagnóstico de Transtorno da Personalidade Borderline, segundo o DSM (o manual dos psiquiatras), falei até agora dos seguintes tópicos:
O mais conhecido critério: (7) Sentimentos crônicos de vazio. 
Nota: Se alguém leu o texto anterior, que foi apagado, pode ter percebido um quê de tristeza e amargura nas minhas palavras. Parte disso pode vir da depressão pela qual venho atravessando nos últimos dias e que sempre, desde que me conheço por gente, me derruba nessas épocas festivas. Eu apaguei, não porque discorde daquela opinião (realmente eu não gosto dessas épocas festivas), mas sim porque não vi relevância ou qualidade no que escrevi. 
Eu poderia escrever horas e horas sobre o vazio. Eu o conheço bem. Eu o comparo a uma força da natureza que chega dominante e devastador, corroendo-me por dentro como ácido e, por mais que eu me esforce para tentar escapar nada é capaz de pará-lo. Uma dor que vai para todos os lugares do meu corpo, mas não vem de lugar nenhum. Semelhante a um buraco negro no Universo que necessita sugar todo e qualquer sentimento bom ou ruim que insista em habitar o meu corpo. Essa é minha definição de vazio.
Não sei como é viver uma vida sem senti-lo, pois o vazio sempre fez parte de mim e, desde pequena, meu pobre cérebro desenvolveu mecanismos para tentar lidar com isso - sempre os mais danosos do ponto de vista físico ou psicológico, ou ambos. E hoje em dia eu tento modificar o meu comportamento para conviver com algo que eu acredito que nada pode deter, pois é uma força e não algo que pode ser eliminado. 

Eu percebo que é a partir do vazio que todos os outros comportamentos surgem: a impulsividade, a perturbação da identidade, o pavor do abandono, o padrão bagunçado de relacionamentos pessoais, os comportamentos que me destroem, e etc. E é ele que me causa dor, aliás ambos são entrelaçados, talvez sejam dois lados da mesma moeda. O fato é que foi por causa disso que eu cometi tantos erros, sofri e fiz sofrer sem nem mesmo me dar conta do que estava fazendo.
Vou narras duas experiências com o vazio para que vocês percebam o porquê de eu vê-lo como uma força que não pode ser detida:
a) Antes da terapia dialética:
Ficar sozinha desperta grande ansiedade em mim. Eu ando de um lado para outro, minhas mãos suam, começo a tremer, sinto meu estômago revirar e minha mente dispara o velho sinal de alerta "ei, você precisa fazer alguma coisa: lute ou fuja!" . Automaticamente, meu cérebro escolhia fugir. Isso significava ou me automutilar ou beber ou, quem sabe, gastar desnecessariamente ou comer desenfreadamente. Eu tinha várias opções que resultariam em culpa, vergonha e depressão, mas naquele momento isso nem se passava na minha mente tudo o que importava era fazer passar aquela coisa que começava a invadir o meu corpo: o vazio. Ele chegava arrasador, varrendo a ansiedade e qualquer outro sentimento que teimasse em surgir. Lembranças fantasmas pipocavam na minha cabeça sem nem mesmo me dar a chance de defesa ou de escolha. Eu parecia rendida. Faria qualquer coisa para o vazio me deixar em paz. Tudo o que ele queria eram meus sentimentos, me deixar vazia por dentro, para sempre corroendo tudo dentro de mim, mas eu não suportaria isso porque parecia pior do que a morte. Como eu conseguira viver naquele estado? Logo, entorpeceria todos os meus sentidos, seja através de bebida, medicamentos, compras ou seja lá qual fosse minha opção e meu cérebro esqueceria que uma coisa como essa co-existia dentro de mim.
b) Agora com a terapia:
Fiquei sozinha. Isso desperta a ansiedade e todo o circuito de tremores, suor e medo começa novamente. Escolho beber porque parece a opção menos danosa. Meu cérebro me oferece mil e umas desculpas irracionais para fazer isso e eu obedeço sem questionar. Até coloquei a bebida no copo obedecendo a um ritual mecânico guiado pelo vazio doloroso despertado pela sensação de estar só e ter sido abandonada por alguém que não está ali. Quem? Meu avô? Mas ele já morreu faz tanto tempo! São esses os pensamentos que se passam na minha mente naquele momento. De repente, eu percebo que não aceito coisas naturais da vida como a morte e a minha própria condição de ter um transtorno mental. Sento no sofá. Meu estômago revira. Agora de enjoo. Pego meu caderno vermelho. O caderno da terapia. E lá dentro tem um bilhete sobre escolhas. Mas aí, eu olho para o copo e realmente percebo que não tenho vontade de fazer escolhas, simplesmente não quero beber.  Simples assim. Eu quero sentir o vazio. Em um momento de epifania, ou de conformação, eu não sei, eu simplesmente entendi que não havia nada o que fazer para fugir. Minha única escolha era lutar. Joguei fora a bebida, ainda enjoada com o cheiro do álcool e dessa vez comecei a chorar... de alegria. Eu não sentia mais vontade de beber. Aliás, eu não sinto. Eu tenho vontade de melhorar. Cada dia mais. Mesmo nas crises, tudo o que eu penso é em não desistir.

O vazio não passou, nem mesmo diminuiu, e enquanto escrevo esse texto, sinto-o percorrendo nas minhas veias, mas, estranhamente, eu decidi que é hora de encará-lo por mais que doa. E dói. Sem fugas dessa vez, mesmo porque, parece que meu cérebro finalmente desistiu de fugir e eu acreditava que isso era impossível.  Agora é diferente, o pensamento tudo ou nada está sendo substituído pelo "meio termo", pois percebo que tudo é equilíbrio, mesmo o vazio, pode ser que não tenha como tirá-lo de dentro de mim, mas tem como viver melhor, apesar disso.

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