segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sendo verdadeira



Passei a manhã inteira pensando se deveria ou não contar o que aconteceu comigo e na melhor maneira de escrever isso. Eu criei esse blog para poder ajudar as pessoas de alguma forma e muito de vez em quando acredito que faço isso porque recebo e-mails muito bonitos, mas ás vezes não acredito que contribuo em nada. Talvez seja só "borderline", talvez seja meu excesso de autocrítica, vai saber. Mas agora, quem escreve, é uma pessoa que tem borderline e só quer compartilhar suas melhores - e piores - experiências no assunto. Se isso ajudar outras pessoas e diminuir o estigma, então eu cumpri minha missão. 

Eu gosto de sempre deixar claro que tenho esperanças, mantenho uma atitude positiva em relação ao meu tratamento e a mim mesma, mas nos últimas dias não tem sido assim. E acho que tenho de ser verdadeira com vocês porque esse "ter borderline" é passar por diversas fases no mesmo dia, na mesma semana, no mesmo mês. É um furacão emocional. E tem momentos que isso fica ainda mais difícil, os famosos surtos. Alucinações, oscilações de humor bruscas, depressão grave, e o pior, os pensamentos suicidas. No momento em que eu estava passando por isso, eu não conseguia me dar conta, eu não me lembro de metade das coisas que eu disse, mas lembro de muitas alucinações e dos pensamentos suicidas agora, depois que todo o furacão passou. É desgastante. Desanimador. Frustrante.

Depois que todas as minhas emoções voltaram ao "normal" (não tenho uma palavra melhor), um frio percorreu o meu corpo porque foi por muito pouco que eu não morri. Por um ato impulsivo, eu ia tirar a minha vida. Porque, naquele momento, eu não conseguia controlar mais nada, tudo parecia uma enorme confusão na minha cabeça e tudo o que eu queria era dormir e nunca mais acordar pois não fazia mais nenhum sentido existir quando a minha vida não significava nada para ninguém e ainda era um peso enorme para mim mesma. A morte se tornou uma obsessão de modo que eu pensava nela vinte e quatro horas por dia. Foi por tão pouco... E olha eu agora... Tudo aquilo passou do mesmo jeito que veio: de repente! Mas eu não estou escrevendo para me lamentar ou me arrepender, estou aqui para mostrar as faces do borderline ou de quem sofre um transtorno mental qualquer. Não tem como a pessoa querer ou não pensar em morte. Simplesmente vem. A minha sorte é que eu tive vários componentes de ajuda: a) um segundo de lucidez quando avisei o psiquiatra; b) um psiquiatra que se importa; c) um marido que compreende e tenta ajudar e d) uma mãe que está aprendendo a lidar com a situação. Mas e se eu não tivesse nada disso? Eu tenho certeza que eu não estaria mais aqui. E sei que pessoas se matam porque não tem ajuda, porque se sentem tão sozinhas ou estão em surto (como eu estava naquele momento). Você não consegue pensar direito quando suas emoções estão em desequilíbrio, você simplesmente é carregado por elas. Foi assim que eu me senti, estava rendida.

Na minha mente agora parece que nada disso aconteceu. Foi um pesadelo. Uma história que alguém me contou. O problema é que tem testemunha de muitas coisas, exceto das alucinações e do momento particular em que eu pude sentir a morte me rondando. E, hoje de manhã, no silêncio, eu até sorri, e percebi porque isso se chama "borderline", "fronteira"... porque eu nem vivo completamente na sanidade, nem completamente na insanidade. Aos poucos, pedaços de mim enlouquecem, para depois se reconstruirem e parecem normais por fora, e de repente, tudo se quebra, se despedaça, e lá vou eu, para a fronteira da insanidade, nem tão longe demais, nem tão perto demais da loucura total. Eu nunca sei o que esperar de mim mesma. Mas depois dessa última experiência, eu compreendi que eu devo ter ainda mais compreensão e amor próprio, e confiar no meu tratamento. Se eu ainda tenho esperança? Bem... dizem que ela é a última que tem que morrer.

10 comentários:

  1. Oi! Encontrei seu blog por acaso... Ando pesquisando sobre transtorno borderline e li essa e algumas outras postagens que encontrei aqui. Sofro de depressão diagnosticada e há um tempo, com base em leituras, tenho cogitado sofrer de borderline. Acontece que, eu vivo na pele esse medo de um abandono, que quase nunca sei ser baseado em algo real ou imaginário. Considero que sofri decepções com pessoas nas quais confiava plenamente e com isso, fui sofrendo ao longo da vida. Colocava a pessoa num pedestal, passava a considerá-la indispensável em minha vida e de repente, quando algo acontecia, eu considerava uma decepção e me tornei, e me sinto, como uma vítima do abandono das pessoas. Quando elas se afastam, me sinto traída, substituída, descartada. Com isso, fui me fechando cada vez mais e desenvolvendo dificuldades de interação social, em deixar as pessoas realmente entrarem na minha vida, formar amizades e proximidades verdadeiras. As relações que tenho, sinto como instáveis. Meu sentimento é que a qualquer momento serei abandonada, de novo. Perderei alguém que me importa e ficarei sem chão... Não sei se só vivo de depressão ou se o borderline é realmente algo que pode acontecer comigo. É horrível. Faz com que minhas relações não sejam saudáveis, que as pessoas se sintam sufocadas, faz de mim alguém insegura e ciumenta, tudo que repudio. É isso... Perdão pelo desabafo. Espero que você esteja bem. Um abraço, D.

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    1. Oi, D., pelo que você descreve parece muito com o transtorno de personalidade borderline, mas eu não sou psiquiatra, nem psicóloga, sou apenas paciente, portadora de borderline e alguém que lê muito sobre isso. Como você leu em outras postagens já passei por tudo isso que você relata, e antigamente eu tinha o diagnostico de depressão, que foi me dado errado por muitos anos. Procure um psiquiatra que seja especializado em borderline, ajuda bastante. Ter tido o diagnóstico correto tem me ajudado muito a compreender melhor o que eu tenho, a fazer o tratamento corretor e saber que um dia eu vou me curar disso, não é fácil mesmo assim, tem dias que tenho vontade de desistir de tudo, mas a esperança em um dia me ver sendo uma pessoa estável e longe de toda essa bagunça é o que me faz seguir em frente.... Ei, aqui é o lugar certo para desabafar, fique a vontade, sempre! Abraços!

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  2. Talvez seja só "borderline", talvez seja meu excesso de autocrítica, vai saber.
    lindo...

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  3. Oi
    Eu sempre ouvia as pessoas me dizendo que eu havia dito coisas que eu não lembrava. Passava muita raiva e todo mundo brigava comigo. Achavam que eu fazia de propósito. E eu nunca desconfiei de nada.
    Agora estou me tratando com remédios psiquiátricos. Comecei a me observar e entendi que isso acontece pq meu humor muda. Daí as ideias mudam. E não fazem mais sentido p mim.
    Acho que é transtorno bipolar. Mas o médico não quer afirmar nada. Disse que é melhor a gente se concentrar no tratamento. Não pensar em rótulos, pq cada caso é único.

    Desejo melhoras p vc. Siga o tratamento direitinho.
    E continue contando...
    Um abraço

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    1. Oi Flor, obrigada por compartilhar sua experiência conosco! =) Pelo jeito encontrou um psiquiatra que está interessado na sua cura! Isso é o mais importante. No meu caso se eu não tivesse insistido no diagnóstico estaria até hoje em tratamento errado, mas esse foi meu caso, minha natureza é saber as coisas, jamais eu conseguiria focar num tratamento sem saber exatamente o que eu tenho. Cada caso é realmente único. =) Abraços.

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  4. Reli essa página agora e só no final lembrei que já havia lido. kkk
    Michele,
    Você falou em sorte com psiquiatra, eu comecei o tratamento esse ano. Tenho 30 anos já de loucura. E fui em vários médicos. Eles riam de mim e diziam que eu estava muito nova para tomar remédios. Que tudo iria passar. Acredita?
    Mas estou muito animada esses dias. Hipomaníaca. Mas estou tomando a medicação do mesmo jeito.
    Adoro o jeito sério como você escreve aqui.
    Abraço!

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    1. Oi, Flor, é, tem uns psiquiatras que dizem coisas assim. Eu passei em cinco psiquiatras antes de encontrar um especialista que falasse em cura através da terapia dialética. Sempre fui meio teimosa. Os remédios ajudam muito, e é a terapia que muda o meu comportamento, e muda de verdade, isso me deixa muito esperançosa!
      Obrigada pelo elogio! Abraço!

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  5. Olá, Michele. Já faz alguns anos que tive meu diagnóstico mas nunca me apeguei a ele.. Prefiro pensar que são apenas traços borderline. Vivo muito bem por meses mas tenho ao menos 2 crises por ano. Estou nela hj. 4 dias no quarto escuro com raiva de tudo. Mas me amparo no pensamento de que de repente passa e tento manter a calma pra não fazer nenhuma besteira enquanto isso. Foi bom encontrar esse lugar, saber que pode ser compreendida por pessoas que estão do mesmo lado que o seu. Obrigada. Cris

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    1. Oi Cris, obrigada pelo comentário! Eu penso igual você, eu não sou borderline, eu tenho borderline. Só esse pensamento já me ajuda bastante a enfrentar crises, terapia e medicação. E hoje saber que existe a remissão completa dos sintomas é uma esperança enorme! Abraços.

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  6. Oi Michele!! Que bom te encontrar.
    Também sou border e sei o que é lutar contra o veneno.
    Desejo esperança à todos nós.

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