segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Gatilhos emocionais




Muitas pessoas com borderline sofre com os chamados gatilhos, mas o que vem a ser isso? Gatilhos são eventos ou situações que trazem a tona ou pioram os sintomas do borderline (ou outro transtorno que seja ativado por gatilhos). Dividem-se em externo (quando algo acontece fora de nós, no ambiente, etc) ou interno (por exemplo: recordações e pensamentos) e variam muito de pessoa para pessoa. 

Eu tenho vários gatilhos, externos e internos, e, nem sempre sou capaz de lidar da forma mais eficaz possível, e isso tem um efeito poderoso sobre mim. Sobre qualquer um. Qualquer pessoa que sofra com gatilhos sabe que uma única situação é capaz de causar um surto sem aviso prévio, por isso você deve evitar o que pode ser evitado e, no meu caso que faço terapia, enfrentar de forma que reduza os danos (se vai causar uma crise que, pelo menos, a intensidade seja menor). Consigo identificar alguns gatilhos:

-mudança no tom de voz de alguma pessoa (especialmente se eu estiver emocional)
-mudanças da linguagem corporal de outra pessoa (especialmente se eu estiver emocional)
-expressões faciais neutras
-lugares que me trazem lembranças emocionalmente negativas
-pessoas que me trazem lembranças emocionalmente negativas 
-sensação de rejeição ou abandono
-ser confrontada (especialmente com meias verdades)
-tentar explicar e não conseguir fazer alguém compreender
-ser ignorada
-homens que me trazem lembranças emocionalmente negativas, principalmente os que parecem fisicamente com meu ex-padrasto. 
-lembranças do passado.
-pensamentos de desespero

A emoção intensa que o gatilho traz é tão forte que eu, geralmente, perco o controle, mesmo tendo tentado ao máximo enfrentar ou evitar o estresse que isso traz. É frustrante porque as pessoas sempre acham que foi por causa da palavra, frase ou nome, mas, a verdade é que o gatilho-chave é a lembrança que cada uma dessas pequenas coisas carrega consigo. Mas, no final das contas, eu sempre acabo sendo "a louca", explosiva, exagerada e egoísta. Às vezes, eu acredito que sou mesmo tudo isso. 
 
A verdade é que tenho uma percepção alterada da realidade quando estou emocionalmente estável e eu não respondo como uma pessoa "normal" deveria. Sei que isso frustra, irrita e faz as pessoas terem medo de mim e se afastar, mas esperar que eu reaja como uma pessoa estável é pedir demais. Por mais que eu queira e tente, eu não consigo, é como se meu cérebro entrasse em uma espiral de dor e raiva e nada mais fica sob meu comando. Eu sou, literalmente, levada por emoções que eu nem sequer sabia que ainda existiam. 
 
Admitir que a minha noção de realidade é diferente já é doloroso o suficiente, porque, quando você é diferente, as pessoas não te tratam com tanta gentileza assim. Elas esperam que eu aja conforme elas acreditam serem o certo, mas eu não compreendo nada disso. A única coisa que eu sei é que estou com medo, perdida e cheia de dor. E depois, tudo o que me lembro é da culpa e da vergonha por ter o que eu tenho, por ser o que sou. Por não ter feito o suficiente, por não ter evitado a crise ou por ter machucado fisicamente ou emocionalmente alguém. Eu odeio tudo isso tanto quanto a pessoa que me olha com fúria, pena e desespero. Não quero e não gosto de ter tantos gatilhos. E odeio ainda mais quando tento explicar e não me faço ser entendida. É como se eu fosse algo errado no mundo, alguém com um defeito muito grave e que não merece ser inserida na sociedade. É uma sensação tão pesada quanto a da pessoa que me acusa de ser egoísta, manipuladora e exagerada. Mas a única coisa que eu realmente sou é vazia. Quanto mais terapia eu faço, mais eu percebo isso. 

Se eu pudesse tomar uma pílula que me transformasse em alguém estável, eu tomaria sem pensar duas vezes, mas isso não existe. Tudo isso parece um pesadelo de onde eu não acordo e ainda levo outras pessoas junto para se assustar comigo. O fato é que se eu pudesse escolher, estaria sozinha, isolada em uma ilha só para não causar mais nenhum dano a ninguém. Pode me chamar de dramática agora, mas é isso que sinto. 
 
Afinal, mas qual é a pessoa que não causa mal a outra? Todos somos magoados, mas também magoaremos, e será que as pessoas estão preparadas para carregar ambas responsabilidades? Eu não sei. Sei que hoje nada faz sentido a não ser essa culpa, a vergonha e o ódio por mim mesma.


3 comentários:

  1. Esse seu post me lembrou uma coisa que vc me sugeriu faz tempo e eu não coloquei em prática: descobrir os gatilhos da minha ansiedade Vou colocar na minha lista de coisas a fazer e realmente colocar em prática.
    Uma outra coisa é que realmente dói quando machucamos os outros. O grande desafio é se perdoar, assim como muitas vezes os outros nos perdoam. Difícil né?

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  2. Já que não dá pra se livrar, o jeito é conviver de uma maneira "amigável" com a doença, seus sintomas e principalmente com a reação das pessoas a volta!
    Se para alguém que não sobre com problemas psiquiatricos é difícil, para nós é mais difícil ainda.

    Mas, se for fácil não tem graça !!!! (Minha frase positiva para 2016)
    Abraços.

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  3. E quando o gatilho te leva pro limbo, pro umbral onde tudo é cinza, aspero sem gosto? como quando uma lufada de vento apaga uma chama? como explicar isso pros outros? Num momento vc esta ali em outro desaparece, perde o brilho e vc se afasta. Nao consegeue manter amizades pq vc se fecha se recolhe em concha, como buscar ajuda?

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