sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Minha experiência com a ansiedade



Créditos: aqui


Eu acabei de fazer uma coisa comum: ir ao mercado. Nada demais, mas foi um sacrifício tão grande que, novamente, eu comecei a rir da piada que eu me tornei. Bom, é melhor rir do que chorar, não? Se eu começar a chorar, vou ficar o resto do ano aqui... Eu não exponho essas coisas pequenas porque quero fingir que sou forte o tempo todo. Mas eu cansei. Eu quero mais. Eu quero uma vida de verdade. Eu quero uma vida real. Eu quero ser eu mesma. Eu não sou uma pessoa doente, eu sou uma pessoa com um obstáculo mental para superar. Um obstáculo que me impede de viver a minha vida. Eu também não quero viver em paz, não quero ser feliz para sempre. Eu quero viver. Eu quero sentir sem ter alucinações, sem desregular, sem querer brigar fisicamente com as pessoas, sem me machucar ou pensar em me matar. Eu quero viver o presente. Quero parar de pensar obsessivamente no passado e imaginar como seria se... Ou então como será quando... Porque isso realmente não importa. Eu nem sei se estarei viva amanhã ou daqui a cinco segundos. A vida é tão frágil. 

Voltando a minha ida ao mercado... Eu fico muito bem enquanto estou isolada na minha bolha. No meu cantinho que se limita a minha própria pessoa. É seguro quando existe só eu e as paredes do meu quarto. É seguro porque não tem ninguém para me julgar. Não há o peso dos olhos julgadores de ninguém e, eu, finalmente, posso ficar alguns minutos livres para ser quem eu quiser. Mas quando eu decidi ir ao mercado, eu entro em estado de alerta, todas as minhas defesas sobem, e qualquer pessoa na rua se torna um suspeito, é quase um estado paranoico. Eu percebo que ainda me sinto desconfortável, como se houvesse algo errado comigo, como se todos olhassem para mim, mas eu sei que é só minha mente. Eu tento lembrar de respirar, mas até isso é doloroso. Eu tenho medo de encontrar alguém conhecido. E se for alguém que não gosta de mim? E se? E se? Tantas perguntas sem sentido que dá vontade de sair correndo. De repente, alguém chama o meu nome e meu coração quase para de bater. Será alguém que eu odeio? Será alguém que me odeia? Mas não, era alguém que eu não sabia se gostava ou não de mim. Dúvida = angústia. Angústia = mais ansiedade. Foram os dois minutos de conversa mais difíceis do meu dia. Não sei o que dizer, como devo me portar, o que fazer com as mãos. Minha garganta trava, eu começo a embaralhar as palavras. Eu sempre sei o que dizer, eu penso o discurso muito corretamente, mas nesse momento, as palavras saem todas erradas. Eu me sinto mais envergonhada ainda. Minha voz sai baixa, e minhas palavras sem nexo. Por dentro, estou explodindo de raiva de mim mesma. A conclusão: eu sou um desastre.  
 
Em um dia bom, eu termino fingindo que não me importo com o que aconteceu, me distraio com alguma futilidade como o celular, um seriado, ou ocupo a minha mente com algo construtivo como ler um livro, fazer tarefas domésticas, e exercícios físicos. Os dias ruins ainda ganham, e no final, quando eu me lembro da ansiedade e bate a sensação de me sentir um desastre, eu bebo, me maltrato e mergulho no vazio porque eu acho que é tudo o que me resta. Eu recuso a ajuda. Eu necessito sofrer. Eu mereço sofrer. 

Estar em tratamento me dá a visão disso. Eu tenho consciência do quanto eu oscilo, mas também sei do quanto eu sou persistente. Eu estou começando a enxergar meus defeitos e qualidades, porém ainda estou longe, muito longe de ser alguém mentalmente livre. Eu ainda tenho dificuldades em fazer minhas próprias escolhas. Eu tenho medo. Eu não confio em mim mesma. Hoje, eu não vou finalizar esse texto com uma frase positiva, eu vou simplesmente deixá-lo aqui. Porque dói perceber a verdade, é como se eu estivesse me abrindo com um bisturi todos os dias, e ao escrever aqui, estou compartilhando isso com vocês, estou dando uma amostra de como é essa cirurgia... Dói. Mas se isso for necessário para que eu alcance o equilíbrio, eu faço. Eu não cheguei até aqui para desistir - mesmo que minha mente tente me convencer do contrário todos os dias.

3 comentários:

  1. Michele, encontrei o blog por acaso e me vi nos seus textos. A oscilação de humor tem me maltratado muito nos últimos tempos e venho buscando todos os meios de melhorar. Não é fácil...Faltam recursos, falta a compreensão das pessoas que me acusam de melindres e em muitos dias falta força mesmo. Mas assim, como você não posso me dar ao luxo de desistir. Agradeço pelos textos honestos, que me fizeram sentir menos sozinha.

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  2. Michele,mais uma vez,eu me rendo à sua voz escrita.Tapanacara pra mim tbm,de maneira semelhante.Nunca tive essa coragem,essa honestidade de tornar os meus tormentos tão visíveis.Te deixo um abraço amigo e minha admiração.Bj,Marilene

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  3. Michele, há pouco achei teu blog e comecei a ler e me identifiquei muito, desconfio que eu seja borderline, infelizmente aqui não tenho condições de buscar um tratamento adequado, sempre tive inúmeros problemas e sempre fui vista como a ovelha negra da família, muitas vezes pensei em desistir de tudo e há alguns anos atrás até tive tentativas meio que inconscientes.. Venho controlando sozinha meus sintomas há algum tempo, sei que não teria apoio de nenhum familiar caso tentasse conversar, ano passado fui a alguns médicos e falei sobre alguns sintomas que estava tendo e me receitaram alguns remédios (que depois que li na internet relato de usuários não me atrevi a tomar) sem me dar um diagnóstico preciso, mas pelo que entendi pra eles tenho crises de pânico e ansiedade..
    Esse teu texto sobre o mercado me descreveu muito, ir ao mercado pra mim sempre é um grande desafio, quando entro no mercado parece que saio do corpo, que caminho em nuvens, tenho palpitações e taquicardia, fico apavorada com a ideia de encontrar alguém, minhas pupilas ficam dilatadas, minha fala desconexa, fico suando frio, tentando disfarçar mas minha vontade é de berrar e sair correndo.. sempre acho que todos estão olhando pra mim.. mas tenho ido ao mercado e tentado lidar com isso.. acho que tenho que enfrentar meus medos e talvez aos poucos ter uma vida, pq sinto que toda vida eu precisei de alguém para me apoiar, alguém pra me esconder, primeiro era minha mãe, depois minha melhor amiga, depois os namorados, as bebidas ... e assim minha vida foi indo sem eu saber o que eu era, o que queria, sem saber dar meus passos sozinha, sempre sem entender o que acontecia comigo, sempre mal interpretada, sem amigos, me apegando a ilusões, sofrendo por vergonha e culpa dos meus atos.. Tenho tentado mudar, mesmo sozinha tenho fé que conseguirei aos poucos me libertar desses pensamentos e sentimentos negativos.

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