sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O porco espinho e o borderline

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Você deve estar pensando: "Ok, o que um porco espinho e um borderline tem em comum? Será que ela enlouqueceu de vez?" Na verdade, não, eu não enlouqueci de vez, e sim, esse pequeno bichinho e uma pessoa com transtorno de personalidade borderline ou qualquer outro transtorno mental ou mesmo uma pessoa comum mas cheia defeitos tem muito, muito em comum. Meu psiquiatra me mostrou isso contando essa velha fábula:
 
"Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram se juntar em grupos,assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente. Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos,justamente os que forneciam calor. E, por isso, tornaram a se afastar uns dos outros.
Voltaram a morrer congelados e precisaram fazer uma escolha: desapareceriam da face da Terra ou aceitavam os espinhos do semelhante.

Com sabedoria, decidiram voltar e ficar juntos. Aprenderam, assim, a conviver com as pequenas feridas que uma relação muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro. E assim sobreviveram."
 
Esse texto vai ser um pouco longo. Vamos detalhar bem porque eu quero deixar claro meu ponto de vista. O isolamento (a era glacial) tende a ter um efeito poderoso sobre o ser humano (ou os porcos-espinhos). Uma pessoa com borderline sabe bem disso. Meu cérebro parecia programado para o isolamento devido ao condicionamento de anos e anos percebendo que sempre que eu entrava em qualquer relacionamento com pessoas eu saía machucada e machucava as pessoas, logo a única solução 'decente' era eu viver isolada e parar de incomodar os outros. Isso é um engano terrível e eu estou decidida a provar isso a mim mesma desde que comecei a terapia - e cá entre nós, estou tendo algum sucesso. 
 
O isolamento social, a solidão, faz com que toda nossa percepção sobre nós e sobre o outro seja completamente alterada, ou seja, há uma grande chance de que você não esteja funcionando direito nem mentalmente, nem fisicamente: 


Eu sempre percebi que quanto mais sentimental era meu relacionamento com uma pessoa, mais eu me machucava e também machucava a pessoa, por exemplo, em um relacionamento amoroso ou uma amizade onde eu considerava a pessoa como "irmã" (os espinhos). Tendo borderline isso fica bem evidente. Existe um livro chamado "I hate you, don't leave me", ou seja, "Eu te odeio, não me abandone" e essa é a contradição de ter borderline, quando você está em plena instabilidade, com os sentimentos a flor da pele e não é mais você, você odeia todo mundo, mas não quer que te abandonem, porque tem pavor de ficar sozinho. Na verdade, você não odeia ninguém, só não consegue se expressar, NAQUELE MOMENTO, depois, quando a nuvem chuvosa passa, você consegue saber o que está acontecendo, mas aí ninguém mais quer te ouvir, porque só consegue enxergar uma 'louca descontrolada'. Outra analogia para o espinho-borderline seria a queimadura de terceiro grau, termo usado pela Dra. Marsha Lineham, criadora da terapia comportamental dialética, que tem salvo muitos borderlines, inclusive eu, que diz que ter borderline é igual ter uma queimadura de terceiro grau mas no corpo inteiro, você até quer que as pessoas te abracem, mas quando elas fazem isso, dói demais e a única coisa que você consegue fazer é empurrá-las, e depois você chora de arrependimento porque não queria fazer isso, mas era sua única escolha porque a dor é maior do que você suporta. Veja que o espinho-borderline tem uma característica bem peculiar. 

Uma pessoa sem borderline também passa por isso, e você, que tem qualquer transtorno mental ou borderline, pode tirar a prova. Pergunte a um amigo, colega, um desconhecido na rua sobre o relacionamento amoroso presente ou passado dessa pessoa. Pergunte sobre alguma briga. Certamente você vai ouvir alguma reclamação. Não tem jeito, as pessoas brigam, porque elas são diferentes, elas têm defeitos. Você vai ouvir elas reclamando umas das outras e vai até se identificar com uma coisa ou outra. E isso é ótimo. A diferença aqui é que elas se adaptam mais fácil, mais rápido do que nós, que temos essa alteração no cérebro. Elas conseguem perceber que tem de escolher ou conviver com os defeitos do outro (os espinhos) em favor do relacionamento ou ficar sozinhos (o isolamento). A gente escolhe o quê? O isolamento! Porque parece a saída mais fácil, e É a saída mais fácil. Claro que é. Sem ninguém para magoar, nem ser magoado. Sem ninguém para dar satisfação, nem satisfazer. Mas também sem ninguém para acolher no calor. A gente morre de frio na era glacial, além de que é uma vida sem graça e sem cor, não aprendemos nada. Não é saída mais eficaz. O medo paralisa um bocado. Ter um transtorno mental é um sofrimento e tanto.

A moral da história acima é aprender a conviver com as diferenças e defeitos dos outros, pois o relacionamento é o mais importante, exceto nos casos que vá contra seus valores. Você vai saber quando. Não se preocupe. Nosso desafio está sempre em aprender a ver o lado bom das pessoas, claro, sempre tomando cuidado com os espinhos. 

Para quem tem borderline, eu posso dizer que é um pouco mais complicado, vivemos o paradoxo de não querer ficar sozinhos, mas ficando sozinhos. Nossos cérebros são carregados de emoções difíceis de prever e dosar, e sempre somos mal interpretados pelas outras pessoas, até mesmos por médicos que se dizem 'compreensivos e estudados'. Mas, assim como na fábula do porco-espinho, é possível aprender a escolher optar por ver o lado bom das pessoas, conviver em grupo e, principalmente aprender a conviver com as diferenças e defeitos das outras pessoas - sem instabilidade. Tudo começa quando você dá uma chance a si mesmo e deixa as pessoas 'encostarem' em você. Vai machucar e você vai machucá-las, mas esse é o preço. A maior dádiva do ser humano é a adaptação. Parece algo mágico, mas na verdade, é algo bem estruturado e racional, mas nada fácil.

5 comentários:

  1. Ótimo texto, Michele. Realmente faz pensar em muita coisa. Confesso que já agi muitas vezes dessa forma e hoje talvez ainda faça isso, mesmo que inconscientemente.

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  2. Boa tarde Michele! Encontrei seu blog hoje e li alguns textos. Incrível a forma como vc expressa o que tem enfrentado.
    Estou no meio de uma crise. Fui diagnosticada com Estresse Pós-Traumático após um assalto, e menos de dois meses depois, um Sequestro relâmpago. Mas não sinto que seja só isso. Desde então as coisas tem piorado e muito, mas eu já tive depressão antes. Meus relacionamentos acabam sendo sempre destrutivos. Eu sinto tanta dor, angústia, raiva, medo de acabar ficando sozinha.
    Meu universo está cinza e eu tenho pensado cada vez mais em suicídio.
    Nas últimas crises eu comecei a ficar tão descontrolada que me batia e batia sem parar. Fiquei com o rosto todo roxo e cada vez que olhava pro espelho sentia mais ódio de mim. Sou inútil, imprestável, sem valor.
    Eu estou com medo. Tenho um filho de 4 anos e ele tem sido a unica razão por eu ainda não ter desistido de vez. Fico pensando que não quero abandoná-lo mas ao mesmo tempo tenho medo de ser uma decepção pra ele também.
    Eu estava f azendo tratamento mas parecia não estar adiantando tomar aquele remédio. Não tenho condições pra pagar um psiquiatra particular e pelo convênio o medico que me atendia não atende mais. Na verdade ele nem conversava comigo direito. Me diagnosticou em uma conversa de 5 min.
    Eu estou cansada e preciso de ajuda. Não sei por onde começar...

    Frann Castro

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    1. Não desista Frann, sei que nao é facil,mas persista. As vezes leva tempo pra encontrar a medicação correta pra vc, mas nao desista. Sempre que tiver insuportavel, tente desabafar.

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  3. Eu estou na fase de isolamento vou morrer congelada...não consigo mais magoar quem eu amo.

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    1. Oi Chris, eu li os seus outros comentários. Já me senti e ainda me sinto de forma idêntica a que você descreveu. Compreendo o que você diz. Dá mesmo essa sensação horrível de querer se afastar, de desespero. Todas as pessoas com raiva da gente, parece que somos pessoas tão..."más", não é? Eu compreendo. Eu tive uma experiência parecida há muito pouco tempo. Acho bom você ter um cachorro, eu também tinha e gostava muito dele, eles amam a gente independente do que façamos. Sabe, as pessoas falam coisas como "depressão é frescura", e "quem tenta se matar está querendo chamar atenção", porque elas não sabem dizer outra coisa, elas não tem informação, elas estão se defendendo também, elas tem medo do que é desconhecido, por isso surge o preconceito e essas frases terríveis. Não é por maldade, é só ignorância. O lado bom é que tem solução: conhecimento... Eu entendo o quanto é ruim magoar as pessoas que a gente ama. Eu falo e faço coisas que odeio, mas eu não me lembro depois, é meu cérebro, eu não tenho culpa, mas sou responsável, afinal o cérebro é meu certo? Em vez de me afundar na culpa e no desespero, eu resolvi que ia mudar. Resolvi melhorar justamente para tornar a minha vida e das pessoas que eu amo melhor, mostrar a mim e a elas que sim eu posso ser diferente. Não é fácil. Mas é possível. O que quero te dizer é que por pior que seja a situação, não perca a esperança... eu estive em momentos muito, muito obscuros, e estou melhorando... eu ainda magoo muito as pessoas que amo, mas elas hoje acreditam que eu vou melhorar porque eu não desisto, não perco a esperança. Força, isso vai passar!

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