segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Ainda sobre escrever...





"Espírito impaciente para romper o molde incapaz de retê-lo. (...) Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la"  A mulher mais linda da cidade, Charles Bukowski. 

Eu continuo me perguntando porque ainda escrevo. Eu só sei que não importa o que aconteça a sensação de angústia, de não caber dentro de mim permanece. Eu sou uma pessoa sensível, antes de qualquer coisa, eu sou uma artista, uma escritora, mas o transtorno de personalidade borderline me estigmatiza e me contém de uma forma que eu jamais pensei que fosse possível. Eu quero quebrar isso de qualquer jeito.

Por mais revolta, tristeza, insatisfação, lágrimas e explosões de instabilidade que aconteçam comigo, mais eu percebo que não existe outra saída a não ser o amargo gosto da aceitação. A essa altura eu já aprendi que aceitar não é se acomodar, mas sim, compreender que a vida é o que é, e o meu papel é aprender a lidar com os problemas, aplicando as melhores estratégias. Isso me parece muito a estratégia de sobrevivência de qualquer ser vivo, lidar com todo e qualquer obstáculo que se interponha contra sua vida, da maneira mais eficaz, acima de qualquer coisa. O importante é seguir em frente, não é? Claro que sim, eu não discordo mais disso. É o que tenho feito há algum tempo. Eu simplesmente decidi aceitar abandonar todo e qualquer apego aos meus velhos conceitos de passado e futuro e tenho descoberto coisas interessantes, não necessariamente otimistas. Apenas interessantes. 

Eu quero falar, quero escrever, mas será que alguém quer ouvir? Eu realmente não sei, ás vezes acredito que não. Ultimamente, tudo o que eu falo ou escrevo, parece ser visto sob a ótica da "loucura', como se primeiro as pessoas tivessem de passar o que eu disse ou escrevi por um filtro para saber se eu estou ou não "surtada" e, a partir daí decidir se vale a pena ou não. Isso me parece tirania. Uma pessoa com uma doença, qualquer que seja, não pode dizer coisas profundas? Não pode ser inteligente? Não pode ter uma conversa? Quer dizer que eu, por ter um transtorno que me deixa, ás vezes, emocionalmente instável, não sou digna de entrar em uma discussão, um debate ou uma complexa discussão de relacionamento? Quando você coloca todo o peso da relação interpessoal apenas no "doente", você está dizendo que você é perfeito, não comete erros, e não dá oportunidade para o outro mostrar suas qualidades. Você está sendo um ditador, e esse é meu ponto de vista. Eu sou uma paciente e também sou uma cidadã. Sou amiga, sou ouvinte, mas também sou a que tenho crises. Eu sou a que vive na fronteira. Eu sou a que tem os dois pontos de vista. 

Eu não sei qual é o objetivo dessa coisa que chamam de vida. Nem mesmo sei qual é o meu próprio objetivo enquanto escrevo. Cada dia que passa eu vejo menos motivos para continuar aqui, escrevendo. Quem realmente eu estou ajudando? Isso aqui é mais do que um texto, é um desabafo sincero de uma pessoa cansada de ser vista apenas como a louca esquisita que tem borderline. É assim que as pessoas me veem e elas acham que eu não sei. A esquisita, calada, louca, é julgamento atrás de julgamento. Julgamento disfarçado, julgamento explícito, de pessoas que odeio, de pessoas que amo, de pessoas que ignoro, e até de mim mesma. E eu fico indiferente porque é a estratégia que eu arrumei para sobreviver, mas não é o suficiente. Eu quero mais do que sobreviver. Eu quero ser ouvida. Mas ninguém quer ouvir, então... eu não tenho saída. Fico parecendo aqueles ratos correndo na rodinha, sem razão, sem querer parecer louca e sendo ainda mais louca. E eles acham que essa sou eu. 

Um dia eu acreditei que estava fazendo algo grande através de um ato pequeno (esse blog). Acreditei que poderia inspirar alguém a mudar a si mesmo porque é tudo o que eu posso fazer, inspirar você a pensar. Eu não tenho poder nenhum além desse. Essa é a mágica da escrita, da arte: inspirar. Mas, ultimamente, diante de tanto julgamento velado e explicito, diante de tanto peso, falta de incentivo e esse preconceito aberto contra nós, pessoas com transtornos mentais (e o pior é que as pessoas não admitem!), eu me pergunto até quando eu vou continuar fingindo que suporto?... Por enquanto, eu continuo seguindo em frente.

6 comentários:

  1. Oi novamente, Michele.

    Olha, tenho uma coisa que concordo 100% com você: o poder de inspirar da escrita. É uma coisa que talvez você possa não concordar ou achar que não faz nada de muito importante (percebi o tom desanimado dos seus texto), mas como um leitor posso te dizer que isso aqui, o seu blog, dentre outros lugares que visito, é muito bom pra mim, sobretudo quando preciso acreditar que o futuro será melhor, quando tenho as minha crises. Eu preciso disso, imagino que outras pessoas também. Não que ajudar os outros seja o seu dever, mas eu posso te falar que isso acontece, nem que seja apenas pro leitor que te escreve agora.

    No seu texto anterior você disse que não conseguia enxergar a real relevância do feedback que recebe por aqui no momento. Bom, quem sou eu pra falar o que é relevante ou não? Só saiba que ao menos pra mim, ler isso aqui me agrada muito. Seu "desejo secreto" talvez não seja só um desejo, talvez seja realidade mesmo. Eu só posso falar por mim, mas outras pessoas devem vir aqui, algumas só leem mesmo e estão em busca de certo conforto mesmo que isso venha de uma história de desconforto. Saber que não está sozinho ajuda muito. No fim das contas você não se sente tão "louco" assim. De qualquer forma, acho que o mais importante, pelo menos pra mim, é se sentir bem quando escreve. Isso vai ajudar outras pessoas? Talvez sim, talvez não, quem sabe? Mas se é um exercício que te dá alguma força, me parece bom recorrer a isso mesmo que seja uma "tentativa patética" de ser compreendida como você disse. Aliás, só por curiosidade, o que vale mais pra você é o fato de ser entendida, conseguir colocar em palavras tudo o que quer, com certeza de que as ideias serão capturadas exatamente como você deseja ou o que você mais gosta é simplesmente o fato de escrever de uma forma mais livre, sem muita preocupação em expressar tudo direito, uma coisa mais terapêutica mesmo? Nunca perguntei isso pra ninguém mas imagino que receberia respostas divididas. Acho que eu fico com o segundo caso, tanto é que nem ficaria frustrado se você nem visse esse comentário ou se você dissesse que nada do que escrevi fez sentido até agora. Eu escrevi e pronto, foi. Percebi que no meu caso, é meio difícil me fazer ser entendido, parei de esperar que alguém chegue e diga que senti tudo igualzinho a mim... tem tantos tipos de dores, cada uma reage de um jeito tão diferente, como vou saber se realmente estou sendo compreendido? Acho isso, em certa medida, surreal. No mais, acho interessante ver que há pessoas por aí que passam por algo similar, não é o meu objetivo principal mas é bom, não acha?

    Outra coisa que você falou foi a questão do estigma. Bom, ele é verdadeiro mesmo pois eu mesmo via tinha uma visão ruim sobre qualquer coisa relacionada à psiquiatria até que precisei admitir que precisava de ajuda e outros fóruns e lugares como esse me ajudaram a mudar essa visão. Nesse ponto eu acho esse blog ainda melhor. É você, Michele Barbosa, escrevendo tudo que sente, é tudo visto pela sua ótica, talvez eu não consiga entender tudo que você sente (como eu disse, acho difícil pra qualquer um entender exatamente como é a dor do outro) mas eu sei que é você escrevendo, são as suas ideia, você é real e tem problemas reais. Vale a pena se "expor" assim na esfera online e offline pra falar como é ter borderline? Aí só você saberia dizer, mas eu acho isso muito legal, vejo que você quebra vários preconceitos aqui. Além disso, o intuito não é se mostrar apenas como uma pessoa que está com um transtorno, correto? É buscar "uma vida saudável e equilibrada" como diz lá em cima, não é? Eu acho isso ótimo, Michele. Isso não é o que todo ser humano deveria buscar? Ninguém poderia te estigmatizar por isso.

    Uma boa semana pra você, dias melhores virão.

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  2. Obrigada por escrever essas palavras Skull! Realmente estou em dias desanimados, mas fico muito lisonjeada em saber que você se sente dessa forma lendo o que eu escrevo. Respondendo a sua pergunta, eu escrevo por terapia mesmo, para colocar para fora o que tanto fica obsessivo na minha mente, ás vezes me preocupo demais com o que vão pensar, mas não nos últimos dias, agora eu só quero me libertar... E você tem razão, cada pessoa é única, exclusiva, pensa e age de uma determinada forma em certas coisas e isso é que é legal, eu adoro essa troca de experiência, de opiniões... Muito obrigada mesmo por ter deixado esse comentário, pode ter certeza que mudou o meu dia! =)

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  3. De nada, Michele. Como eu disse eu acho que sou só mais uma pessoa num mar de pessoas que passam por aqui, só que algumas não comentam mesmo. Acredito sim que muita coisa que você fala faz, no mínimo, faz algumas pessoas refletirem, acontece comigo pelo menos. Não sei, acredito que toda mensagem causa algum impacto mesmo que seja indiferença (até pra ficar indiferente você precisar pensar um pouquinho eu acho).

    Fico feliz que o comentário tenha te ajudado nesse dia, o seu também me ajudou, pode ter certeza.

    Abraço.

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  4. Oi Michele me identifiquei muito com teu blog, tuas palavras...nao pare de escrever. Um beijo

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  5. Também gosto de escrever, acho um exercício muito válido, embora ultimamente venho deixando a escrita de lado. Mas se isso te faz bem de alguma maneira não deixe de escrever e postar seus textos,acabei de descobrir seu blog e estarei sempre que possível por aqui.

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  6. A inspiração de escrever é muito bonita, não deveria haver preconceitos, infelizmente a sociedade tem disso. Também gosto muito de escrever sobretudo poesia, porém no momento estou sem muita inspiração. Acabo de descobrir teu blog e me identifiquei com teus textos. Quem nesta sociedade atual não está doente? Seja pela síndrome que te acomete seja por outra qualquer o fato é que estamos doentes e solitários em um mundo repleto de diversões... Te faço um pedido: não pare de escrever se isso te faz bem e sempre que possível poste aqui.

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