domingo, 14 de fevereiro de 2016

Dificuldades em manter o tratamento


Vamos dizer que, assim como eu, após peregrinar por dezenas de psiquiatras e psicólogos, você tenha encontrado a combinação 'perfeita' de tratamento. Finalmente! Os remédios não provocam mais efeitos colaterais terríveis, e você confia nos médicos que te atendem. Ótimo, certo? Só que a vida é cheia de surpresas e um tratamento é um processo e não milagre, portanto, você nota que continua instável, e tendo crises. No começo, você até releva porque qualquer tratamento, inicialmente, é assim, mas já foram seis meses e você acabou de ter uma crise? Como assim?

É claro que a vontade de desistir do tratamento sempre aparece quando, após certo tempo, as crises continuam a acontecer, afinal, a expectativa é que elas desapareçam. É frustrante. Você toma os remédios conforme a prescrição médica, faz a terapia e os exercícios corretamente, e, ainda assim continua tendo crises. Por quê?

Eu também gostaria que as crises desaparecem, mas talvez eu devesse almejar uma meta mais realista, não? Eu não fiquei com um transtorno da noite para o dia. Foram anos de evolução, por inúmeros motivos: traumas, complexidades, mecanismos de defesas do meu cérebro. Como eu poderia querer que em semanas, meses, dias, algo tão grande e complexo, simplesmente desaparecesse como mágica? Quando me deparo com esse pensamento lógico e racional, começo a rir de mim mesma. Não há nenhum problema em querer que as coisas sejam simples e fáceis. Todos nós queremos. Mas a realidade não é assim. A cura, ou "remissão dos sintomas", como eles dizem, é um processo, e isso leva tempo. Ás vezes mais, às vezes menos. De qualquer forma, não dá para ter certeza. É tudo muito individual. E nem mesmo nós, os pacientes, sabemos quando e como vai ser. E isso assusta. Eu sei. Acredite. Eu já desisti outras vezes. Todas as vezes que, após certo tempo de tratamento, eu tinha uma crise, eu achava que não havia mais solução para mim, e desistia sem olhar para trás. Mas não agora. Agora é diferente. O que mudou? Porque eu não desisto? Mais de seis meses de tratamento, eu acabei de ter uma grande crise. Porque eu não desisti?

Algumas pessoas podem não gostar do que eu vou escrever. O pensamento de: Eu não sou a doença, eu sou uma pessoa com um transtorno de personalidade borderline, é algo que me mantém firme no tratamento. Eu sempre penso em desistir, mas quando esse pensamento assombra a minha mente eu me lembro que ele é originário da doença e não da pessoa com a doença, a Michele, eu.  Eu quero melhorar. Eu quero viver uma vida que valha a pena. Quero contribuir positivamente com as pessoas ao meu redor e com a sociedade. Quero construir uma vida nova, com sentido. Eu quero parar de ficar obsessiva com o passado. Eu quero tirar todo esse peso de cima do meu cérebro, não quero mais que ele viva sobrecarregado por causa de um transtorno de personalidade que pode ser resolvido com terapia e medicamentos. Mesmo que seja difícil, mesmo que seja doloroso, mesmo que esteja sendo algo desafiador. Eu, a Michele, quero continuar fazendo isso todos os dias, sem parar. Eu já sei como é desistir. Eu já sei como é continuar na mesma. Só que eu não sei o que tem quando eu continuo, mesmo carregando toda essa dor. Agora eu quero saber.

Crises acontecem sim. Elas diminuíram. O espaço entre elas ficam cada vez maiores. Antes elas aconteciam a cada dois dias, depois foram para uma vez por semana, agora são mensais, ou nem isso. Eu parei de contar porque elas ficaram distantes umas das outras. Então quando acontece uma, ela fica tão destacada que parece que acontece sempre, mas não é verdade. É preciso que aconteça algo realmente muito estressante para desencadear uma crise, antes coisas muito pequenas eram capazes disso. Isso não é um avanço? Claro que é. Mas eu tenho essa mania de não valorizar as pequenas grandes vitórias. Isso também faz parte do transtorno. Tendemos a ver apenas o que perdemos, o negativo, mas temos que aprender a ver o positivo também, o que ganhamos, que foi muito se formos parar e analisar, afinal estamos dedicados e nos esforçando para melhorar todos os dias, por nós e pelas pessoas que amamos, porque nós merecemos (mesmo que agora você não acredite nisso), e elas também.

Antes do tratamento, eu acreditava com todas as forças que a minha vida não valia nada, e que a única solução era a morte, eu não sabia me relacionar, eu nunca terminava o que eu começava, eu não queria fazer amizades e vivia tendo crises. Agora, em tratamento, mesmo tendo uma crise ou outra (porque elas diminuiriam, mas ainda acontecem porque não existe mágica, é um processo), eu percebo que posso fazer muitas coisas boas por mim, e principalmente para melhorar a vida de outras pessoas, eu estou conseguindo me relacionar melhor, e compreendi a importância de terminar o que comecei, isso se encaixa ao meu tratamento. Eu comecei os remédios há seis meses atrás. O psiquiatra não me prometeu nada. Apenas disse que eles auxiliavam na regulação do humor e na agressividade. Eles auxiliam mesmo. Nada demais. Sem terapia, eles não serviriam muito. A terapia me ensinou muitas ferramentas que, só agora, eu consigo assimilar e usar no meu dia a dia, se eu simplesmente desistir por causa de crises, eu posso estar perdendo uma grande chance de me "curar" completamente. E não estou dizendo que você está desistindo porque quer. Eu sei que não é.  É o transtorno. Por isso, é importante dizer ao seu psiquiatra ou psicólogo se estiver com vontade de desistir de tudo. Se não quiser dizer a eles, conte a um amigo confiável, ao seu parceiro, alguém com quem se sinta a vontade para abrir o coração, porque eu sei que isso é algo muito íntimo. Só não guarde para você, não tome uma decisão dessas sozinho, na impulsividade. Porque se o tratamento está sendo realmente bom, e você só está desistindo porque teve uma crise depois de um tempo, então isso é natural. Uma boa conversa, ajustes de medicação, ajustes na terapia, tudo pode ser de grande ajuda. Apenas não guarde isso para você. Não se isole. Não pense que não há solução para você. Mesmo com medo, abra-se com alguém que você confie muito. Falo por experiência própria, todas as vezes que desisti, me arrependi muito depois, tive que recomeçar do zero muitas vezes, agora eu não desisto mais, sempre converso com pessoas que confio quando quero desistir e percebo que meus motivos são passageiros, fruto da impulsividade, do pensamento "tudo ou nada", ou seja, do transtorno e não meus.

6 comentários:

  1. Ótimo texto e impossível não se identificar com esses trechos. Nossa vida é mesmo cercada de fases e se tem uma coisa que aprendi é que devemos dar valor ao que realmente importa. Mesmo porque não é fácil manter um tratamento. Beijos, Fê

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  2. Estou gostando muito das publicações, me identifico com muitas coisas, e sei o quanto difícil é.

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  3. Me identifiquei bastante com seus textos. Você descreve muito bem as dores de quem tem problemas mentais.

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  4. Esse post me emocionou muito. Sim, eu desisti depois de apenas 4 meses de terapia e medicação. Desisti da mesma forma como desisti de vários projetos em minha vida. No início me senti extremamente animado e esperançoso, acreditando que os comprimidos fariam tudo sozinhos, da mesma forma que um antigripal. Mas meu estado emocional era o mesmo, senão pior e larguei tudo. Mas continuarei. Tenho uma consulta marcada para quinta feira com minha psiquiatra e vou procurar outra terapeuta. Como você mesma disse, já sabemos como é desistir...

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    1. Oi, Alenxadher, que bom que você não vai desistir! =) Eu também desisti muitas vezes, entendo isso. Espero que você encontre seu caminho!

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  5. Nesse momento eu me encontro numa crise. E parece que vai ser impossível sair. Estou em tratamento faz 4 meses. Sinto vontade de desistir. Mas ler suas palavras me dão força. Porque não me sinto tão sozinha assim. É bom saber que outra pessoa nesse mundo saiba como é se sentir assim.

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