terça-feira, 22 de março de 2016

50 dias depois...

Era como se eu estivesse acordando de um sono profundo, após um longo tempo, mas eu não sabia exatamente quanto. Eu estava desorientada, minha visão estava alterada, o ambiente ao meu redor era estranho. Eu não entendia como havia chegado até ali, sentada naquela cadeira, conversando com meu namorado. Aliás, sobre o que mesmo estávamos conversando? Tudo estava começando a se tornar real a partir daquele momento. 

-Como assim? Você não se lembra de nada? - ele parecia muito surpreso, irritado e confuso ao mesmo tempo. 

A minha memória estava cheia de pequenos retalhos dos últimos... E de repente eu notei que não sabia quantos dias haviam se passado. Não, isso não poderia ser possível! Era segunda-feira e desde sábado eu não me lembrava de nada além de pequenos retalhos de memória que eu estava tentando costurar junto a ele. Eu precisava que ele me explicasse o que havia acontecido para saber se o que eu me lembrava realmente fazia algum sentido. 

Conforme ele falava, eu ouvia, atenta, comovida e surpresa a cada palavra, eu não conseguia compreender que eu havia dito e feito todas aquelas coisas. Não se parecia nada comigo, pelo mesmo não o que eu deveria ser. E então eu coloquei a mão no meu pulso, e senti dor. Oh, não. Eu estava cortada. Mais uma vez. A minha comemoração foi por água abaixo. Meses sem me automutilar e lá estava o corte. Tudo bem, acontece. Foram 50 dias sem crise. Quase cinco meses sem cortes. [não foi um fracasso]

O meu "eu irreconhecível" parecia cheio de dor, sofrimento e raiva. Sempre me perguntam: raiva de quem? Mas não existe uma resposta. Eu tenho vazio. E no vazio podem existir infinitos sentimentos, inclusive a raiva que é dirigida a todos e a ninguém ao mesmo tempo. Se eu não consigo entender, como eu vou explicar? Portanto, não tem um alvo, não é nada contra ninguém, só que existe uma dor tão grande dentro de mim desde sempre... desde que me lembro por gente... e dor causa raiva... É um mecanismo de defesa perturbado do meu cérebro. E eu sinto muito por envolver outras pessoas no meio do caminho. Sinto mesmo. Principalmente quando acontecem esses apagões. 

Eu ouvia atônita, calada, com um sorriso nervoso. Eu sempre carrego esse sorriso nervoso. Eu não consigo compreender como esse tipo de coisa pode acontecer com as pessoas. Como o cérebro pode reprimir a memória dessa forma. Não é que eu não me lembre de nada, mas eu me lembro de apenas algumas coisas, como um sonho. Coisas pontuais. E de repente, tudo fica claro a partir do momento eu que eu estava sentada na cadeira da cozinha, sei lá porquê. 

É demasiado assustador, temporariamente, ser dividida. Parece que, de repente, eu me transformo no vazio e a raiva toma conta de mim, e da minha boca, todo o discurso é de dor, muita dor. A dor não sabe falar apropriadamente, ela só quer gritar e colocar para fora. Só isso. E eu viro uma massa instável. A raiva, a tristeza, a alegria, o sentimento extremo que quiser me assaltar, vai conseguir naquele momento de crise. É tão difícil ouvir a descrição [ou me lembrar] de eu falando, chorando, gritando. É tão difícil não conseguir controlar. Eu queria que houvesse um jeito de parar isso, mas não tem. Quer dizer, tem, mas não é milagroso, e nem vai ser agora. Foram 50 dias de intervalo. Foi muita coisa. De qualquer forma, eu sobrevivi e de forma alguma vou desistir agora. Isso eu não posso fazer - apesar de vontade não me faltar.

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