domingo, 20 de março de 2016

Limitações da terapia dialética - Uma visão individual




Li alguns depoimentos na internet, ouvi alguns relatos, e cruzei informações científicas, dados, tudo o que fosse relevante. Para escrever esse texto, usei como base mais interessante esse artigo em inglês (clique aqui). Assim como Randi Kreger, coautora do livro Pare de Pisar em Ovos - livro que eu, particularmente, não sou uma das maiores fãs - eu não tenho nada contra a terapia comportamental dialética, até porque eu sou paciente, tenho transtorno da personalidade borderline e faço essa terapia. Todo o meu progresso foi graças a essa terapia. Porém, eu também acredito que ela não é uma cura milagrosa e eu estou experimentando algumas dificuldades que eu gostaria de dividir com vocês. 

No artigo em questão, a escritora aponta algumas "falhas" da terapia dialética que eu estou começando a experimentar e acreditei que era só comigo, mas não é. Conheci e estou encontrando várias pessoas na internet que se sentem igual, e, se por acaso, alguém estiver se sentindo assim, peço que me conte. 

Eu acredito que nenhuma terapia é milagrosa, e que a cura depende de vários fatores individuais e até mesmo sociais. Uma terapia não depende apenas do paciente, há certo trabalho do terapeuta também e eu só aprendi isso na minha terapia atual. Você faz um trabalho muito melhor se tiver alguém incentivando você. Alguém que não julgue, não interprete e não queira te modificar. Alguém realmente imparcial, cujo único desejo aparente é que você prospere e siga seu caminho. Nesse ambiente, você sente vontade de melhorar, de enfrentar todo o sofrimento, de se manter em pé, de seguir em frente mesmo se estiver completamente retalhado. Isso, para mim, é uma relação humana entre médico e paciente, quando se trata de doença mental, afinal, você vai deixar uma pessoa entrar na sua mente, e isso é muita confiança. 

Quando eu li sobre a terapia dialética, eu não gostei. Não gosto de nada que seja comportamental, repetitivo, mecânico. Não me agradava a ideia de alterar o meu comportamento por causa das outras pessoas. Até que eu mesma percebi que a única forma de salvar a minha vida era me dar a chance de ser ajudada e terapia dialética era a última chance. Eis me aqui, salva, sem cortes, sem rivotril, sem instabilidade há muito tempo, forte. Mas não existe perfeição. Tudo tem um lado positivo e negativo. Essa é a minha opinião, essa tem sido a minha experiência pessoal. 

-> [tradução livre] A terapia dialética reduz pensamentos suicidas e os casos de automutilação. Estudos não demonstraram que ela alivie a depressão ou deixe os clientes mais felizes (apesar de muitos indivíduos dizerem que sim) :  

Os pensamentos suicidas são muito reduzidos mesmos, e eu não me automutilo mais. Ok, positivo. Porém, a minha depressão jamais foi embora, ela continua persistindo como uma verdadeira pedra no sapato - e vale relembrar que eu não posso, de jeito nenhum, tomar antidepressivos. Quanto a questão de sentir-se feliz. Se me perguntarem se eu sou feliz, eu vou dizer que sim, porque é o que as pessoas querem ouvir. Ninguém quer que você seja sincero, quando eu tento ser sincera, logo sou alvo de críticas, julgamentos e conselhos que eu não pedi - e não que eu me importe (ok, talvez eu me importe), eu simplesmente, dou um sorriso e vou embora. A questão é que a realidade é essa: se perguntam, você responde, mas responde o que? O que você quer ou o que eles querem? Sinceramente, eu não me sinto feliz, provavelmente por causa da minha depressão ou talvez por que a vida seja assim mesmo, eu não sei responder ainda.

-> [tradução livre] A terapia dialética é exigente. Todo dia, os pacientes preenchem formulários, e a maioria dos pacientes leva muitas horas todas as semanas em atividades terapêuticas. Para sentir os benefícios de sua terapia, os pacientes tem de estar altamente motivados. 

Se você não sabe como essa terapia é, eu vou rascunhar um quadro bem básico. Um monte de siglas para você decorar, cartões para preencher, "filosofias de vida" para seguir, enfim, você vai aprender a obter o autocontrole das suas emoções e praticar as habilidades sociais mantendo a atenção plena (o famoso mindfulness). É muito trabalho árduo, mas a recompensa também são grandes. Repito, a recompensa é grande, vale muito a pena o esforço. Eu não me arrependo nem por um minuto. O que eu estou questionando é que tem algumas pontas soltas e eu não sei como reparar. Por exemplo, eu não consegui ficar preenchendo todos aqueles formulários. Eu tive que arrumar outra estratégia para decorar siglas e enormes textos (eu fiz meu próprio caderno). 

 Além do mais, o sucesso de uma terapia também depende do núcleo social. Família e amigos ajudam muito nessa hora. Eu tive muita ajuda no início, mas agora que eu melhorei 50% parece que já posso andar com as próprias pernas. A melhora aparente pode dar a impressão de que sou uma pessoa forte o tempo todo e não preciso mais de carinho, proteção e ajuda. Como se somente seres humanos enfrentando problemas merecessem "tratamento especial". Eu não acho que ninguém faça isso de propósito, acredito que seja algo inconsciente, mas todo ser humano merecia ser tratado com dignidade, respeito e carinho. Todo ser humano, tenha ele algum problema ou não. Pois, se assim fosse, não enfrentaríamos tantas adversidades na sociedade, ou, ao menos, seria mais fácil lidarmos uns com os outros. Gentileza gera gentileza, não é? Amor gera mais amor.

Mais uma vez, eu gostaria de deixar claro que eu tenho a maior admiração e respeito pela criadora da terapia dialética, a Dra. Marsha Linehan. Só pelo fato dela ter trazido luz a uma área onde não havia nenhuma esperança é algo muito, muito grande. Não existem palavras para agradecer. A terapia realmente ajuda a criar uma vida que não pensávamos que podíamos ter. Hoje eu já começo a conseguir viver com mais estabilidade, clareza e sociabilidade. Eu não teria conseguido isso sem a ajuda dos meus terapeutas, da terapia dialética, da minha família e, claro, da minha própria vontade. O que eu quis mostrar é que uma terapia só talvez não seja capaz de resolver 100% dos nossos problemas. Seria igual querer que um remédio fosse capaz de curar todas as doenças de uma só vez. Não dá, mesmo se fosse possível, você teria diversos efeitos colaterais. Pelo menos, essa é a minha visão. Essa tem sido minha experiência até agora. Caso você esteja passando por algo semelhante, deixe-me saber nos comentários. O debate é bem-vindo aqui.

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