sexta-feira, 18 de março de 2016

Silêncio, solidão, depressão




"Monstros se aproximando rapidamente, marchando em sincronia
Aproveite os flashs na sua mente e do que sua mente não guardará
Corra, querida, corra
Eu vou distraí-los, se eu conseguir
Você escapará e eu serei abandonado apodrecendo na vinha"
(River in the road, Queen of the Stone age)

O silêncio desse quarto é quebrado pelo som do violino da música que estou ouvindo e a cada pausa posso ouvir minha própria respiração, o vento entrando pelas frestas na janela e de vez em quando o suspiro desconfortável que eu dou, como quem diz que vai entrar em desespero a qualquer momento.  Esse é o retrato mais sincero que eu poderia descrever da pessoa que eu sou quando estou sozinha. 

Eu não preciso de mais nada além do silêncio para me machucar. Meu próprio silêncio me corta - profundamente. Ele me causa feridas que eu não sei curar, que estão, frequentemente, reabrindo, sangrando, infeccionando, e, sem ao menos me dar uma pista, por algum motivo, elas se fecham e se curam. Parece que cada dia que se passa, em vez de eu saber mais, eu reconheço que sei menos, na verdade, estou ainda caminhando no escuro em relação a mim mesma, eu ainda não sei quem eu sou ou se um dia eu saberei, eu acredito que talvez essa seja uma daquelas perguntas sem respostas. 

Esse silêncio cortante sempre vem acompanhado da vontade de chorar. Aquele choro gutural, saído do mais profundo do meu ser, daquele momento em que todas as emoções estão permitidas descontrolar e o grito vai sair pela garganta não apenas uma vez, mas várias. Esse silêncio antecede a vontade de explodir. Mas não hoje. Hoje eu terei de engolir esse vontade. Quem saber misturar com um pouco de álcool para descer melhor ou um subterfúgio qualquer como um programa na televisão. Qualquer coisa que me faça esquecer, que me faça sair desse maldito estado depressivo. Qualquer coisa que me tire desse vazio sem fim e me coloque de volta na roda da vida, no jogo da realidade.

É estranho eu estar nessa dualidade entre a depressão e a vontade de ser eu mesma, sem máscaras, sem teatro. Eu nunca estive nessa situação antes, é tudo novidade para mim. E até mesmo o silêncio se tornou uma surpresa. Eu acabo me sentando, sozinha, ouvindo nada mais do que o som da minha respiração, e procurando respostas do porque eu já não sei mais aonde foram parar todos aqueles sentimentos que eram tão preciosos para mim. Onde eles estão? Porque tudo é tão silencioso dentro da minha mente? Não é um silêncio pacífico, é um silêncio que precede o caos, e eu não gosto disso.

Todo esse território novo ao qual estou submetida agora em estar meio na estabilidade e meio no vazio, eu não estou sabendo lidar. Eu me olho no espelho e continuo não compreendendo quem eu sou e para onde estou indo. Disseram que eu deveria prezar a relação comigo mesma, mas se eu não sei ainda quem eu sou, como é que eu vou fazer isso? Como eu vou saber que ultrapassei os meus limites? Eu não sei mesmo. Eu estou em uma estrada escura e sem lanterna, dessa vez.

Talvez todas essas tentativas de me construir, reconstruir, construir, reconstruir. Foram tantas vezes, tantos jeitos diferentes, fracassos, sugestões, interpretações, fantasias, sofrimento, trabalho árduo até chegar nesse ponto que eu estou. Acho que estou em uma nova fronteira (borderline?). Uma fronteira entre a pessoa que eu era: instável, 100% emocional, sonhadora, a que fantasiava e acreditava em um mundo de conto de fadas e entre a pessoa que eu estou me tornando agora: a estável, 70% racional, realista, pessimista, que não espera nada de ninguém, que não acredita em conto de fadas. Olhando de fora, ainda parece um cenário de opostos extremos.

O lado positivo dessa situação é que o problema está concentrado todo dentro de mim. A dualidade não está mais sendo exposta as outras pessoas. Isso é bom - eu acho. Ninguém mais vai ter que sofrer por causa de acessos de fúria e etc. Só eu. Mas caminhar em uma estrada escura, sem lanterna (com depressão), é uma grande agonia. A única coisa que eu sei é que eu devo seguir em frente. Sempre em frente. Não importa o que aconteça. 

2 comentários:

  1. Oi Michele.

    Há duas semanas atrás eu estava exatamente assim, tive que me prender à coisas fúteis para "superar". Na verdade nem lembro como foi essas duas semanas, pouco pensei na vida e muito fantasiei.

    Infelizmente, quanto mais realista/pessimisa mais isolado nos ficamos das outras pessoas. Mas isso no fundo é bom, evita decepções. Estou na luta para parar de agradar as pessoas da qual não me importo, parar de ser importar com os outros, dizer mais "NÃO" ao invés de ficar justificando com mentiras. Muito disso me faz eu me perder de mim mesmo. Tenho que tomar mais decisões pautadas no meu interesse, mas é complicado... Ficamos sempre com medo dos pensamentos alheios, mesmo sabendo que para eles eu não existo.

    No dia em que eu não me importar com mais ninguém, será quando me conhecerei verdadeiramente.

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  2. Você escreve belissimamente bem! Sua dor está sendo bem canalizada nas suas palavras. Me emociono muito com os textos que leio.

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