segunda-feira, 11 de abril de 2016

Carta para Borderline #2


"Mito: Pessoas com Transtorno da Personalidade Borderline (TPB) não querem se matar
É um triste equívoco pensar que pessoas com TPB tentam o suicídio para chamar a atenção. Na realidade, 10% dessas pessoas morrem, diz o psiquiatra Dr. Shari Manning." 
Olá, Borderline!

Há um mês atrás passamos por momentos tensos, complicados e assustadores. Mais uma vez você me fez ultrapassar alguns dos meus limites e cheguei bem perto de romper com o limite final. O que me segurou? O que sempre me segura? Eu não sei, talvez seja meu forte instinto de sobrevivência ou algo mais profundo no meu inconsciente, ainda não tenho essa resposta. O fato é que estou aqui, viva, respirando, seguindo em frente. 

Eu lembro de todos aqueles momentos em que estive fora de mim - todos os que meu cérebro me permite lembrar - e percebo o quanto a mente humana possui elementos frágeis, o quanto a fronteira entre a sanidade e a insanidade é realmente tênue. Eu a ultrapasso muitas e muitas vezes graças a você. Me pergunto o quanto você acha isso divertido ou se é só uma questão de controle. Você me tira de toda a razão que eu possa ter e me transforma em um ser emocional, passional, tomado por todos os sentimentos do mundo em nível extremo. Eu não sei quem eu sou e quais são meus limites, eu pareço infinita e desgovernada. 

Eu perco o respeito por mim mesma, não reconheço o reflexo no espelho e acredito mesmo que não mereço ser tratada com a menor dignidade porque, naquele momento eu sou você e você sou eu, não existe mais separação, eu deixo de enxergar os nossos limites e nos transformamos em uma coisa só. Entre uma amnésia e outra, eu percebo que estou coberta de hematomas e cortes, não preciso de muita lógica para compreender que fui eu a autora de tudo isso. Vergonha, medo, culpa, o sentimento de vazio começa a se espalhar novamente. Você fez isso comigo. Foi você quem me deixou nesse estado deplorável, mas você não existe fisicamente então não tem ninguém para culpar. 

Mas dessa vez foi diferente. Eu te vi assustado, com medo. É o medo o gatilho? Todos meus ambientes externos estão instáveis, estressantes, difíceis de lidar e aí eu te vi tão desprotegido, acionando todos os mecanismos de defesa ao mesmo tempo, transformando quem eu era em algo indescritível e incontrolável. Você estava tentando me defender? Você quase acabou com a minha vida e se isso acontecer não existirá mais ninguém para defender. Nem eu, nem você. Isso não é uma saída, nem mesmo solução. Seria simples, eu sei, eu mesma imagino isso o tempo inteiro, mas não é a melhor solução nem de longe. A melhor opção é viver, é continuar, é superar, se adaptar. E se você quer me ajudar, eu preciso que você se adapte, que se transforme em algo novo, algo melhor, porque enquanto continuar fazendo as mesmas coisas, acionando os mesmos mecanismos, teremos as mesmas respostas. Isso é loucura. 

Eu vim propor um acordo. Novamente. Eu continuo tentando aqui com mais força, com mais empenho, apesar de todo esse vazio. E você se adapta. Tente. Sei que mudanças são assustadoras, mas estou contando com isso para descobrir se a vida realmente tem todas as cores que eu acho que tem ou se são apenas invenções da minha mente. 

Michele.

Um comentário:

  1. No vazio, acrescenta-se o que quiser. Ainda bem que você quer acrescentar coisas boas.
    Você é mais forte do que imagina, menina, mesmo que não imagine. Há uma fortaleza interna com vontade de desbravar o que há de melhor no mundo, na vida.
    É melhor do que imagina ser e maior ainda do que seus julgamentos pós-crise. Não desista e não se envergonhe. Não é você ali, mas sim um "alguém" que não condiz com o seu verdadeiro eu.

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