domingo, 29 de maio de 2016

Disseram que eu não viveria tanto


Amanhã eu completo 30 anos de idade. Eu não pensei que chegaria tão longe. Quando era adolescente costumava acreditar que não passaria dos dezoito por conta do tamanho da instabilidade da minha mente, eu não sabia, de verdade, até quando estaria viva, e, no entanto, aqui estou eu. Fazendo um retrospecto dos últimos vinte anos vivi levada completamente pelas minhas emoções e não poderia ser de outro jeito. Hoje eu sei que não poderia, porque tenho uma condição chamada transtorno de personalidade borderline que, embora não me defina, me limita. Essa condição permaneceu escondida, camuflada e negligenciada por tempo suficiente para causar danos muito profundos e transformou uma boa parte da minha adolescência - se não foi toda - em um verdadeiro caos. No entanto, eu sobrevivi. Eu fui contra todas as probabilidades e estatísticas - e torcida - e lutei pela minha vida. Talvez eu devesse contar essa historia aqui... para que ela nunca mais se repita... 

Era uma vez uma versão de mim que não sabia nada sobre si mesma além de que era uma adolescente de treze ou quatorze anos e que dependia da opinião das próprias amigas para definir a si mesma. Alem disso, eu vivia nas profundezas sombrias de um mundo de culpa, vergonha, medo, abandono e, claro, negligência familiar, mas isso não vem ao caso. Ate hoje eu não sei se eu gostava daquela escola e daquelas pessoas. Eu vivia para agradar. Eu era um ser emotivo. Eu era emoção. Eu nem mesmo sabia se eu existia a não ser que alguém falasse comigo. Toda a realidade era muito relativa. Isso é o que acontece quando você tem um transtorno mental não tratado. Isso é o que acontece quando você é um adolescente que não pode contar com um familiar ou um amigo. Esse é o poder do estigma e do preconceito. Esse é o poder do isolamento. Esse é o resultado da falta de informação das pessoas. Não tem necessariamente um culpado. O problema é como o sistema funciona. A cultura inserida na sociedade. Eu não tinha para quem ou onde procurar apoio, portanto não tinha como me tratar. E, nesse inferno todo, eu fui parar na diretoria por causa de uma carta que enviei a um professor. Eu tive um amor platônico por ele. Nada demais. Coisa de adolescente. Nada fora dos limites e eu fiz porque fui incentivada por uma amiga, eu jamais pensei que seria correspondida, eu não estava com delírios ou sentimentos exagerados. Não. Eu não estava em crise. Eu comecei a entrar em crise quando entrei na sala da diretora. 

Eu me lembro até hoje. O tal professor se achava superior falando sobre mim com a diretora enquanto eu me lembrava de todas as caronas suspeitas que ele sempre oferecia a uma aluna x. Claro que, naquela época, eu não achava suspeita, eu só achava...estranho. Pensei mesmo em falar aquilo a diretora, mas meu instinto natural é sempre proteger as pessoas que eu gosto, mesmo quando elas me magoam. Ele estava me magoando, mas eu deveria me sacrificar mesmo assim. Isso foi um grande erro. Eu estava agindo somente com emoção. Eu não tinha como saber isso naquela época. Um tratamento teria me ajudado muito. Enquanto eu esperava a diretora falar comigo, minha cabeça parecia um vulcão prestes a explodir. A próxima coisa que lembro foi dela falando sobre homens, o quanto EU estava errada em escrever uma carta para ele, a vergonha que senti, o medo de ser punida pela minha mãe (depois eu me automutilaria) e o impacto da última frase que ela disse:

-Se você continuar assim, vai acabar dando um tiro na cabeça quando fizer 30 anos! 

A conclusão do caso foi que ele era o santo da historia que não deveria ser incomodado pela aluna nerd, feia e esquisita que vivia chorando pelos cantos - e que, pela probabilidade dos garotos jamais teria um namorado. Eu levei a culpa de tudo, inclusive eu fui chorar no ombro da amiga que incentivou tudo isso. O que importa aqui foi o impacto da frase da diretora, eu jamais esqueci, até hoje. 

Meninos e meninas, eu cheguei até aqui. 30 anos. Não atirei na minha cabeça, nem pretendo, nem mesmo tenho uma arma. Não tem a menor possibilidade de isso acontecer. Sinceramente, eu não sei o que aquela senhora quis dizer com "continuar assim". Eu não sabia ser de outro jeito. Sim, eu continuei assim. E eu vou continuar assim. Eu não tenho como ser outra pessoa, de outro jeito. O meu maior desejo era ter uma história de vida interessante e parece que eu consegui. Foram muitos altos e baixos, erros e acertos, superações e recaídas, tristezas e alegrias, dor e sofrimentos. Eu tenho dentro da minha mente uma montanha-russa emocional que transforma todos os meus dias em algo surpreendente para o bem ou para o mal e isso é desafiador. Eu preciso e tenho o dever de me superar todos os dias. Não foi porque alguém duvidou que eu viveria que eu cheguei aqui, foi porque eu quis, foi porque eu me desafiei, é porque eu sigo acreditando em mim todos os dias. 

Tem dias que sim eu quero desistir de tudo. Eu quero abandonar tudo, mas aí eu me lembro das coisas boas, das pessoas que amo, eu espero passar esses pensamentos, porque as vezes e só questão de tempo. O tempo é tão relativo. Levou quase vinte anos para eu conseguir contar essa história em público. Eu queria mostrar que uma pessoa não pode ter o poder de controlar sua vida, sua mente, sua vontade, mas eu compreendo que ás vezes ela controla, porque aconteceu comigo. Muitos momentos essa frase tomou conta de mim e eu acreditei que realmente não chegaria nos 30 anos. Mas eu estou aqui e só dependeu de mim. Hoje eu estou no caminho da melhora, fazendo o tratamento certo, com a medicação certa e, se vocês querem mesmo saber, eu comecei a perceber que eu não poderia ter feito nada diferente, mas agora em diante eu posso porque eu entendo que na vida temos que fazer pelos outros e por nós também, tudo é questão de equilíbrio. 

3 comentários:

  1. Michele medicaçao??? Qual??? Chorei ao ler este texto..vc está a falar de mim...somos iguais

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    1. Olá :) obrigada por comentar!!! Infelizmente não existem um medicamento que trate especificente do borderline, então eles tratam os sintomas, eu tomo um estabilizador de humor (topiramato) e um antipsicótico (quetiapina). Beijos

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    2. Obrigada Michele. Eu estou a iniciar topiramato e Prozac mas a ansiedade não se vai embora... estou muito, mas muito cansada. Beijos para si e tudo de muito bom.

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