sexta-feira, 13 de maio de 2016

Porque eu ainda estou aqui


Importante: Esse texto pode causar gatilhos emocionais em pessoas sensíveis ou em crise.

Eu estava buscando um material de apoio sobre suicídio. Algo que fosse científico, escrito em português, por profissionais e que validasse a opinião médica da maioria dos bons médicos e, claro, algo que eu concordasse. Confesso que é uma tarefa difícil encontrar algo com todas essas características na internet ou mesmo em livros, eu teria que pegar um pedacinho de cada coisa, afinal, eu estou querendo algo baseado na minha história, experiência e opinião - por mais que eu acredite que eu esteja sendo imparcial. Então, lá estava eu lendo o informativo de prevenção de suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria (se você quiser ler também, clique aqui) quando me deparei com a frase "Além disso, cada suicídio tem um sério impacto na vida de pelo menos outras seis pessoas". 

É claro que o informativo não se reduz a isso, ele explica todas as razões que levam uma pessoa a cometer o suicídio, os transtornos relacionados, e claro, derruba preconceitos e mitos, explorando as vulnerabilidades do sistema de saúde, é sim um ótimo material de prevenção e planejamento. Mas aquela frase ali acima, me causou um impacto. Eu nunca havia parado para pensar nisso antes porque eu não tinha nenhuma condição emocional. 

Percebi que se eu me matasse, minha família, alguns amigos e meu marido, provavelmente sentiriam a mesma dor que eu sinto quando penso no meu avô falecido - ou até pior, afinal, eu morreria por circunstância mais trágica, eu causaria uma lembrança traumática (algo com o que eu sofro terrivelmente hoje). Isso não parece muito eficaz, não é? Não parece nem mesmo a solução final digna que eu tanto procurava. Sim, isso terminaria com o meu sofrimento, mas, vamos a frase lá em cima, causaria um sério impacto na vida de pelo menos outras seis pessoas. Aí eu comecei a contar... Meu cérebro "saudável" me lançou um desafio: me diga seis pessoas que você tenha evidência que amam você e que sentiriam sua falta se você morresse por qualquer motivo que fosse. E lá estava eu contando seis pessoas. E eu comecei a chorar. Muito.

Isso aconteceu mesmo, não estou dizendo isso só por dizer. E eu não tive esse pensamento da noite para o dia. Eu acredito que só pude ver as coisas assim por causa do meu tratamento e do meu nível de autoconhecimento (e é minha experiência pessoal, lembrem-se, as de vocês podem ser completamente diferentes). Há muitos anos atrás, em meio a crises terríveis do borderline e da depressão eu jamais teria conseguido enxergar as coisas assim, certamente eu precisaria de ajuda externa, profissional. Alguém que me explicasse de forma empática.

Eu chorei porque consegui notar uma evolução gigante em mim mesma. Primeiro porque eu conseguia acreditar de verdade que aquelas pessoas me amavam e eu as amava, confiava nelas, mesmo com todo o passado envolvido, não importava mais, eu entendia que erros acontecem, e podemos superar e mudar. Segundo, porque pela primeira vez conseguia ver o suicídio sob outra perspectiva, sob a visão do outro. E se um ente querido meu se suicidasse? Como eu me sentiria? E então eu pude sentir o grande impacto que isso me causaria, afinal eu já sinto um enorme vazio por causa da morte do meu avô (que causou a piora do borderline). E depois disso algo mudou. Eu continuei aqui. E tenho cada dia mais amor por esse ar entrando e saindo dos meus pulmões... Eu não compreendo como cheguei até aqui, talvez seja teimosia, o fato é que meu inconsciente me empurra para frente... por algum motivo... talvez agora um dos motivos sejam essas "seis pessoas"...

Um comentário:

  1. Ao ler seu texto pensei no sofrimento que causaria as pessoas que mais amo e desatei a chorar.

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