terça-feira, 7 de junho de 2016

Reflexões sobre a morte #1


Importante: se você está em crise, melhor não ler para evitar gatilhos emocionais. Isso é um exercício terapêutico em uma tentativa de superação da morte do meu avô.

Meu avô morreu em 2008. A maior parte da vida dele foi acompanhada pelo alcoolismo. E foi por complicações pelo excesso de álcool que ele morreu. Fazia pelo menos uns nove anos antes dele morrer que eu não o via, a única interação que havíamos tido foi por carta. Poucos telefonemas, nenhuma visita. Quando ele foi embora, ninguém me deu uma explicação verdadeira do porquê ele estava entrando naquele ônibus para outro estado. E eu vivi todo esse tempo - até a última carta - achando que ele havia ido embora porque minha família havia o expulsado (então, eu tinha vergonha, medo, e culpa de falar com ele, porque achava que ele me odiava). 

Eu me lembro daquele dia. O ônibus e meu avô indo embora nele. A dor que eu senti e tive que engolir. Eu era apenas uma criança, mas esperava-se que eu, em alguns momentos, agisse como adulta, afinal, eu vivia apenas entre adultos. Enquanto meu avô estava perto de mim, eu me sentia forte, sentia que poderia ir a qualquer lugar e ser quem eu decidisse ser. Eu não tinha dúvidas de que ele me amava como uma filha e eu o amava também, apesar de tudo. 

É claro que havia o alcoolismo e isso me magoava. Isso destruía a família inteira. Mas eu era apenas uma criança e, naquela época, ninguém me explicou e eu não compreendia que ele era alcoólatra. Eu apenas ouvia comentários das pessoas sobre meu avô ser "louco"ou "bêbado", mas não compreendia o que isso significava. Eu apenas sentia. Eu sentia quando olhava em seus olhos que havia escuridão. Todos na família queriam distância dele. Eu não. Eu não tinha medo. Eu também sentia em mim uma escuridão bem parecida. Juntos, nós formávamos uma forte aliança. Na maioria do tempo, não precisávamos nem dizer nada. O silêncio já dizia tudo. 

Meu avô não era inteligente, no sentido, instruído. Ele nem mesmo terminou o primário. Ele não era bem sucedido também. Todos os empregos que ele conseguia, acabava abandonando por causa do vício. E seu relacionamento com minha avó era muito conturbado. Sem álcool, ele era um homem contido, polido, alegre e educado, mas quando bebia, tornava-se até mesmo violento. De vez em quando, sem a bebida, eu conseguia enxergar que ele lutava para manter-se "na luz", mas ele jamais deixava transparecer para minha avó. Luta que eu vejo dentro de mim, hoje. De qualquer forma, era um homem sensível, em extremos.

Só depois da morte dele, eu tive coragem de perguntar a minha mãe, porque ele foi embora. E, para minha surpresa, foi ele quem decidiu ir. E eu entendi o motivo, porque, provavelmente eu teria feito o mesmo. Quando ele estava comigo, ele jamais me machucava ou magoava, pelo contrário, ele tentava ser o melhor avô do mundo e fazia eu me sentir especial, única. Ele só queria me proteger. Mas com a bebida, ele se perdia. Quando ele decidiu ir embora, ele abriu mão de tudo, para proteger a família dele mesmo. Não sei se foi uma boa escolha, mas foi uma escolha. Ele pagou o preço. Minha avó ficou bem. Minha tia e minha mãe também. Eu não. 

Talvez porque eu não tenha sofrido tanto, fisicamente e verbalmente, com o alcoolismo dele. Eu fui a que mais sofri com essa escolha, pois eu me senti sendo punida. Ninguém me explicou, ele foi embora para um lugar muito longe, e não se falou mais no assunto. Essa foi a primeira morte dele. Mas, de certa forma, ainda havia uma esperança, afinal, ele ainda estava vivo, só que em outro lugar. Até que eu recebi a ligação da minha mãe dizendo que ele havia morrido, dessa vez, de verdade. 

Agora é 2016 e eu ainda não consigo aceitar isso. O tempo que foi perdido. As conversas que não tivemos. Tantos "eu te amo, vô" que eu não disse e tantos "eu te amo, minha neta" que não ouvi. Os abraços que não foram dados. Os beijos no rosto com a barba por fazer que eu não dei. O cheiro do desodorante que não senti. O barulho do sapato que não ouvi. O jeito que ele me olhava como se eu fosse a pessoa mais importante e bonita do mundo. Eu ainda me lembro desse olhar. Eu ainda lembro da voz dele. Eu ainda lembro o jeito que ele penteava o cabelo. Ele também era a pessoa mais importante da minha vida. E não é a morte dele que eu não consigo aceitar, é o fato de não terem me dado a chance (quando eu era criança) de ter passado mais tempo com ele, o fato de ninguém ter me incentivado a buscar a presença do meu avô, o fato de isso ter sido tirado de mim. 

Eu não vi meu avô ser enterrado. Eu não pude e não conseguiria ir. O borderline não permitiu, mas uma pessoa da minha família me culpou. Ela me disse que eu não fui porque eu não quis. Eu pensei, seriamente, em me matar nesse dia. Eu não suportaria carregar mais essa culpa. Hoje eu estou aqui. Eu não consegui mais ser a mesma. Eu não consigo me recuperar. Nem superar. Não passou um dia sequer que eu não tenha pensado nele. Meu avô. Meu pai. A pessoa mais importante da minha vida. A morte me mudou, talvez para sempre, eu não sei. É muito difícil ter de lidar com algo que é definitivo, mas o pior é quando você olha para trás e percebe o tempo perdido. É isso que me dilacera.

4 comentários:

  1. como sempre, um texto cheio de expressões e sentimentos que nos fazem sentir um pouquinho do que você sente. Eu sinto muito minha flor, mesmo após todos esses anos, porque sei o quanto é inevitável não pensar e reformular como tudo poderia ter sido se houvesse uma atitude diferente... Sei que seu avô estaria orgulhoso de você se estivesse aqui.
    Beijos linda.

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    1. Obrigada pelo comentário! Adoro quando você vem aqui!

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  2. Me identifiquei um pouco. Minha avó morreu faz cinco meses. Quando minha mãe estava acompanhando minha irmã mais nova internada no hospital, faziam 4 dias. Esses dias eu passei com ela, na maior parte do tempo estávamos a sós em casa. Eu fazia a comida, dava os remédios, banho, ajudava levantar, deitar e etc...eLá sofria de esclerodermia sistêmica à quatro anos. Na noite em que ela se foi, conversamos bastante e vimos realites shows americanos de noiva e eu disse que iria me casar com um vestido igual, ela disse que eu ficaria linda. Então na madrugada ela passou mal. E enquanto ela perdia o ar lentamente eu tentava fazer algo. Aumentar o balão de oxigênio e etc. Enfim. Se eu tivesse chamado meu pai que tBm estava na casa logo talvez teria evitado. Até hoje me sinto culpada. O pior é que isso se misturou com os transtornos alimentares... aí vem a automultilacao. Eu era a mais apegada com ela. Não tem uma noite que passo sem chorar. Tenho 15 anos.

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    1. Mari, obrigada por compartilhar sua experiência comigo! Sinto muito pela sua perda. Eu entendo essa dor que você sente. Respeite o seu momento de luto. Você escreveu sobre isso, já é um começo, colocou para fora. Sei que os pensamento de culpa e do que poderia ter feito são inevitáveis, mas tente não se cobrar tanto... Converse com amigos, familiares, procure não se isolar, ok? Se ficar muito ruim, e você puder, procure ajuda psicológica, é muito bom poder conversar com psicólogos (se é que você já não frequenta algum, claro)!... E, mais uma vez, obrigada por ter comentado aqui... Eu sei que essa dor que você carrega é grande... Abraços

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