sexta-feira, 10 de junho de 2016

Reflexões sobre a morte #2


Importante: se você está em crise, melhor não ler para evitar gatilhos emocionais. Isso é um exercício terapêutico em uma tentativa de superação da morte do meu avô.


Eu acreditava que a parte que eu mais odiava era a morte em si. De repente, a pessoa desaparece e você fica aqui tendo de lidar com o fato de que nunca mais irá ver, abraçar ou ouvir a voz daquela pessoa (a não ser que você tenha uma religião e se console com alguma possibilidade, eu respeito isso). É algo muito cruel, assustador e leva um bom tempo para se acostumar com a ausência. Na verdade, acho que a gente nunca se acostuma, apenas se adapta.

Percebi que meu problema real é o medo do esquecimento. Eu tenho pavor de esquecer meu avô. Acho que esse é até um medo infantil, talvez. Eu não sei. Eu apenas sinto. Em algum lugar da minha mente, há alguma parte de mim preocupada em manter uma imagem dele, o tempo todo, porque, se eu esquecê-lo é como se ele nunca tivesse existido e aí, qual é a referência de bom cuidador que eu terei? Afinal, ele foi o único familiar que conseguiu me transmitir amor sem nenhuma disfunção - mesmo tendo tanta escuridão dentro dele. 

Foi através de um homem que todos julgavam de alcoólatra sem recuperação que eu senti o que era o amor paternal, inocente e sem cobranças. Ele não entendia nada de psicologia, mas sabia como incentivar a minha individualidade, independência e nutrir o amor, respeito, carinho, segurança e cuidado que eu precisava como criança. Eu sempre me sentia segura ao lado dele, mesmo quando seu hálito exalava álcool puro. Ele nunca me machucou, nunca passou do limite, e mesmo quando estava bêbado, tentava manter uma postura benevolente ao meu lado. Eu percebia a dificuldade dele e sentia vontade de protegê-lo. O comportamento de proteção eu mantenho até hoje. Se eu gostar de você, pode ter certeza que eu tentarei de proteger de qualquer coisa.

Quem olha a vida do meu avô, pensa que foi um desperdício de tempo, mas eu não. Se não fosse o amor que ele me deu quando eu era criança, eu não teria essa força toda para me manter viva. Eu não lutaria tanto contra o transtorno borderline. E, mesmo distantes, o amor que ele sentia por mim nunca diminuiu. E nem o meu por ele, inclusive, até hoje. Agora eu entendo quando dizem que ele ainda está vivo na minha mente. Eu ainda o amo mesmo ele não estando mais aqui. Eu sou a continuação dele de certa forma. E eu tenho a chance de escrever uma história melhor graças a ele. Então, sim, a vida dele valeu a pena. Ele fez o melhor que podia com o que ele tinha. E eu tenho muito orgulho de dizer que ele era meu avô. 

Eu jamais fechei os olhos para os erros dele. São muitos, são terríveis, mas ele pagou o preço e ninguém pode julgar. Até hoje, eu vejo nos olhos da minha avó o quanto ela ainda o ama, mesmo depois de tudo o que aconteceu, mesmo depois de tudo o que meu avô disse e fez a ela. Ele era especial. O que acabou com ele, foi o vício, mas desconfio que havia algo além do vício, aquela escuridão no olhar. A mesma escuridão que eu tenho hoje. O borderline. Meu avô era tão instável quanto eu sou hoje, mas naquela época, quem diagnosticaria isso? 

Sem saber, ele me ensinou as lições mais importante da minha vida, mas, infelizmente, não pôde estar presente nos momentos em que eu mais precisava dele. Depois que ele decidiu sair de casa, outras pessoas quiseram controlar minha vida, minando a minha individualidade, não dando espaço para desenvolver minha identidade, destruindo pouco a pouco quem eu era, e aqui estou eu, perdida, despedaçada... É isso que eu não consigo aceitar. A morte do meu avô só tornou tudo isso real. De repente, não haveria mais ele para ajudar a me curar, não haveria mais a chance de escutar um conselho, quem sabe, ou simplesmente aquele abraço terapêutico de avô... A morte tornou minha "loucura" real. Eu me senti condenada para sempre.

4 comentários:

  1. Que lindo ver você falando sobre essas coisas. Lindo e intenso porque sei um pouquinho dessa história e fico imaginando como você tem lidado com tudo isso.
    Me identifiquei com algumas partes do texto... principalmente pelo medo de esquecer...
    Você sabe, eu tive três experiências com a morte, mas a primeira é a que mais doeu (e ainda dói, inaceitavelmente, todos os dias). Não sei se por ser a primeira, não sei se porque perdi uma pessoa que nunca imaginei viver sem... (na verdade, por mais que passamos por isso, nunca pensamos perder alguém, nunca estamos preparados para isso.) mas eu tive um medo perturbador de esquecê-lo, tanto que tatuei o nome dele em meu corpo para que eu pudesse lembrar todos os dias... e lembro. Não só pela tatoo, mas até a forma como as nuvens se posicionam no céu me fazem lembrar...
    Queria voltar escrever, eu fiz um blog inteiro dedicado a ele, mas não amenizou a ausência e a saudade que eu sinto sempre, mas hoje, cada palavra fica entalada na garganta ou presa nas pontas dos dedos... tem dias que posso falar dele sem marejar os olhos e em outros, o simples fato de acordar, respirar, me faz querer voltar no tempo só para poder estar diante daqueles olhos, nem que fosse por um minuto...
    Acho que a vida é isso, uns mais que outros, aprendem a lidar com a ausência, dia sim, dia não... porque a sentença da morte é eterna e tudo o que fica é um amontoado de palavras buscando explicação para o que sentimos.

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    1. Obrigada pelo comentário, amiga! A morte é algo complicado de digerir mesmo. Eu estou fazendo esses escritos para tentar viver com um pouco mais de paz.

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  2. Michele, adorei o seu texto e a sinceridade em cada frase.
    Gratidão por compartilhar.
    Abraço

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    1. Obrigada você por ler e comentar por aqui! Adoro suas visitas também! Abraços

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