quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sobre outra crise e automutilação


Passaram-se apenas dez dias entre uma crise e outra. Dez dias do calendário. Mas, para mim, o tempo não havia passado, tudo estava confuso, nublado, como se essa crise, na verdade, fosse a continuação da outra, ou quem sabe, a crise não tivesse acabado. De qualquer forma, no meio tempo, nesses dez dias que pareceram horas, minutos ou segundos - eu não faço ideia! - eu vivi mergulhada nas profundezas de um mar de sentimentos conflitantes e extremos entre a tristeza, a mania, a paranoia, o abandono e rejeição imaginários e todas as outras emoções que eu nem sei nomear. 

Eu não lembro mais o motivo pelo qual começou a primeira crise, tudo o que havia sobrado eram pistas. Uma postagem nesse blog que me indicava que era alguma briga relativa ao meu relacionamento amoroso e as dezenas de cicatrizes nas minhas pernas e braços. Eu fiz aquilo? Sim, eu me lembrava de ter feito algo parecido, mas não sabia porquê ou como. Foi um estilete? Uma lâmina? Uma tesoura? Uma faca? Eu fazia tanto esforço para lembrar que, de repente, a minha cabeça começou a doer. Eu me deparei com a triste sensação de não conseguir lembrar de maneira alguma. A angústia tomou conta de mim. Como eu não conseguia lembrar algo que eu mesma havia feito?! Mas poderia ficar pior... Sempre pode. Eu não me lembrava do que eu havia dito. Eu nunca lembro. E sempre são coisas que machucam. Não é o que sinto, nem o que eu acredito, são apenas palavras soltas, jogadas ao vento, ditas por um ser humano transformado por uma doença, uma pessoa selvagem que precisa se defender tal qual um animal que se sente ameaçado. Eu reajo por instinto, um instinto agressivo, automático, predatório. Meu cérebro apenas dispara palavras de defesa, ofensas, acusações infundadas, frases aleatórias que apenas expurgam a dor emocional, como se eu tivesse sido atingida por um tiro ou por um golpe de uma faca. A dor é real. 

Dez dias depois, talvez por alguma falta de cuidado da minha parte, ou quem sabe, eu tenha exigido demais de mim mesma me forçando a fazer algo que meu cérebro ainda não estava preparado, lá estava eu na mesma sucessão de eventos. Eu tinha um discurso preparado, mas o borderline criou outro no exato momento em que as emoções entraram no circuito. A ansiedade, o medo da rejeição e a sensação de ser um fracasso completo me transformaram, e por mais que eu tentasse escapar dos jogos da minha mente já alterada pela doença, mais eu me afundava em distorções e comportamentos incontroláveis. A crise era inevitável. De repente, o caos. Eu caí no buraco negro e o que me resta são pedaços do tempo. Algumas memórias soltas. Eu lembro da raiva ter saltada de algum lugar dentro de mim tão abruptamente que eu acreditava, literalmente, que, se não gritasse com a outra pessoa ao telefone, eu poderia explodir. Eu não queria gritar, eu queria falar educadamente, mas meu cérebro saiu na minha frente, e parecia só saber se expressar dessa forma. Todas as ferramentas da terapia pareciam esquecidas em algum porão. E eu? Eu me recordo de algumas cenas, como se observasse um sonho. Eu grito, depois choro compulsivamente, derrubo objetos no chão, jogo objetos na parede. E quando eu menos espero, "acordo" com o pior cenário possível: um mini cenário de destruição, pingos de sangue pela casa e meu braço com um enorme corte que eu não sei como eu fui capaz de fazer. 

Eu já vi esse filme diversas vezes, mas, nesse dia, o desfecho estava um pouco mais trágico, eu estive um passo mais perto da morte. Eu sabia que, em breve, sentiria dor. Levantei, arrumei os objetos, limpei o chão, e me recompus. Quem eu era? Por que isso acontecia comigo? Porque eu não conseguia ter uma simples discussão? Eu não sabia responder a nada disso. Eu ainda não sei. Tudo o que eu soube foi o tamanho da dor física que eu senti quando a água quente caiu sobre o meu braço. E depois a dor emocional quando questionada se eu fiz isso para chamar atenção. Sei que não me perguntaram por mal, mas só eu sei o peso do estigma que isso carrega. Não, eu não carrego essas marcas porque eu goste de chamar atenção e acredito que tenha ficado claro nesse texto. Foi por isso que eu o escrevi. Não estava tentando chamar a atenção, afinal a pessoa nem estava ali. Eu nem mesmo estava "consciente" no sentido de ser eu mesma. Automutilação é um sintoma grave. Significa que alguém está sofrendo e não sabe como expressar. É uma forma que o cérebro encontrou de expressar. É isso. E se você ver essas marcas em mim pode ter certeza que meu cérebro teve apenas dois motivos para fazer isso: a) sentir que existe um "eu" aqui dentro ou b) me trazer de volta a realidade. Em ambos os casos, é inevitável e eu não me lembro. 


O trecho abaixo foi retirado e traduzido (por mim) do livro Understanding and Treating Borderline Personality Disorder do Dr. John G. Gunderson e Dr. Perry D. Hoffman: 



"A automutilação é um comportamento extremamente privativo; muitas vezes ele é negado e escondido. As pessoas que se machucam frequentemente estão profundamente envergonhadas por isso."
 
Mesmo assim, as outras pessoas se sentem manipuladas pela automutilação, e isso requer atenção. É importante distinguir entre causa e efeito. Suyemoto (1998) escreveu que pessoas que ferem a si mesmas se sente tão sobrecarregadas por suas emoções que ficam inconscientes do efeito que tem sobre os outros.(...). A seguir estão as funções da automutilação que são mais reportadas pelos pacientes: 

1. Regulação das emoções: automutilação sem intenção suicida faz com que a pessoa se sinta melhor ao reduzir a tensão emocional, que geralmente é experimentada como extrema aflição, raiva, culpa ou vergonha (Favazza e Conterio 1989)

2. Distração: ferir a si mesmo também é usado como distração da dor emocional. De maneira similar a bulimia, que tem todos seus modos e mecanismos, episódios de automutilação podem absorver muito da pessoa. Como resultado, a automutilação se torna uma atividade engajadora e que muitas vezes serve como distração das emoções e eventos angustiantes. 

3. Autopunição: Gunderson e Ridolfi (2001) descobriram através de sua experiência clínica que o ato do paciente cortar a si mesmo, na maioria das vezes, tem como função a autopunição, "promovendo alívio do estado intolerável e pouco articulado envolvendo intensa vergonha, remorso e crenças de maldade e alienação"

4. Prova concreta do sofrimento emocional: (...) É difícil para essas pessoas acreditar o quão terrível eles se sentem sem uma evidência visível. Lineham (1993) descreveu o processo de auto invalidação que ocorre no TPB (borderline), em que esses indivíduos acreditam que estão exagerando ou não existe razão para se sentirem como se sentem, ou, ainda, que não deveriam se sentir assim. Então, uma cicatriz ou hematoma é uma evidência concreta de seu estado emocional.

5. Esforço para se controlar: indivíduos com TPB tem grande dificuldade em regular a emoção e por isso ás vezes se sentem fora de controle. Para sentir que estão no controle dos eventos e emoções, eles se ferem. Ao machucar a si mesmos, eles sentem que estão tomando o controle de comportamentos fora de controle de outros ou de eventos externo que causaram suas aflições (Favazza, 19889).

6. Alívio do entorpecimento e despersonalização. Favazza (1989) chama essa função de "retorno a realidade". Muitos indivíduos com TPB experimentam muitos sentimentos angustiantes em resposta a eventos, interações ou emoções estressantes. Esses sentimentos podem ser difíceis de lidar e levam a pessoa a sentir-se emocionalmente sobrecarregada. É muito doloroso permanecer nesse estado, e como resultado os pacientes podem entrar no estado de entorpecimento e despersonalização. Contudo, esse estado também é desconcertante e difícil de sair. A automutilação é um dos poucos comportamentos que ajudam a aliviar esse entorpecimento.

7. Ventilação da raiva: Agir sobre sentimentos de fúria através da automutilação parece mais seguro e produz menos culpa do que expressar a raiva em cima das outras pessoas. 

(..) as funções mais reportadas por pacientes são: sentir uma dor concreta em vez do excesso de dor emocional (59%), infligir auto punição (49%), reduzir ansiedade e sentimentos de desespero (39%), sentir-se no controle (22%), expressar raiva (22%), sentir algo quando está entorpecido (20%), pedir a ajuda de outros (17%) e fugir de memórias ruins (15%).


2 comentários:

  1. Oi de novo, Michele.

    Vou sempre lendo o que você escreve e isso me dá alguma ideia de como você está, mas, como você mesma já disse, tem emoções meio instáveis, então vou sempre perguntar: como você anda?

    Gostei muito desse post, acho que foi tão interessante que me fez até "criar coragem" pra vir digitar.

    Então, essa coisa de ferir a si mesmo por algum motivo me acompanha há tanto tempo que, quando eu era criança, nem me dava conta. É uma coisa que me dá muita vergonha e até atrapalha minha quase inexistente vida social pois não gosto que ninguém repare.

    Enfim, tenho o hábito incontrolável de roer minhas unhas, mas não só roer um pouco, eu faço isso até sangrar a ponta dos meus dedos. Todas as unhas das minhas mãos são assim, mas há dois dedos em específico que simplesmente quase não possuem unhas, não consigo deixar crescer. É difícil explicar, mas quando consigo arrancar os pedaços mais profundos delas e sinto aquela dor, que vai dos pulsos até as pontas dos dedos, parece que me distraio, é como se pudesse me concentrar na dor física ao invés da emocional, mais ou menos como o item 2 da lista. Já li por aí que o hábito de roer unhas não se encaixa como automutilação, mas um dos meus psiquiatras disse que o que faço vai bem além do simples hábito de roer unha por pequenas ansiedades, eu gosto de sentir uma dor aguda bem específica em locais específicos. Os psicólogos, quando veem meus dedos (os anulares principalmente, só têm carne) ficam chocados ao saberem que ainda dou um jeito de fazer sair sangue dali, já ouvi milhares de vezes a expressão "ansiedade generalizada" só mostrando a minha mão. É estranho, mas é uma dor que alivia, só quem tem isso sabe como é.

    Digo que é estranho pois dor é dor, quem gosta de sentir dor? Não parece natural. E mais, por que esse tipo de dor pra mim é boa e outras não me fazem "bem"?

    Agora acho interessante o seu caso: não saber exatamente como as coisas aconteceram. Quando eu paro pra pensar na minha mania, às vezes não consigo me lembrar pois me confundo entre fazer o que faço pela simples ansiedade e fazer o que faço nos dias que estou me sentindo um lixo completo e vou ficar mexendo nas feridas por horas até me acalmar um pouco. Nesse último caso, não perco nenhuma parte da minha memória ou fico sem saber ao certo como foi aquilo como me parece ser o seu caso. Que coisa não? Ficar sem saber exatamente (ou mais ou menos) os motivos de colocar toda essa ansiedade e/ou raiva pra fora deve ser meio angustiante. Acho que empatia nenhuma poderia me fazer entender direito o sentimento, a não ser o simples fato de ser incompreendido.

    Dias melhores para nós, Michele. Se cuida.

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    1. Oi Skull muito bom ver você por aqui! Ainda não estou melhor, mas sei que em breve tudo isso ira passar... Realmente o hábito de roer as unhas até sangrar pode ser considerado automutilaçáo sim, esse e vários outros comportamentos como se bater ou arrancar os cabelos até ferir ou pedaços da pele, se coçar até sangrar, é um comportamento bastante abrangente, eu mesma não sabia que todas essas coisas poderiam acontecer com as pessoas... Acho intrigante como o cérebro cria esse tipo de "soluçao" para externar o sofrimento... E como a dor emocional pode ser tão grande que se sobressai a dor fisica... Eu gostaria de me lembrar de tudo o que faço, apesar de ter uma ideia do motivo, é ruim ficar com falhas de memoria, é como se faltasse um pedaço da minha identidade que já náo é estável.Complicado isso tudo que sentimos e passamos, né? Obrigada por ter vindo aqui compartilhar! Se cuide também!

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