quinta-feira, 30 de junho de 2016

Vulnerável e agradecida


Vulnerável: Que tende a ser magoado, danificado ou derrotado; frágil. Que pode ser ferido por; destruído (Definição do dicionário) 

Todos nós estamos ou ficaremos vulneráveis em algum nível, uns mais, outros menos. Isso é um fato da vida. Ter tomado a decisão de escrever sobre meus sentimentos aqui me deixa bastante vulnerável, afinal eu estou exposta. Eu não escondi meu rosto e nem meu nome, essa sou eu de verdade, nos dias bons e, principalmente nos dias ruins. Eu escolhi fazer isso acreditando, primeiramente, que eu estava fazendo um trabalho terapêutico em relação a minha depressão. Mas todos aqueles sintomas confusos e difíceis não eram apenas a depressão, eram muito mais profundos e complexos. Eles tinham um nome mais complicado: transtorno da personalidade borderline e então, escrever aqui ganhou outro significado. 

Eu descobri que abrir para o mundo meu diagnóstico, como outras garotas já fizeram antes de mim, não era uma tarefa fácil, nem leve, que talvez eu fosse julgada. Eu senti o enorme peso do estigma, do preconceito e da falta de informação em torno do assunto e foi exatamente por todas essas coisas que eu decidi continuar escrevendo e compartilhando tudo que aconteceu comigo. Eu sempre soube que havia algo diferente comigo, muito além de uma depressão. Toda aquela falta de identidade, aqueles apagões de memória, a falta de habilidade em lidar com as pessoas e as emoções extremas que sempre me acompanharam não poderiam ser somente um "jeitinho de ser", tudo isso sempre me fez sofrer e fazer outros sofrerem junto comigo. Eu jamais me isentei de culpa, aliás eu carrego comigo uma culpa maior do que eu deveria, afinal eu não pedi para ter isso. 

Boa parte da minha vida foi uma busca para responder a pergunta: "O que há de errado comigo?" e finalmente quando os psiquiatras puderam ter certeza de que era isso, eu respirei aliviada porque tem conserto, desde que eu me esforce e queira melhorar. Eu quero, eu sempre quis. Sempre foi a minha maior vontade ter uma vida mais equilibrada para poder ajudar melhor as pessoas a minha volta e me sentir bem comigo mesma. 

Eu continuo escrevendo aqui porque recebo muitos e-mails e comentários de pessoas que sentem-se beneficiadas, validadas e que dizem que eu consigo expressar o que elas não conseguem. Isso significa muito para mim porque significa muito para elas. Eu contribuo de alguma forma e isso é tudo que eu sempre quis na minha vida. A minha intenção, além de expressar meus sentimentos, é educar sobre um transtorno muito comum, porém desconhecido. As pessoas precisam saber que essa doença é uma doença e não uma invenção. Existem pesquisas, existem provas e mais provas que mostram alterações no funcionamento cerebral, livros e mais livros que falam sobre isso, porém, a informação está dispersa, não traduzida, não é de fácil acesso. Eu não tenho a pretensão de ser a salvadora de nada, mas o que eu puder trazer de informação, já que tenho a doença, sou uma paciente, e tenho acesso a essas informações, eu trago. 

Eu já falei e volto a repetir, não sou um exemplo, não pretendo ser, sou cheia de defeitos, erros, mas também tenho qualidades, acertos, enfim, uma história de vida. E é isso que eu quero mostrar aqui. A doença é uma limitação sim, mas ela não me define. Sou mais do que meu transtorno. Eu não sou borderline, eu tenho borderline. Não tenho orgulho de falar isso, eu falo SOBRE isso porque é uma forma de mostrar que não existe nenhum tabu ou o que temer. Eu sou um ser humano com uma dificuldade, mas, apesar disso, sou igual a qualquer outra pessoa. 

Meu objetivo é mostrar que existe esperança, tratamento, explicação para cada comportamento, sintoma, e que não, você não é "louco", você tem uma doença muito estudada por psiquiatras, cientistas, homens e mulheres ao redor do mundo que se dedicam a estudar e procurar entender e encontrar respostas para diminuir seu sofrimento. Meu objetivo é trazer um pouco de esclarecimento e eu espero estar conseguindo fazer isso. 

E no meio de tudo isso eu fico muito vulnerável, sou ferida, ofendida, e tudo bem, eu acho que vale a pena pagar esse preço todas as vezes que recebo os e-mails e comentários positivos de vocês. Por muito tempo eu acreditei que as pessoas deveriam ter vidas somente felizes, mas isso não é possível. A vida é feita de dualidades: positivo e negativo, por isso, ser ferido faz parte e eu também já feri algumas pessoas por aí, e sinto muito por isso. Ser ferido é parte da experiência de vida e, hoje, eu percebo que me impulsiona a seguir em frente. No começo, dói e dá vontade de desistir de tudo, mas eu paro por um momento, respiro, deixo meus amigos me ajudarem, e percebo que a dor vai passar, tudo no seu tempo. Tudo que preciso é de tempo para respirar, deixar a ferida cicatrizar. No final, tudo que vai restar é uma marca e eu poderei seguir em frente, tentar outra vez ou tentar algo novo. Nesse caso, eu voltei a escrever. 

Eu fiquei uma semana para escrever esse texto, eu reescrevi mais de quinze vezes, e eu só consigo resumi-lo com um muito obrigado por todas as mensagens positivas que vocês me enviaram, pois, elas significaram tanto para mim que eu estou aqui, mesmo que vocês nem soubessem (porque eu não falei) que eu estava prestes a desistir de muitas coisas, inclusive escrever...
 

7 comentários:

  1. Excelente blog! Você escreve muito bem! Por favor, não desista. Voce fala o que está no coração de muitas de nós. E nos ajuda muito.

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  2. Obrigada por estar aqui. Não desista. Eu também estou.

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    1. Brenda querida, você sabe, suas mensagens estão guardadas no meu coração e me impulsionam a continuar. Eu que te agradeço =)

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    2. Michele muito sensato texto.
      Todos os dias peço muito a Deus pra ajudar pessoas que sofrem de diversas maneiras.
      Passei toda minha infância , adoslecencia e fase adulta sofrendo de depressão ....me fez muito mal e engessou me.
      Porém hj desfruto de vida nova e através do que vivi posso ouvir,da o ombro amigo.
      Olha siga avante,estamos nesta juntos....de coração amo vcs.

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  3. Por favor, visite...

    http://blackout-word.blogspot.com.br/

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  4. Você no brasil eu aqui tão longe em portugal mas o mesmo sentimento. Podia ser eu a escrever essas palavras. Bora lá Michele, vamos pôr o borderline no seu lugar!

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