sexta-feira, 22 de julho de 2016

Desistir para encontrar





O vazio persiste. Algumas crises vieram. A perturbação de identidade se mantém constante. Em um momento eu sei exatamente quem eu sou, no minuto seguinte eu não sei nem se eu sou um ser humano. Em um minuto eu gosto de quem eu vejo no espelho, minutos depois eu penso em retalhar todo o meu rosto. Em uma hora eu penso que a vida é boa, horas depois (dependendo do que me disseram) eu penso que a morte é a única saída honrosa. Se isso não for mesmo um transtorno mental (como me acusaram de estar "fingindo"), eu não sei mais o que é. 

Longos dias sem escrever aqui, sem escrever em meus cadernos, apenas remoendo comentários, julgamentos, preconceitos, estigmas, a minha falta de identidade, minhas crises, meu vazio, minha vida e decidindo qual era o melhor momento de desistir de tudo. Eu não me considerava mais um ser humano, eu não queria mais me expor. Tudo estava se tornando confuso, complicado e eu estava fadada a apagar a minha luz. Foi aí que eu percebi: eu tenho uma luz.

Eu posso não ter certeza de quem eu sou, quais partes de mim são genuínas e não apenas cópias ou adaptações de outras pessoas, mas existe sim uma luz que vem lá do inconsciente. Uma luz que me guia na escuridão da vida. Algo que me faz seguir em frente: a escrita. Eu escrevo desde os oito anos. Isso é meu, eu não peguei de ninguém. Um sorriso de verdade aparece no meu rosto quando eu escrevo, uma força se constrói quando eu me sento para construir essas frases ou as histórias que tenho guardadas comigo. Apesar de eu nunca ter publicado nada, eu tenho inúmeras personagens e histórias que vivem dentro da minha mente, esperando para, um dia, serem apresentadas ao público. O que me falta é coragem, e menos borderline. E foi exatamente por causa disso que eu fui procurar tratamento. 

Sem saber quem eu sou, sem saber ao menos se eu sou um ser humano, eu não tenho a referência suficiente, a força motivadora para publicar histórias, para seguir em frente em uma vida social. Simplesmente não tenho, pois, para isso, eu teria de lidar com julgamentos, e eu ainda não sou tão forte, o borderline sempre me derruba. Para isso eu faço tratamento. Esses dias que estive longe, eu estive lidando com coisas assim: julgamentos. E foi através deles e do meu terapeuta que eu pude afinal ver uma parte de mim, genuína, eu escrevo. Eu sou uma escritora. Eu sempre gostei e exerci a escrita, mesmo que fosse em guardanapos. E ter descoberto uma parte de mim foi extremamente revelador porque isso significa, meus amigos, que, sim, existe um "eu", e eu sou um ser humano. 

Mas que tipo de ser humano eu sou? Além de escrever o que mais eu faço? Quem eu sou? Quais são minhas características? Eu ainda não sei responder nada disso. Pode parecer óbvio para qualquer um que escrever é uma parte de mim, mas, dentro de mim, eu sempre vi bagunça, vazio, e mais bagunça, tudo que está espelhado dentro de mim é uma imagem de outras pessoas. Eu nunca havia tido essa certeza de que escrever era meu, algo que eu gostava de fazer porque simplesmente eu gostava e não porque alguém me impôs. Somente quando eu tomei a decisão de desistir de escrever (esse tempo que fiquei fora era isso, eu havia desistido) foi que minha mente me mostrou que eu não tinha essa opção pois escrever era meu, algo genuíno, minha força motivadora e, só agora percebo, que, comicamente, ter tomado a decisão de desistir foi o que me trouxe, através de "linhas tortas", ao caminho de encontro a mim mesma.

4 comentários:

  1. Muito bom Michele!!!!! você parece que escreveu sobre mim, obrigada por saber que não sou a única, embora nas crises seja dificil,. PARABÉNS!!!!!

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  2. Colocando em palavras tudo o que sentimos!! Belo texto!

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  3. Mais ou menos o que aconteceu comigo. Mas me encontrei e voltei a escrever. E por experiência própria: Nunca desista !!!

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