segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Sobre ser efetivo e estar resistente




O que significa a palavra eficaz? Segundo o dicionário, aquilo que produz o efeito esperado, que dá resultado, remédio eficaz. Quando dei inicio a terapia comportamental dialética, "efetivo", "eficaz", foram as palavras que eu mais ouvi - e ainda ouço. Não é a minha intenção desprestigiar a terapia, eu sei que ela funciona com 90% das pessoas com transtorno da personalidade borderline e é a melhor opção de tratamento, porém não é o único. A minha intenção com esse texto é apenas desabafar alguns sentimentos. Só isso.

Eu vivo escutando "isso não é eficaz", "isso é muito eficaz", "temos que encontrar algo que seja mais efetivo", e na minha cabeça ficam girando as palavras "efetivo" e "eficaz" o tempo inteiro. Para quem não sabe, a terapia comportamental dialética é composta de diversas práticas e comportamentos que temos que aprender, basicamente prática e repetição, atenção plena e foco nas relações interpessoais, mas não se restringe a isso. Eu praticamente decorei todo o manual em relação a terapia, sei todas as siglas, sei o que eu tenho que fazer em caso de crises, em caso de tristeza, em caso de sensação de despersonalização, etc, etc, porém, o que ocorre é que, de repente, meu cérebro parece completamente adaptado e acomodado, como se nada disso fizesse mais nenhum sentido. E, exatamente por isso, toda aquela visão de eu estar em "recuperação" pode estar ameaçada, pois diversos mecanismos de defesa antigos foram acionados e novos estão se instalando. Infelizmente, eu ainda continuo muito impulsiva, e se eu não estou bebendo, estarei fazendo qualquer outro comportamento destrutivo, mais uma vez (e parece que nem meu terapeuta entende isso), o problema não é o comportamento e sim o gatilho, o que há por trás do comportamento, pois sempre uma coisa é substituída pela outra e eu nunca entendo o porquê, mas sei que é algo mais profundo. 

A verdade é que eu estou profundamente decepcionada comigo mesma por toda essa terapia não estar funcionando comigo. Eu tento, eu faço tudo o que os livros, o manual e o terapeuta pedem, e, mesmo assim, não é suficiente. É como se meu cérebro, após um tempo, se adaptasse e precisasse de algo novo, porque já sabe como esse funciona. Eu não consigo compreender o porquê de não estar funcionando e acredito que é por isso que acabo entrando em um circulo vicioso de ficar anda mais deprimida e afundando em mais comportamentos autodestrutivos. Eu perco o controle dos meus sentimentos quando percebo que algo pelo qual eu lutei tanto e coloquei tanta expectativa não esta dando resultado, ou seja, não esta sendo nenhum pouco eficaz. Talvez esse seja o problema. Eu sofro muito por toda essa terapia não ser mais funcional, por não terem mais nenhum efeito, porque é como se houvesse um defeito muito grande em mim, afinal a impressão que eu tenho é que todos os pacientes dele estão indo bem, seguindo suas vidas, menos eu. Eu empaquei, com um cérebro cheio de sofrimento e confusão, e sem saber para onde ir. 

Talvez algumas pessoas pensem que eu esteja resistente ao tratamento, que eu não queira colaborar, mas eu juro que eu faço tudo e mais um pouco. Eu me esforço para compreender o que eu tenho, eu me informo, leio livros, histórias de superação, converso com pessoas que passam por isso de outros países, pratico todas as habilidades e dicas que o terapeuta ensina, eu realmente não sei aonde estou errando, mas eu fico muito decepcionada por, após mais de 1 ano, ainda estar lutando contra a impulsividade, pensamentos suicidas e comportamentos autodestrutivos (e muito mais). 

Mas eu não posso dizer de forma nenhuma que eu sou uma fracassada. Eu tentei. Eu tentei pela quinta vez. Eu busquei tratamento com um especialista, eu sigo todas as dicas, porém meu cérebro tem individualidade, eu não deveria estar me comparando aos outros. Cada pessoa tem sua história de vida, sua genética e o próprio caminho de superação. Será que falta paciência para mim? Será que havia muita expectativa de que eu fosse me "curar" definitivamente - e logo - com essa terapia? Afinal, qual era o efeito esperado de mim? Será que meu terapeuta realmente deveria esperar algo? Muitas perguntas se passam pela minha mente, e eu não tenho a resposta. Eu me sinto culpada, uma péssima pessoa, amiga, namorada, filha e, principalmente, paciente. Meu cérebro, mais uma vez, me leva ao isolamento porque assim eu não me sinto tão sobrecarregada emocionalmente e não magoo ninguém

Eu sei que eu fui o mais longe que eu nunca fui com tudo isso. Não foi completamente perdido, eu aprendi muitas coisas, como viver no presente, enfrentar os meus medos e falar o que eu sinto de uma forma mais branda para as pessoas a minha volta. Eu não quero desistir, mas também não quero me sentir como se eu estivesse caminhando para lugar algum...

2 comentários:

  1. Michelle, você é mais intensa e visceral do que outras pessoas e isso acontece inclusive ao cobrar-se demasiadamente. Exija o crescimento, mas nada é instantâneo.
    Não desista. Você não está, sim, indo a um lugar, só que a pressa te desespera, mais do que desespera pessoas que não têm o que você tem. Tenha em mente que sua intensidade busca intensidade em tudo, inclusive resultados instantâneos que não acontece com ninguém...

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  2. Continue tentando, pois cada vez que você avança numa forma de conviver com a doença melhor que a de dias atrás pode com isso ajudar outras pessoas. Precisamos de mais provas nesse mundo de gente que consegue sim conviver com toda essa oscilação muito mais no 80 (topo) que no 8(poço).

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