terça-feira, 6 de setembro de 2016

Uma carta desabafo


Para alguém que disse que eu sempre procurei alguém para culpar e que o borderline é a doença certa para me intitular. Obrigada , você me ajudou a libertar alguns sentimentos ruins presos.

*Alerta: gatilhos para raiva, tristeza e ironia.*
 
Caso você me conheça, que engraçado, eu lembro de algumas vezes ter procurado alguém para culpar sim, assim como você deve ter feito, assim como todas as pessoas normais fazem, e, se, por acaso você nunca fez, considere procurar um psiquiatra, você deveria conversar sobre essa repressão tão profunda. Eu não tenho medo de me expor, muito menos de admitir os meus erros, mas, menos ainda de admitir a minha doença e eu realmente não me importo se você a) não acredita que seja uma doença ou b) não acredita que eu tenha essa doença.

Você não está dentro de mim para saber como eu me sinto todos os dias, vinte e quatro por dias, 365 ou 366 dias por anos, então, como pode emitir um julgamento tão preciso sobre mim? Se você me conhece eu posso ter te magoado. Verdade. Eu magoei muita gente por causa da minha instabilidade emocional, das minhas alucinações e delírios, impulsos, paranoia, e, todos os sintomas que vem junto com o transtorno borderline, eu sinto muito por isso, de verdade - se você for alguém que eu conheci. Mas a vida é assim. Nós ferimos uns aos outros o tempo todo e tenho certeza que eu fui tão ferida quanto você, nem mais, nem menos. 

Ao contrário do que você imagina eu não procuro alguém para apontar "você é o culpado", apesar de ás vezes eu o fazer. Não. Porque eu, no fundo, me sinto a culpada por tudo, até mesmo por abusos psicológicos, verbais, físicos e sexuais que eu sofri quando eu era apenas uma criança. Me diga, Anônimo, como uma criança permite todas essas coisas? Claro, só pode ter sido culpa minha, eu provoquei todo aquele horror. Ou talvez eu esteja exagerando e nada daquilo aconteceu. Nem foi tão grave. As marcas, a confusão mental, a baixa autoestima, o borderline. Nada disso existe, está apenas na minha cabeça, não é mesmo? 

Você quer uma confissão de que eu sou a vilã? Assim você se sente melhor? Ok, por mim, é assim que eu me sinto, eu não tenho vergonha agora, ao contrário de você, que deve sustentar uma vida de sorrisos, "sou forte" e aposto que seu Instagram é cheio de "selfies", mas bem no fundo, mesmo que você não saiba, você é tão vazio (a) do que eu. Eu sou mesmo a vilã. Está vendo? Sou cheia de raiva, tristeza profunda, ansiedade, vazio tremendo e meu dia é cheio de sentimentos que variam de uma felicidade desesperada até uma crise de choro sem sentido. Mas eu me autointitulo borderline.

Talvez suas dores sejam maiores que a minha, talvez você tenha uma doença física, tenha perdido alguém, ou sei lá, mas ei, eu nunca entro em competição em relação a isso. Cada pessoa sente a dor de determinada forma. Sua dor não é maior que a minha, a minha dor não é maior que a sua. Cada dor é dolorosa em si mesma, na pessoa a qual pertence, no universo que lhe cabe. Eu não julgo. Eu não meço. Eu não sou aquela que diz que "existem pessoas em situações piores", eu sou a que diz "eu estou aqui, o que posso fazer para ajudar?", porque a comparação não ajuda, ela afunda. 

Ninguém gosta de estar doente, eu também não. Não é um orgulho ter borderline, nem mesmo ser vista como "louca". Eu não tenho tratamento especial, geralmente as pessoas querem distância de mim, eu sou mal interpretada, eu não tenho o mesmo direito que o seu de falar o que eu quero, e qualquer alteração de voz minha já é vista como "surto". Algumas pessoas escrevem sobre borderline como se fôssemos pessoas que só sabem culpar as outras, brigar e chamar atenção e por causa disso muita gente tem medo, preconceito e espalham estigma sobre nós. Parece bom para você? Eu não ia gostar de ter uma doença assim, mas eu tenho e no dia que meu psiquiatra confirmou, eu chorei por muitas horas, escondida no banheiro, assim como estão escondidas as marcas dos cortes e os hematomas de crise que eu nem lembro que aconteceram. Parece bom para você? 

Eu perdi amigos de anos por causa da instabilidade emocional, por causa dessas malditas crises, e, você quer saber, não existe um dia que eu não me sinta uma fracassada, mas, ao mesmo tempo, eu percebo que não existe um culpado. Eu aprendi duas coisas: neurociência e psiquiatria. Elas me ensinaram que eu nasci com uma alteração no funcionamento cerebral herdada do meu avô (quer você queira acreditar ou não) e, graças ao meu ambiente familiar disfuncional, o borderline foi "ativado" e validado com "louvor" pelos constantes traumas que sofri durante a vida. Isso me transformou em uma pessoa com uma doença mental, mas eu ainda sou uma pessoa. Uma pessoa com uma dificuldade. Não existe um culpado, existem pessoas que dificultaram o que já era difícil. 

Eu estou cansada. Estou cansada de todos esses julgamentos sobre o que eu deveria fazer ou deveria ter feito ou sobre como eu deveria me sentir. Eu faço o que eu posso e me sinto como eu me sinto. É assim. Com todas as pessoas é assim. Ninguém deveria exigir nada mais. Ninguém deveria exigir nada. Eu não deveria ter lido o que você escreveu, você não deveria ter escrito um julgamento. E a empatia deveria ser mais exercida.


7 comentários:

  1. Se meu comentário longo q gastei tempo p escrever não foi. O resumo é esse: Estou ORGULHOSA de ver seu crescimento em coragem e sinceridade. De se posicionar pra esses preconceituosos q nem se dão ao trabalho de pesquisar sobre doenças cerebrais. Eles cospem pra cima, um dia cai na testa. Te amo! De verdade! E orgulho mesmo!

    Bjs da Fran!

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    1. Fran, muito obrigada pelo apoio, demorei um tempo para decidir publicar esse texto, mas percebi que poderia ajudar outras pessoas também. =) Beijão

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    2. Eu publiquei no face essa postagem por conta do Setembro Amarelo. Lógico não te mencionei, ta?! Fico mto mto muuuito feiz q criou coragem �� bjs

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  2. Parabéns pela coragem de se expressar, realmente é muito difícil enfrentar julgamentos das pessoas, passo por isso com a depressão, ataques de pânico. Tem dias que prefiro ficar sozinha, pois não quero ouvir o mesmo. Comecei um blog agora para me expressar sobre o que sinto.

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  3. Muito enriquecedor ver todos os lados. Parabens

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  4. Parabéns por estar sendo forte e tentando descobrir um jeito de viver sem que o TPB detone mais ainda as coisas. Eu não estou encontrando o botão de seguir este blog, se você puder adicionar o botão de seguir na lateral do blog seria legal, para melhor acompanhamento das postagens.

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  5. Parabéns, sei exatamente como se sente,tenho transtorno de pânico e já fui e ainda sou julgada por isso, as pessoas geralmente não acreditam e rotulam mesmo,mas com certeza não suportariam metade dó que suportamos.

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