domingo, 30 de outubro de 2016

Desacreditada



  Créditos da foto: http://rodriguezcriado.com/depresion-posvacacional/

 
Alerta: o texto pode estar confuso, eu não estou bem para escrever, mas é sincero.

Imagine que você foi acusado de ter cometido um crime que você não cometeu. Você viu quem cometeu o crime, você estava no local e na hora do ocorrido, nenhuma prova aponta para você, mas você está lá, então, eles te prendem e te acusam. Todo mundo te julga. Parte das pessoas quer sua prisão, a outra parte quer a sua morte. Mas você sabe que não fez nada. E se as pessoas que te prenderam tivesse executado o trabalho delas, teriam colhido e analisado corretamente as provas e concluído que você realmente não fez nada. Mas não. Elas preferiam acreditar no que estavam vendo.  Então, você é preso. Todos os seus colegas na prisão dizem, entre piadas, que você é um grande culpado, que está fingindo ser inocente. Tudo isso se repete por meses, até que você começa a duvidar de si mesmo. Será que eu sou culpado? Será que eu cometi o crime? Você não sabe mais, mesmo que, no fundo, uma parte muito essencial de você viva sussurrando no seu ouvido que você não fez nada. Consegue imaginar? Como você se sentiria? 

Na verdade, é pior do que isso, mas não importa. Eu costumo dizer que esse transtorno tem um plano perfeito. Ele se infiltra na personalidade, simula ser eu mesma, quebrando minha identidade. Eu não quero perder o controle sobre o que eu sinto, mas não tenho opção, é ele (o transtorno) quem está no controle naquele momento. Tudo é muito rápido. Eu não quero gritar, mas grito. Eu não quero ser abusiva, mas sou. Eu não quero parecer instável, mas pareço. Eu quero pedir ajuda, mas eu afasto. Eu quero um abraço, mas eu sinto dor. Eu quero aproximação, mas eu empurro. É como se meu cérebro não me obedecesse, só ouvisse o transtorno. Parece uma abdução temporária. Mas essa explicação é pura bobagem. Ninguém acredita. O que eles veem sou eu falando, gritando, jogando coisas, chorando descontroladamente, falando coisas sem nexo, tendo alucinações. E depois ainda diz que não se lembra de tudo?! Qual será a próxima desculpa?... Eu pensaria o mesmo... Você vê a pessoa agir normalmente, vivendo a vida como todas as outras pessoas "normais", trabalhando, estudando, rindo, fazendo piadas, indo ao mercado, cozinhando, e, de repente, por causa de uma "coisinha a toa" o mundo vira de cabeça para baixo... Quem acreditaria na minha explicação? 

Essa é uma das maldições de viver no "meio". Estar entre a normalidade e a insanidade é mesmo uma maldição. Eu me sinto "marcada". A Coisa (o transtorno) chegou sem ser convidado na minha mente, e aos poucos se espalhou como um vírus, tomando conta da minha identidade. Um plano perfeito. Eu jamais sei quando ela vai tomar conta de tudo. É sempre uma surpresa. Tudo depende das emoções, e as emoções dependem do que está acontecendo ao meu redor. Isso me deixa naturalmente ansiosa e deprimida, eu jamais vivo a vida naturalmente ou normalmente, eu apenas me adaptei. Uma máscara. Como uma pessoa normal. Todos usamos máscaras. Não negue. Mas quando há uma perturbação no ambiente, quando alguém parece irritado, ansioso, estressado, com medo, triste, automaticamente, eu fico empática. Mais do que empatia, eu absorvo. Sem perceber, a Coisa liga algum botão dentro de mim e "surpresa!", lá vamos nós outra vez... 

Ás vezes, eu acho que a função da doença é me deixar sozinha... Mas eu não pedi por ela, eu não sei como ela chegou aqui, e não tenho como me livrar. Eu estou aprender a lidar. Todos os dias. Infelizmente, ela não é visível, acho que é por isso que ninguém acredita. Talvez, por isso, me enxerguem como apenas uma "louca" que mereça ser isolada e medicada apenas. Em um cenário que ninguém tem culpa da doença ter aparecido, eu me pergunto, que espécie de Natureza é essa que permite esses transtornos? E que espécie de sociedade é essa que continua isolando e não lidando com essas doenças? "É para o seu próprio bem". A frase sempre é dita antes de ser feito algo que irá danificar permanentemente o nosso autorrespeito. A doença me sussurra a mesma frase. Todas as vezes. 

(Agora podem dizer que estou me fazendo de vítima, procurando alguém para culpar, ou que na verdade, a culpa sempre foi minha... Outros podem escrever que eu sou mesmo uma pessoa má, como já escreveram, que eu jamais terei uma melhora porque pessoas como eu nunca mudam, ou que eu sou uma manipuladora e egoísta... De qualquer jeito, eu nunca vou me isentar de responsabilidade, eu sei o que eu cometi de erros, mas parece que não adianta fazer a minha defesa... Eu sou culpada se eu falar ou não... Até minha mente já decidiu isso).

Eu não sei como lidar com isso, não vou culpar as pessoas que também não sabem. Ninguém tem a obrigação. Eu ainda estou aprendendo. Mas a maldição dessa doença é que você fica entre uma coisa e outra, as pessoas não aceitam isso. Você funciona como uma pessoa "normal" a maior parte do tempo, então como pode mudar de repente? Não, isso não é possível! Você tem que agir como uma pessoa "normal". É só querer. Mas a doença é justamente essa mudança. Essa troca. Essa ilusão. E infelizmente, eu vou continuar presa por um crime que eu não cometi...Será que fui eu? Não sei mais...

4 comentários:

  1. Vc é forte, está sempre procurando entender o que ocorre para melhorar. Abraço e força ai!

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  2. Como eu disse,eu te entendo completamente. Eu precisava de uma pessoa q me entendesse como vc. Eu estou me espelhando em vc...na vedd acho q tô pirando.mas..bem eu espero que vc continue forte...que como vc mesmo disse vc tem sua família,seus amigos e seu namorado.Pensa neles.
    Você se sente bem escrevendo? Procura algo para fazer..algo que vc goste que consiga te distrair. Eu sei q é difícil. Pois do nada aquilo que nos acompanha,aquilo que está dentro de nós, que está preso,sai sem mais nem menos,sem avisar. E ninguém nunca nos entende. Como vc mesmo disse as pessoas acham que estamos nos fazendo de vítima. As vezes fazemos algo que não é de propósito, machucando quem nos ama. E quando mais precisamos as pessoas que mais queremos do nosso lado simplesmente somem. N nos entende. E acabamos nos perdendo desistindo ainda mais da vida. achando que estamos pirando e que não temos mais jeito. Mas...espero que não seja todas as pessoas a pensar assim. E que vc continue forte do jeito que está.

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  3. Uma boa sugestão de livro que foca o transtorno bipolar, mas, traz conselhos para quem tem transtornos de humor em geral é Duas faces de uma Vida de lana castle. vale a pena buscar comprar novo ou em sebos online. Apesar da parte técnica, traz por exemplo, dicas preciosas como a necessidade de primeiro a gente focar nas necessidades básicas na vida para depois ir construindo tijolo a tijolo a pirâmide da nossa satisfação social. A própria autora passou pelo transtorno bipolar e dá dicas valiosas. também to querendo arrumar um money pra adquirir a revista mente e cérebro recente que fala que exercícios físicos cientificamente estão tendo um papel fundamental na cura da depressão. força aí pessoal. Conhecimento é tudo.

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    1. Obrigada pela dica do livro, vou colocar na minha listas de próximas leituras! =)
      Quantos aos exercícios físicos, sim existem muitas pesquisas atuais que comprovam isso, mas como diz meu terapeuta/psiquiatra, não precisamos esperar a comprovação de algumas coisas (desde que não sejam prejudiciais a nossa saúde ou causem dor). Se te faz bem fazer exercícios físicos e você não tem nenhuma restrição física (hérnia de disco, etc), faça, qualquer atividade, prática que faça você se sentir bem, auxilia a sua saúde mental! Abraços

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