quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Intolerância


Eu tenho 30 anos. Eu vivi boa parte da minha vida tentando me encaixar. Eu sempre tentava fazer o que as pessoas queriam, mesmo que fosse o contrário do que eu desejava, acreditasse ou pensasse. Eu não levava em consideração nada que fosse relevante a mim, eu priorizava totalmente o outro. Hoje em dia não é mais assim. Eu aprendi o que é o amor próprio, auto respeito, limites, valores e que se eu quero algo, eu devo lutar por isso, respeitando os direitos das outras pessoas. 

Mas viver em sociedade é algo complexo, pois cada pessoa é um mundo a parte. Eu tenho uma opinião, você tem outra. Discordamos. Poderíamos discutir, mas, você não aceita que alguém se oponha ao seu ponto de vista. Você tem que estar certo, afinal você tem certeza absoluta estar do lado certo, então não existe espaço para discussão, apenas imposição. Uma briga acontece porque eu não concordei com você e deixamos de ser amigos. Isso é triste. 

Eu fico muito chateada quando isso acontece por dois motivos. Primeiramente porque eu já fui assim. Eu era intolerante. E pior ainda, eu acreditava que era por causa da doença, que era determinado por algum problema no meu cérebro e que eu jamais mudaria. Eu colocava toda culpa no transtorno borderline. E eu não tenho medo de admitir isso, pois ser assim me ajudou muito, me ensinou muitas coisas. A intolerância me deixava isolada, com uma maior sensação de vazio, tédio e ainda mais desconectada de mim mesma. Foi apenas através da compreensão de que eu não era o transtorno borderline, de que, de fato, não tem como saber quem causa o que (se é o cérebro que causa o comportamento ou o contrário),  e de que eu poderia sim controlar o que eu penso, faço e sinto, foi que eu comecei a perceber melhoras no meu quadro. Eu me tornei aberta. Eu comecei a escutar empaticamente, a não julgar, a falar o que eu sinto e viver o presente. Eu já não sinto necessidade de estar sempre certa, eu prefiro sentir conexão, que eu sei que é algo muito mais importante para meu cérebro. 

Eu sou muito agradecida a todas as pessoas que me deram tantas chances de mostrar que eu mudei, que não desistiram de mim, que não esperaram que eu agisse de acordo como elas queriam. Se você fica ao lado de uma pessoa, mesmo nessa circunstâncias, isso significa que você a ama. Porém, eu ainda continuo (e continuarei, eu sei) me decepcionando com a grande pressão de outras pessoas para que eu aja conforme o entendimento delas, pois se eu não agir conforme os valores delas, então eu só posso ser "louca" ou estar tremendamente errada. Por eu já ter sido assim, eu dou inúmeras chances, mas ninguém parece querer mudar, é muito mais confortável permanecer do jeito que está, afinal é mesmo um grande esforço fazer tudo o que eu fiz para modificar a própria personalidade. Só que vale a pena. Cada sofrimento. Cada lágrima. Vale a pena. Meus relacionamentos hoje são baseados em sentimentos verdadeiros, em conexões reais e não em apenas agradar e não receber nada em troca. Algumas pessoas ainda se decepcionam comigo porque esperam que eu vá fazer apenas o que elas esperam, mas se você quer isso de uma pessoa, se você quer que ela apenas concorde com você, então talvez devesse rever seus conceitos. 


2 comentários:

  1. Queria agradecer de coração por ter escrito isso. De alguma forma me senti melhor, com sensação de que essas palavras foram ditas por um amigo, mesmo nao tendo um...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu também te agradeço pelo seu comentário, por compartilhar o que está sentindo comigo. E saiba que, aqui, você tem uma amiga, mesmo que a distancia. :)

      Excluir

Sinta-se a vontade para comentar, apenas não seja grosseiro.
Se quiser me escrever, envie e-mail para blogenlouqueser@gmail.com , mensagens hostis/sem propósito não serão respondidas.

Pesquisar este blog