segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

3 meses




"Meu melhor inimigo quer me ajudar
Quando chega chegando sem avisar
Esfregando na cara que haverá
Quem me pague a recompensa
Meu melhor inimigo, onde quer chegar?
Na fronteira sem visto pra viajar
Me avisando que sempre estará
Exilado na cabeça"

(Jay Vaquer, Meu Melhor Inimigo) 


3 meses... 3 longos meses...
Nesses meses o máximo que aconteceu foram crises de choro, alguma manifestação de raiva, alguns comportamentos impulsivos, nada que fosse considerado grave ou fora do "normal" para alguém com o meu transtorno.

3 meses...
Nesses meses eu comecei até a intensificar as meditações, os exercícios de mindfulness, os exercícios físicos e passei a me preocupar com a minha saúde física. A integralidade que forma quem eu sou começou a fazer parte dos meus pensamentos. A dor de estar viva começava a se tornar uma parte suportável e gerenciável. Eu acreditava que poderia suportar qualquer coisa.

3 meses...
O transtorno da personalidade borderline é feito de nove critérios conforme especialistas, e eu apresentei apenas quatro durante todo esse tempo. Nada de dissociação, nem automutilação, nem mesmo medo de ser abandonada ou algum comportamento agressivo.  Nada. 

3 longos meses...
Eu deveria usar a auto compaixão agora. Comigo, com o próximo, mas eu não consigo me desvencilhar do sentimento de fracasso. Eu falhei. E falhei feio. 

Em todos esses meses após a última crise, eu vivi um período de razoável paz e tranquilidade, mas isso não durou muito tempo. De repente, um dilúvio de situações estressantes se apresentaram a mim e eu me vi sem saber o que fazer, quer dizer, ao menos eu tentei. Eu usei todas as técnicas, respirações, meditações, tudo o que eu sabia que deveria fazer, mas a vida não parava de me socar. Eu tentava desviar ou socar de volta, mas aí eu me vi com todas as minhas emoções desreguladas, com problemas de impulsividade, raiva e identidade. Um sintoma atrás do outro. Como uma avalanche sobre mim. Esfregando na minha cara que não, o transtorno não ia embora, jamais. Que estaria isolado dentro da minha mente para sempre, esperando sempre os momentos de estresse para mostrar todo o seu potencial destrutivo e venenoso. Acabando comigo, com meus relacionamentos. E não, não importava o quanto eficaz ou efetiva (ai como eu odeio essas palavras!) eu tentasse ser, nada adiantaria, porque é ele quem manda na minha mente quando tudo está sendo destruído. Ele é o dono da minha mente quando eu perco o controle emocional. Se isso não é ser um fracasso, então me digam o que é... 

Eu sei, eu sei que muitos de vocês admiram a minha capacidade de ser resiliente, de recomeçar, de tentar outra vez... E eu não estou dizendo que quero desistir. Não é isso. Mas depois de três meses você começa a fazer planos, a ter esperanças, a crer que vai ter uma vida melhor, sem borderline, e aí tudo cai bem na sua frente... Eu tive uma crise completa com todos os nove critérios. Incluindo a dissociação. Eu não lembro o que eu disse. Eu não lembro (parcialmente) o que eu fiz. Eu tive comportamento autodestrutivo (bebi excessivamente e ingeri medicamentos ao mesmo tempo) e ainda lembro de ter dito que queria morrer. Eu não posso evitar de me sentir um grande e enorme fracasso. 

Eu me sinto uma fraude escrevendo isso. Mas se eu não contasse, aí sim eu seria uma fraude. Essa droga de transtorno não tem nada de legal. Ele não é fácil, nem simples, mas eu insisto em dizer que ele é gerenciável. Eu fiz isso durante três longos meses. E foi muito bom. Eu falhei. Ok, eu falhei. Mas talvez eu apenas não esteja enxergando que eu fiz o melhor que eu pude e que a vida ás vezes é muito dura também.


7 comentários:

  1. Se você está lendo isso agora é um sinal de que não falhou. Concordo que, às vezes, a vida é bem dura. Acho que todos temos nossa cruz. Só nós sabemos o peso que carregamos. Mas, mesmo quando tantas nuvens negras encobrirem nosso céu, ainda haverá luz, é por isso que percebemos a escuridão que se aproxima. Acho que há algum sentido em tudo isso. E vou torcer para que continuemos a escolher viver, nem que seja para descobrir que sentido é esse. Não somos um rótulo. Somos nós. E estamos aqui. :)

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    1. Obrigada, Brenna, gostei muito de ler seu comentário!!!

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  2. Sim, você tentou, eu acho que isso tem muito valor.Assim como tentei, inclusive fazendo um blog, do qual desisti, pois a mim não ajudou e depois acabei tendo uma recaída porque não queria aceitar o quanto precisava dos medicamentos, o que resultou em uma tentativa de suicídio.
    E agora resta a resiliência para continuarmos nossas vidas... Tentando fazer o melhor que pudermos, de novo, certo? Abraço, se cuida.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Oi, Mari!!!! Vamos continuar tentando!! Obrigada!

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  4. Olá, acabei de encontrar seu blog. Tenho outro tipo de transtorno, mas consigo sentir seu desabafo como se fosse meu também.
    Caramba, somos muitos sofrendo calados por aí. Temos a internet que nos aproxima através das nossas dores.
    Continue, continue Michele. Chegamos até aqui e vamos continuar.
    Fique bem.

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    1. Oi, Anônimo!! Estou quase sem forças para continuar, sabe... Muito, muito cansada, mas ainda estou aqui... Obrigada por comentar.

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