terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O que eu não compreendo...


Eu costumava acreditar que a melhora aconteceria de uma vez. Que um dia eu acordaria "curada", feliz e nunca mais sofreria novamente. Todos nós gostaríamos que isso acontecesse. De vez em quando até imaginamos como seria essa sensação. Mas, com o tempo, descobri que a melhora é um processo que leva tempo, trabalho árduo, persistência e porque não, um pouco de esperança. Mas há momentos que são especialmente incômodos. 

Eu sou uma pessoa, naturalmente, tímida. O transtorno deixou pior, mas eu sempre tive esse traço mais retraído. Hoje não vejo problema nisso. Eu também sou uma pessoa extremamente imaginativa, e isso já me trouxe problemas, não por causa da imaginação, mas por causa do desequilíbrio mental que o borderline já me causou. E eu sou hipersensível. Eu sinto tudo em demasia e esse não é o problema. Não há nada de errado em ser tão sensível, o problema é quando eu não consigo controlar as emoções e elas acabam falando por mim. 

Algo que me deixa muito chateada é o isolamento. Eu tenho perfeita noção que eu já fiz muitas pessoas se sentirem excluídas, isoladas ou desconectadas ao meu lado, mas eu também entendo que sempre foi um mecanismo de defesa. O medo excessivo sempre me controlou. E, ao menor sinal de rejeição, eu excluía antes que a pessoa me abandonasse. Mas isso me trouxe muito sofrimento, porque eu nunca quis agir dessa forma, mas, por algum motivo, eu não conseguia (mesmo) controlar. O que me mostrou que o que eu tinha era uma doença, e não uma escolha (e por isso eu explico para as pessoas hoje o que aconteceu e acontece comigo)

Eu compreendo, perfeitamente, porque pessoas com transtornos mentais, em sua maioria, tem dificuldades em se conectar, mas não compreendo porque uma pessoa que se diz "normal" exclui e isola. Se quando alguém fica doente, a melhor prática é acolher e cuidar da pessoa, porque isso não vale quando se trata de um transtorno mental?

Todas as vezes que alguém que se diz "normal" isola alguém com um problema de ansiedade, fobia social ou borderline, na verdade, está aumentando ainda mais a sensação de exclusão que já sentimos permanentemente. E eu não vejo meu discurso como vitimismo. É a realidade. Porque existem doenças socialmente aceitáveis e outras não? Por exemplo, a AIDS ou qualquer outra DST... porque existe o comportamento de excluir em vez de acolher? 

Eu compreendo que as pessoas temem o que é diferente. Não há nada mais "diferente" do que um transtorno mental. Mas é justamente a capacidade de adaptação que nos faz, como humanidade, ser incrível e eu não vejo nenhum movimento de adaptação quando se tratar de aceitar o outro com todas as limitações que ele tem. A maioria prefere repetir comportamentos preconceituosos que nem sequer sabem como aprenderam, em vez de analisar racionalmente e emocionalmente a nova situação a sua frente. 

Eu nunca quis ter nenhum comportamento negativo que eu já fiz, mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia controlar. Era como se eu estivesse dentro de mim observando minha mente enlouquecendo, mas não tinha como tomar uma atitude, pois algo no meu cérebro parecia "quebrado". De certa forma, eu não estava errada, realmente há uma alteração no funcionamento do meu cérebro, mas com as ferramentas corretas, eu pude ter de volta o controle de minhas ações. Isso só aconteceu porque eu tive algumas pessoas que não me isolaram. Mesmo eu não sendo uma pessoa "normal" (no melhor sentido da palavra ok?), eles se mantiveram do meu lado, acreditando que eu superaria meu transtorno. E todo esse apoio me deu força para levantar e cair, levantar e cair, quantas vezes fosse necessário até que eu desenvolvesse a minha força interna. 

Vocês conseguem perceber? Se tivéssemos um comportamento de família acolhedora uns com os outros, estaríamos incentivando pessoas como eu a melhorar. E quanto mais você isola, ou porque não compreende, ou porque só está repetindo algo que aprendeu, ou simplemsnete porque gosta de isolar, você está reforçando que a pessoa ou continue na mesma ou não veja sentido na vida. 

Eu acreditava que não precisava de ninguém porque todas as pessoas me pareciam hostis. Minha experiência com pessoas não era a melhor. Eu já havia sido vítima de negligência, abuso psicológico e sexual, portanto, ninguém parecia confiável, mas, quando você encontra pessoas que acreditam no seu potencial, tudo muda. Eu comecei a ter incentivo e forças para melhorar, até que eu pudesse encontrar a mim mesma.Talvez pareça meio clichê ou new age para você, mas, de fato, estamos todos interligados de alguma forma.

6 comentários:

  1. Olá Michele, como vai você? :)
    me identifico muito com suas palavras, e engraçado que hoje ao escrever meu diário pessoal estive refletindo sobre um assunto bastante similar e eu gostei muito de ler sobre a sua visão. ^^
    Eu diria que é preciso coragem para expor os pensamentos enquanto uma pessoa que convive com um transtorno, a forma de enxergar o mundo é diferente mesmo e normalmente não nos vemos sendo compreendidos e isso somado a outras coisas pode desencorajar, mas admiro a forma como se expressa.
    Beijos e desejo a você paz interior. :)

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  2. Olá Michele, como vai você? :)
    me identifico muito com suas palavras, e engraçado que hoje ao escrever meu diário pessoal estive refletindo sobre um assunto bastante similar e eu gostei muito de ler sobre a sua visão. ^^
    Eu diria que é preciso coragem para expor os pensamentos enquanto uma pessoa que convive com um transtorno, a forma de enxergar o mundo é diferente mesmo e normalmente não nos vemos sendo compreendidos e isso somado a outras coisas pode desencorajar, mas admiro a forma como se expressa.
    Beijos e desejo a você paz interior. :)

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  3. Descobri seu blog esses dias e por acaso... e tudo que eu li aqui me tocou de uma forma que não consigo dizer. Pela primeira vez, consegui imaginar a dor que alguém com Borderline sente, é desesperador. Isso faz me sentir culpada, pois namorei alguém com a doença, não a entendia muito bem, então não sabia como lidar. Essa doença tirou o emprego, os amigos, a família, tudo dele. Era só eu ali,lutando pra continuar, pois eu o amava. Até que, por algo pequeno que o desagradou, fui expulsa aos berros de sua casa, sendo chamada dos piores nomes possíveis, enquando ele jogava minhas coisas na parede. Eu achei que ele me mataria. Chorei como nunca, fui embora humilhada. Pensei comigo: todos estavam certos! Eu deveria ter me afastado desse louco antes, ele arruinou minha vida. Assim que cheguei em casa,tinha milhares de mensagens dele pedindo perdão. Ele me pede pra voltar, chora, se auto inflige dor, diz que nada tem cor, que estraga a vida de todos... agora eu sei como ele se sente e quero, mesmo como amiga, ajudá-lo a ter um pouco de paz.

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    1. Olá, Rafaella! Obrigada por comentar e compartilhar sua história comigo!!!
      Mas não se sinta culpada... Todos nós fazemos tudo o que está ao nosso alcance e o nosso limite, temos que respeitar nossos valores e saber até onde podemos ou não ir. Relacionamentos são complexos pois envolvem muitas questões, com uma pessoa com transtorno borderline só existe um fator a mais de complexidade. Ninguém tem culpa. Nem a pessoa que tem a doença, nem quem convive... Você fez o que pode e, pelo jeito que escreveu, seu sentimento ainda é de respeito, carinho e amizade por ele. Você quer ajudá-lo!!! Eu acho isso muito bonito!!! :) ...Essa doença nos tira algo muito importante que é o controle das emoções e acabamos fazendo e dizendo coisas sem saber porque. Eu já fiz coisas semelhantes as q ele fez para me arrepender 5 minutos depois... São sentimentos muito fortes indo e vindo de uma vez, difíceis de controlar... Mas há esperança sim! Hoje eu consigo controlar minhas emoções em 90% do tempo, e muitos sintomas diminuíram, graças a terapia e os remédios correto. Leva tempo e exige bastante esforço (e cooperação das pessoas queridas) mas eu te digo: vale a pena!!! Espero que ele encontre o caminho dele e se você precisar conversar, me mande um email: blogenlouqueser@gmail.com

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  4. Michele, tudo bem? Eu tive a oportunidade de conhecer uma mulher Borderline. Uma pessoa maravilhosa, conversávamos muito.um dia ela me disse que era Borderline, aí comecei a ler sobre o assunto.Infelizmente não nos falamos mais.Fiquei triste pq adorava conversar com ela,me senti impotente em nāo conseguir ajuda-lá, marcou muito para mim está experiência.Não quero que seja o fim de uma história,mas sim o começo.Estou com um projeto para a criação de uma ONG voltada para o Transtorno de Personalidade Borderline.O objetivo é conscientizar a sociedade sobre o que é o Transtorno de Personalidade Borderline, a maioria das pessoas não o conhece.E proporcionar condições de tratamento aos portadores e seus familiares.É um sonho que tenho é quero realiza-lo. Mas quero sua opinião.Obrigado

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    1. Olá, Eduardo!!! Obrigada por compartilhar comigo a sua experiência! Eu fiquei muito emocionada ao ler sua história com essa mulher, vendo o quanto você se sentiu profundamente conectado a ela... eu acho isso tão bonito e significativo entre as pessoas... acho que os relacionamentos (sejam quais forem) são as coisas mais importantes das nossas vidas!!!
      Nós temos algo em comum, queremos ajudar... Eu gostaria de conscientizar as pessoas também.. meio que tento fazer isso com esse blog, a página do facebook, e estou tentando escrever um livro sobre a minha experiência, meu tratamento e minhas dificuldades e superações... Caso você queria dividir essa sua maravilhosa ideia, entre em contato comigo, para conversarmos melhor, através do e-mail blogenlouqueser@gmail.com
      Obrigada!!! =)

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