sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Depois da última crise


As manchas roxas já começam a desaparecer. Eu ainda não me recordo exatamente como eu as fiz. Sei que fui eu. Há fragmentos de lembranças. É tudo o que sobrou da minha mente, daqueles dias sombrios da crise. Fragmentos. Eu faço uma tentativa patética de juntá-los para, quem sabe, ter um cenário que faça algum sentido, mas meus esforços são em vão. Eu terei de acreditar no que as pessoas que tiveram de viver isso junto comigo dizem e nos flashes de memória.

Eu me lembro muito bem dos sentimentos. Eles entravam e saíam em uma velocidade absurda, sem pedir permissão e sem controle. Eu desejava que tudo aquilo parasse, mas meus pedidos não podiam ser ouvidos. O meu próprio senso de "eu" havia sido completamente roubado, submergido, abafado por todas aquelas sensações que me invadiam a todo instante. Era como andar na montanha-russa mais radical do mundo, mas não havia diversão, apenas muita raiva e os altos e baixos de todos os sentimentos possíveis e existentes que um ser humano pode sentir.

Eu não lembro de tudo o que fiz, nem de tudo o que disse. Também não lembro de tudo o que me foi dito, nem de tudo o que me disseram. Não sei dizer o quanto isso é bom ou ruim. Infelizmente, eu já me acostumei a esse sintoma. Eu não fico mais chocada. Eu aceito que faz parte do meu quadro. Talvez a aceitação e a compaixão que veio junto tenham deixado essa dissociação um pouco mais leve dessa vez, pois meus machucados foram hematomas e não cortes, e meus impulsos foram bem mais suaves. Eu entrei em comportamentos autodestrutivos sim (nos fragmentos que me lembro, e pelos rastros que sobraram é o que sei!), mas já foi muito, muito pior.

Diferente do que eu havia imaginado, dessa vez, eu levantei muito mais rápido. Eu tive meu momento "não vou mais continuar", mas em seguida eu percebi que não fazia sentido. Eu olhei para trás e eu vi que já havia percorrido um caminho bem longo, e, talvez ainda houvesse um caminho ainda mais longo a frente, mas não é assim a vida? O segredo, quem sabe, seja esse: persistir. Então, eu fiz algo que, ao menos para mim, é completamente novo. Eu tive muita compaixão por mim. Eu aceitei que tive uma crise e que muito provavelmente vão acontecer outras. Eu percebi que meu problema era que eu estava com medo de ter uma crise, e todos os meus atos, pensamentos e intenções eram justamente para evitar essas crises. Não há nada de errado com isso, mas eu não estava, de fato, vivendo o presente em sua totalidade. Eu estava vivendo o presente parcialmente, pois eu me preocupava muito em "não ter uma crise a qualquer custo". Depois da crise, eu senti toda a compaixão por mim. Eu sou um ser humano sujeito a dor, sofrimento, doenças e a morte como todos os outros. A minha doença tem algo a mais, é um transtorno mental, é um desafio. Não há nada de errado ou esquisito nisso. É apenas um desafio. É da característica dela ser assim, feita de crises, e assim é a vida. Eu não gosto de ter crises, ninguém gosta, mas como eu posso fazer para lidar melhor com isso? Bem, eu já faço isso. Eu dou o meu melhor. Então, talvez, eu não tivesse como evitar. Sendo assim, foi um ato de pura compaixão eu perceber que não teria como evitar e me libertar do sentimento de culpa e vergonha que veio junto com a crise.

Eu quis desistir por me sentir sozinha. Aqui, novamente, eu tive de aplicar a compaixão. Talvez, eu não esteja sozinha. Eu tenho, de fato, pessoas que me amam ao meu redor, e é a doença que, nas crises, me faz pensar assim, que estou sozinha -  e isso passa. Mas, durante as crises, de fato, eu estou sozinha, não tem como ninguém passar uma crise junto comigo, então, será que não teria como eu facilitar as coisas para mim mesma antes de acontecerem as crises? Eu meio que faço isso, mas não totalmente. Eu falho um pouco no quesito autoimagem, autoestima. Então percebi que aqui está algo que eu deveria cuidar, quem sabe, eu devesse me abrir um pouco mais sobre isso com meus terapeutas?

Se eu estou melhor, então eu posso ser melhor para as outras pessoas e isso gera um ciclo de melhorias, perpetuando sentimentos bons, gentileza, etc.  Por isso, eu percebi que ter compaixão por si e pelos outros é algo tão importante, tem sido essencial para mim, me torna mais forte a cada dia.

4 comentários:

  1. Que bom poder ler estas palavras mais positivas, cheias de compaixão, Michele! É isso aí, estou sempre na torcida por você, por nós todos que enfrentamos nossas questões mentais, por assim dizer.
    Fique bem, bjs.

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  2. Olá, não tenha medo de encontrar o seu melhor. Lembre-se: não se deve render-se à tristeza nem assinar acordos de paz. Torne-se o seu próprio herói!
    Caso queira e goste de ler:
    https://livroumarazaoparacontinuar.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada pelo seu comentário =) Achei inspirador! Quanto ao livro, salvei no meu histórico para ler depois - pode ter certeza que vou ler!

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