segunda-feira, 13 de março de 2017

Descobrindo a compaixão


compaixão
1 Dor que nos causa o mal alheio.
2 Participação da dor alheia com o intuito de dividi-la com o sofredor.
 
Eu desenvolvi uma grande dificuldade em confiar nas pessoas. De uma certa idade para frente, por mais que eu quisesse, eu não conseguia estabelecer a confiança com mais ninguém, nem com pessoas da minha própria família. Todo mundo começou a parecer perigoso. Eu sempre sofri com isso, por que, no fundo, eu queria me relacionar, me conectar, chegar mais perto, mas parecia haver uma barreira emocional entre eu e as pessoas e isso fazia com que muitas delas se afastassem, inclusive amigos de muitos anos e parentes. Ainda hoje, pessoas que eu acabo de conhecer ou que não me dão um tempo para me conhecer, me julgam por esse comportamento de distanciamento, quando na verdade, é um mecanismo de defesa, que eu sei que não me beneficia muito, mas ainda estou tentando alterá-lo. 

Quando eu tive minha última crise, há poucos dias, eu tive apenas alguns segundos de lucidez entre morrer e pedir ajuda. Eu estava naquela velha e conhecida espiral de autodestruição, mas, dessa vez, muito mais destrutiva. Eu estava completamente descontrolada, fora da realidade e faria qualquer coisa para aquela dor parar. Qualquer coisa. Mas descobri que poder da confiança pode ser algo poderoso. Meu cérebro podia estar 98% em total descontrole, mas 2% ainda tinha esperança e não ia seguir a luz no fim do túnel, de jeito nenhum. Eu não tinha tempo para nenhum exercício da terapia, nenhuma meditação, eu tinha que ser rápida. Foi então que lembrei do meu terapeuta falando  com aquela voz de quem está desesperado mas não pode demonstrar porém obviamente falhou (rs): "Não se isole" e ao mesmo tempo a desconfiança surgiu. Porque confiar nele? Porque confiar em alguém naquele momento? Ninguém podia me ajudar. Ninguém ia acabar com a dor! Eu não raciocinei, nem levei para o lado emocional, eu reagi e confiei no meu médico. Corri e pedi ajuda aos meus amigos. E estou aqui. 

E então eu entendi o significado de compaixão e auto compaixão. A compaixão que todas aquelas pessoas sentiram por mim, e a que eu senti pela minha dor quando escolhi superar o meu medo e pedir ajuda. Eu podia estar no meio do caos, havia voltado a me cortar depois de seis meses, estava com muitos hematomas que eu não me lembrava como havia feito, já havia chorado muito, enfim, eu estava em pedaços e muito, muito cansada porque era de madrugada, mas de repente, tudo começou a fazer sentido. Eu estava me conectando as pessoas e aquilo me fazia sentir validada, pertencente a algum lugar, real, tudo o que a doença geralmente não permite que eu sinta. Meu médico tinha toda a razão: eu não podia me isolar. 

Eu sou muito grata a todos eles, pois seria muito fácil terem fingido não ver ou não entenderem o que estava acontecendo, ou simplesmente ter uma atitude de julgamento, apontar dedos e dizer que eu estava tentando chamar atenção, sendo manipuladora, ou algo assim. É claro que eu imaginei que muita gente ia mesmo pensar isso, e tive medo de falar qualquer coisa, mas ao mesmo tempo, se eu não falasse (e foi uma postagem no Facebook, para ficar bem claro!), eu tinha altas chances de não acordar mais, então a opinião dos outros parecia muito menos importante do que salvar a minha vida. Mas contra todas as minhas desconfianças, contra todas as paranoia da minha mente e todas as profecias do borderline, muita gente falou comigo e se importou DE VERDADE, e todas aquelas conversas distraíram o meu cérebro, diluíram as minhas emoções intensas até o ponto em que viver parecia a única opção possível e a melhor opção. 
 
Eu fui acolhida pela minha rede de amigos e de fato meu psiquiatra/terapeuta estava muito certo quando disse que era disso que eu precisava em momentos de descontrole como esse. Me isolar me levaria a uma única possibilidade, mas me conectar as pessoas poderia me levar a inúmeras possibilidades, pois me fez ver a mesma coisa de vários ângulos diferentes. A minha dor poderia ter outras soluções, inclusive nenhuma, mas, de fato, haviam outras soluções, eu só não conseguia enxergar isso sozinha. Ele estava certo esse tempo inteiro, sozinha não dá. 
 
Eu acredito que essa foi a primeira barreira que foi quebrada dentro de mim após esse um ano e meio de terapia: a da desconfiança completa (uma barreira que dura uns 18 anos!). É claro que fiquei triste por ter dados alguns passos para trás, mas eu não regredi, pois me recuperei muito rápido e com um 'plus' que foi passar a confiar um pouco mais em mim e nas pessoas ao meu redor. 
 
Os hematomas estão mais claros, os cortes estão quase curados, e a instabilidade emocional passou, mas a vontade de continuar seguindo em frente só aumenta. 
 
 

2 comentários:

  1. É isso Michele!!! Vc nāo está sozinha...ninguém está. Parabéns por seu entendimento sobre isso.Ás vezes nos sentimos sem chão, mas existem pessoas que talvez não seja o chão que precisamos, mas podem ser ás mãos que nos ajudam a nos levantar.Vamos quando vc puder retomar a nossa conversa sobre o Projeto. Abraços

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  2. gostei do seu atigo, vou partilhar com as minhas amigas.
    http://www.terapiasdamente.pt/blog/tratamento-depressao/

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