sábado, 20 de maio de 2017

Das transformações


Desde o começo do mês eu tenho pensado muito sobre culpa, responsabilidade, compaixão, amor, raiva, tristeza, desapego e perdão. Por causa da instabilidade emocional, em situações em que eu era seriamente ferida, eu não conseguia ficar nem por um minuto do lado racional, o que me levava a comportamentos impulsivos, mais tarde me faziam sentir vergonha, mais culpa e angústia por eu não compreender porque eu fazia coisas que eu não queria, de verdade, ter feito. Era como se as minhas emoções tivessem vida própria, um corpo, uma personalidade, e, de repente, se apropriavam de mim, aproveitando-se da minha vulnerabilidade de não ter um senso de identidade definido. Eu sinto que, hoje, ainda não tenho esse senso de "eu" muito bem estabelecido, porém, muitas coisas mudaram dentro de mim. Eu consegui estabelecer algum controle sobre todas essas emoções, e, na maior parte das vezes, não são elas que me levam, e sim eu que as controlo. 

Talvez por causa da proximidade do meu aniversário, eu tenho pensado mais sobre a minha vida, em todas as situações semelhantes a que estou passando agora e parece haver um padrão. Alguns dirão que é coincidência, mas eu não acredito mais nisso. Frequentemente, pessoas em que confio muito, que deixo entrarem em meu coração, acabam levando algo muito valioso de mim ou acontece alguma situação de "quebra de confiança" entre nós, mesmo que seja um mau entendido, mas, de qualquer forma, a amizade ou o relacionamento jamais é recuperado. Eu acabava imersa em raiva, tristeza e vazio, o que me levava a culpa, vergonha e isolamento. Eu nunca mais tornaria a ser a mesma pessoa. Eu acabava trazendo isso para os meus relacionamentos seguintes e então as situações se repetiam. Daí eu percebi que alguma crença deveria mudar dentro de mim, afinal eu não posso mudar as pessoas ao meu redor, a minha única responsabilidade é comigo mesma. 

Uma vez, uma monja me disse que o sofrimento é uma oportunidade de aprender, e que, um dia, eu entenderia isso. Na hora em que ela me disse isso, eu senti vontade de rir de raiva, pois não fazia sentido, e eu estava resistente em aceitar. Mas desde que sofri essa ferida, eu comecei a lembrar de todas as coisas que ela me disse e de tudo o que li e aprendi nesses últimos quase dois anos na terapia e nos últimos onze anos lendo todos esses livros de psicologia e religiões diversas (apesar de eu não seguir nenhuma religião). Realmente tem sido uma oportunidade. Não é menos doloroso, nem menos injusto, mas é uma oportunidade. 

Eu fiz um pequeno isolamento, um retiro de 10 dias seguidos de meditação. Todas as noites, antes de dormir, eu me propus a meditar para acalmar a minha mente sobre esse assunto, para poder ter clareza e decidir, se perdoar era possível ou necessário nessa situação. Eu gosto muito da meditação da compaixão (metta), mas também fiz uma que me ajudasse a praticar o desapego. Apesar de terem se passado 12 dias e eu continuar meditando todas as noites, sinto que minha mente está muito mais calma, e eu finalmente pude decidir. Eu acreditava que perdoar era sobre o outro. Acreditava que eu deveria esperar e ver como estaria o estado de espírito do outro, ver se ele mudaria comigo, se estaria diferente, para, só aí, perdoar ou não. Mas essa crença falava mais sobre as minhas emoções do que sobre o perdão em si. Eu estava apegada a ideia do que o outro pensa sobre mim - isso é algo que realmente me preocupa demais. 

Enquanto eu estivesse preocupada com a preocupação do outro sobre mim, eu não conseguiria perdoar, pois era um apego. Perdão parece exigir desapego. Quando você perdoa, você não esquece, você lembra, mas aquilo não dói igual antes, é apenas uma lembrança. E sim, você pode ter lembranças sem sentimentos e sentir sem ter pensamentos. Então, sim, foi uma oportunidade de fazer diferente, pois dessa vez, eu escolhi não ser controlada pelas minhas emoções. E eu posso dizer que foi muito difícil - ainda está sendo - mas vale cada segundo!. 

Eu ainda sinto um pouco de raiva e tristeza quando lembro de todas as coisas ditas e feitas (ou não ditas e não feitas), mas eu tenho conseguido manter a mente de teflon (caso você não tenha lido, clique aqui) e todos os pensamentos negativos passam por mim sem julgamentos ou críticas, pois eles são legítimos, eu realmente fui ferida, mas eu escolhi perdoar em vez de me apegar a raiva e a vingança. Seria muito mais simples permanecer na raiva, pois bastaria eu permanecer sem fazer nada, meu cérebro, minhas emoções já estão acostumadas a reagir nesse modo, porém eu nunca sou beneficiada dessa forma, nem a outra pessoa, é uma situação em que todo mundo perde e eu me sinto muito culpada depois. Além disso, nessa situação especifica, a pessoa pareceu demonstrar arrependimento. Eu não sei se foi legitimo, mas eu escolhi perdoar. Eu escolhi por mim. Eu escolhi pelo meu propósito de vida, porque acredito que seja a coisa certa a fazer, pelos meus valores. 

Além disso, enquanto eu meditava, descobri que existia mais uma crença que me impedia de exercer minha verdadeira vontade que era perdoar: eu acreditava que não merecia nada de bom, que eu não merecia ser feliz, por isso eu sempre acaba sendo ferida pelas pessoas, eu merecia isso. Pareceu algo muito cruel, ao "ouvir" no silêncio da meditação. Se era essa crença que norteava a minha vida, então era por isso que eu via sentido em me isolar em vez de tentar um reaproximação com as pessoas com que eu tinha algum conflito. Eu percebi que não deseja isso a nenhuma pessoa, nem aos meus inimigos, então porque desejava isso a mim mesma? Isso tinha que mudar e venho me esforçando para mudar essa crença dentro de mim desde então, por isso eu posso dizer que essa grande ferida abriu o caminho para uma real transformação. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sinta-se a vontade para comentar, apenas não seja grosseiro.
Se quiser me escrever, envie e-mail para blogenlouqueser@gmail.com , mensagens hostis/sem propósito não serão respondidas.

Pesquisar este blog