quarta-feira, 24 de maio de 2017

Dos relacionamentos e a sociedade



Todos estamos conectados. Eu tenho um relacionamento complicado com essa frase. Houve um tempo em que eu a amei com todas as minhas forças, depois a odiei com a mesma intensidade, agora não sei, as vezes concordo, as vezes discordo, depende do meu humor, das minhas emoções. Não gosto de funcionar assim, faço o possível e o impossível para ser uma pessoa melhor todos os dias, mas em algum momento sempre sinto que não é o suficiente.

Eu não foquei sonhando que a meditação me tornaria outra pessoa, mas certamente tem ajudado a saber o que realmente estou sentindo, sem confusão. E, de fato, todos estamos conectados, de alguma forma ou de outra, o que eu faço (ou não faço) repercute em você e o que você faz (ou não faz) repercute em mim. Eu me vejo, agora, aqui, coberta em rejeição, culpa, abandono e em auto críticas e auto julgamentos sobre ser paranoica, ou talvez eu tenha ouvido demais ou exagerado em alguma coisa, mas, de fato, existem fatos, gatilhos que me trouxeram até a dor que sinto agora. Viver em sociedade, em grupos, acredito não ser tarefa fácil para ninguém, mas é uma tarefa ainda mais difícil para quem tem algum transtorno de ansiedade, personalidade, enfim qualquer coisa que "prejudique" as relações.

Eu nunca me senti a vontade em grupos. Eu me sentia deslocada, não sabia o que fazer, como agir, como deveria me portar, o que dizer, pensar, eu simplesmente achava todas aquelas interações muito complexas, desnecessárias e sem nexo. Quando eu realmente me conectava a alguém era diferente, mas ainda assim difícil, pois eu tinha de lidar com emoções que iam e vinham em velocidades que nem eu conseguia suportar, nem mesmo as outras pessoas, muitas vezes eu sofria de delírios, e fui taxada de mentirosa, mas eu não me lembrava o que tinha dito, quando me lembrava não sabia o porquê, era como se minha mente estivesse se dividindo para poder lidar com aquele mundo externo, sem nexo e com um trauma do abuso sexual, verbal e psicológico, escondidos no inconsciente

Cumprimentos, beijos, abraços, apertos de mãos, apelidos. Nada disso fazia o menor sentido para mim. Por que eu era obrigada a conviver com pessoas incompatíveis comigo? E por que eu era obrigada a ter tantas etiquetas sociais com essas mesmas pessoas? Isso me parecia falso.

Com a terapia e a dolorosa experiência, eu aprendi a controlar muitos impulsos, inclusive aprendi que, ser educada não é ser falsa, mas eu não sou obrigada a falar com quem eu não gosto, apenas devo respeitar. Respeito é não maltratar, ter uma atitude não agressiva e caso a pessoa precise de mim, eu esteja lá por inteiro e não por vingança. Com isso eu conheci a compaixão. Sempre a vi nos discursos de Jesus na Bíblia (minha avó é católica, eu fiz catecismo e sim, eu gosto de ler sobre religiões mesmo que o fanatismo dela, um dia, tenha me traumatizado; estudar religiões foi a minha forma de superar esse trauma), mas não a compreendia. Com bastante neurociência, conceitos de mindfulness e uma ajudinha do meu terapeuta, aos poucos eu fui integrando esse conceito dentro de mim e percebi que é um sentimento. Eu sinto a compaixão. Eu não explico, nem raciocínio. Eu simplesmente a sinto.

Quando me vejo em situações de interação social, hoje, seja no trabalho ou no dia a dia, a primeira coisa que eu faço é tentar ver o outro sob a perspectiva da compaixão, ou seja, em vez de eu ficar em estado de alerta, pensando que "todos são perigosos" e não confiáveis, eu dou o beneficio da dúvida, eu apenas sinto a compaixão fluindo por mim, e a outra pessoa passa a ser o que ela é: uma pessoa igual a mim, sujeita a dor, sofrimento emocional, a doenças e a morte, igual a mim. Isso me deixa com a escuta mais empática, mais aberta e mais relaxada. Eu não espero que a pessoa aja igual. Eu apenas sinto. Pois eu sou responsável apenas por mim, não tenho nenhum poder sobre o outro.

Mas, eu não sou perfeita. Ninguém é. Acredito que todo ser humano merece atenção, carinho e respeito. Por causa do meu transtorno, percebo muitos julgamentos implícitos e explícitos, criticas, olhos que me julgam. Outras pessoas querem obter vantagem disso, algumas querem me afundar ainda mais. Eu não compreendo porque uma pessoa tem essa necessidade de perturbar a vida do outro. Acho que apenas respeitar estaria de bom tamanho. Frequentemente, eu sou isolada ou por mim mesma ou pelas pessoas, que, inconscientemente, ou conscientemente, adotam comportamentos de estigma e preconceito.

Eu procuro ficar distante de pessoas com quem me sinto mal ou que acho incompatíveis, e mesmo assim as pessoas me julgam. O que aprendo com tudo isso é que vão falar não importa o que você vai escolher, por isso escolha aquilo que faz sentido para você e que não prejudique a ninguém (incluindo a si mesmo). Eu gosto muito de uma frase do Dalai Lama que diz assim: "O maior juiz de seus atos deve ser você mesmo e não a sociedade. Aprenda as regras e quebre algumas". Muitas vezes, a sociedade não faz o menor sentido, principalmente com as minorias, há muita crueldade, injustiça, indiferença e ódio. Quando nós tentamos nos encaixar, ser igual a essas pessoas, perpetuamos esse modelo de sociedade. Por isso, acho essa frase do Dalai Lama tão importante e me lembro dela quando me sinto triste ou desconectada por não ser igual aos outros, por não me "encaixar", e então eu lembro: você aprende as regras, conhece elas e quebra algumas justamente por conhece-las, por entender que ou elas não fazem sentido ou elas devem ser mudadas (modernizadas), é assim que se inicia uma mudança. E não se importe com nenhum outro juiz além da sua consciência, pois se você estiver consciente, saberá que está no seu caminho. Afinal, o mundo precisa de um Você e não de mais um igual.

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