terça-feira, 13 de junho de 2017

Os lobos dentro de mim



Eu acho lobos fascinantes. É muito mais do que admiração por serem animais bonitos ou porque os cães são descendentes deles. Eu me identifico e tenho enorme respeito. Eu comecei a pesquisar sobre os hábitos dos lobos há algum tempo, e, cada vez mais compreendo porque minha mente escolheu essa espécie como meu animal de poder, meu totem. Devo confessar que tenho uma inclinação para religiões antigas, principalmente as indígenas. O xamanismo ainda ocupa grande parte do meu coração e, foi através disso que comecei a compreender o que significava ter um animal de poder, funciona com um arquétipo, uma imagem dentro de você que simboliza algo mais, como se o inconsciente estivesse falando diretamente com você, mas, em vez de palavras, ele usa símbolos. Você pode chamar como quiser. 

Minha mente tem facilidade de alcançar os sonhos simbólicos. Segundo o psiquiatra Carl Jung, esses tipos de sonhos são manifestações dos arquétipos existentes dentro de cada pessoa. Arquétipos também se manifestam em mitos. De qualquer forma, eles parecem ter necessidade de se propagar de geração em geração através das histórias que contamos e também em nossos sonhos. Eu sonho com lobos, deuses (ou reis, ainda não entendi direito) e de vez em quando uma pantera. São sonhos contínuos e que, de alguma forma estranha, impactam meu dia a dia, transformam quem eu sou. Mas vamos nos focar nos lobos. Eu sonhos com dois, um preto e um branco, o que talvez represente a noção de dualidade da vida (bom e mau, yin e yang, etc).

Através da minha pesquisa sobre os lobos, eu descobri várias coisas interessantes que se encaixam nos meus sonhos e a mim. Lobos são animais sociais, assim como nós. Eles vivem em grupos, bandos, matilhas. Ao contrário do propagado pela crença popular, não existe o "alfa". Existe um par de lobos, macho e fêmea, que tem papéis estabelecidos - mas que podem trocar entre eles - e lideram o grupo, funcionando como "pais" e não, exclusivamente, como líderes. A matilha precisa ficar unida, pois disso depende a sobrevivência deles. 

Tão pouco a crença sobre o "lobo solitário" é completamente fiel. Lobos não gostam de viver sozinhos, é uma situação de exclusão do bando. Eles não simplesmente ficam sozinhos, são autossuficientes e vivem muito bem assim. Não! Só existe - até onde eu pesquisei! - duas situações em que eles são excluídos: ou quando um dos "pais" está velho demais e é desafiado por um jovem lobo em disputa com o papel de líder, ou quando, se o jovem lobo perder essa disputa, é "convidado a se retirar". Então, o lobo se torna o famoso "solitário". Isso encurta a vida do lobo, e consequentemente ameaça a sobrevivência deles, pois, se todos os lobos fossem assim, estariam em extinção. Um lobo sozinho tem mais probabilidade de ser morto por outro animal ou em consequência de uma ferida que não consiga resolver sozinho. Lobos cuidam dos doentes na matilha, assim como também educam os filhotes e se mantém unidos. Não é vantajoso ficar sozinho, assim como não o é para o ser humano. 

Tudo isso me fez pensar - muito. Eu me senti excluída muito cedo, sendo o período escolar - aonde deveríamos ser integrados socialmente - aonde tive mais certeza de que o meu lugar era sozinha. Eu sempre era "expulsa" dos grupos por um motivo ou outro, e não raramente por desafiar o líder. Não estou dizendo que somos iguais aos lobos, mas há muitas características em comum. Eu comecei a ficar perdida em grupos quando eu me separei do meu "alfa", meu "líder": meu avô. Sem pai e com um péssimo padrasto, eu enxergava meu avô como a única fonte de nutrição, amor, carinho e validação emocional. Mesmo sendo um alcoolista e alvo de piadas e pessoas que julgavam, ele era uma figura que eu admirava e respeitava. Quando ele escolheu ir morar longe de nós, quando ele se isolou certamente porque se sentia um fardo e tinha muitos problemas devido ao alcoolismo em estágio avançado,  eu sofri uma perda terrível. Foi como se ele estivesse morto (e quando ele morreu de verdade, foi como se tivesse morrido pela segunda vez). Lobos sentem o luto, e sofrem também, é uma verdadeira tragédia quando um lobo morre na matilha, e se forem os líderes, o bando pode ser desfeito. A morte é impactante para qualquer ser vivo. Meu avô foi para tão longe que eu tinha certeza de que nunca mais voltaria a vê-lo, portanto era mesmo uma espécie de morte. Foi a primeira vez que me percebi como um lobo solitário. 

Em casa, sozinha, tudo o que eu conseguia sentir, desde muito pequena era o vazio e o sentimento de não pertencimento. Após os nove ou dez anos, as pessoas passaram a ficar ameaçadoras para mim. Como se eu, de repente, houvesse sido expulsa do meu bando e fosse condenada a andar sozinha. Havia a desconexão interna, a falta do meu avô e não ter mais com quem contar para ter esperança, carinho, nutrição. Eu procurei me encaixar em diversos grupos, mas sem sucesso. A idade e os traumas só pioravam a situação. Era como se eu, além de um lobo solitário, fosse alguém marcado, desprezível. Sim, eu era diferente da maioria. Eu era reservada e desconfiada demais - igual um lobo. Eu procurava o meu bando, minha família, pessoas que compreendessem ou ajudassem a me fazer entender o que estava acontecendo comigo, mas, que acima de tudo me restaurassem o sentimento de pertencimento. 

Eu procurei muito, mas não achei. E, por obrigação, me tornei o lobo solitário. De alguma forma ou de outra, eu tenho um dom (ironia) para ficar sozinha, um talento (ironia, de novo) para acabar com as minhas amizades, devido a eu ser como sou. Não é uma vida muito agradável, eu tenho que ficar mudando de grupo em grupo, de tempos em tempos, porque, uma hora ou outra eu serei banida. É questão de tempo.  Eu sei que o texto está longo, mas eu preciso explicar. Existe um famoso experimento feito com lobos criados em cativeiros e cães. Os cientistas colocaram a comida em um local que eles jamais poderia alcançar e então observaram seu comportamento. O lobo não parou de tentar, ele não desistiu, mesmo que fosse impossível. O cachorro, após algumas tentativas, parou e olhou para o humano com aquela expressão de "me ajuda". Lobos não podem ser domesticáveis, o seu instinto é selvagem. Cães tem um pouco de lobo. Eu também. Eu não desisto mesmo quando tudo em mim aponta para desistência. Existe mesmo uma força de lobo dentro de mim que me impulsiona a viver, seguir em frente, mesmo que tudo esteja desabando. 

Eu não encontrei meu bando, minha matilha ainda, mas ás vezes eu entro na matilha de outras pessoas e é bom testemunhar laços familiares, conversas amigáveis, aquele ar de conforto e aceitação que a gente, como ser humano, sabe fazer tão bem. Eu gosto de observar, de fazer parte por um momento, mas depois eu vou embora. Nem sempre eu vou, ás vezes eu fico, mas, frequentemente a distância, o tempo ou minhas atitudes confusas fazem com que as pessoas me deixem. Muitas vezes penso que o problema sou eu, algumas vezes - ultimamente - percebo que não há nada de errado comigo, eu apenas sou diferente e isso assusta, incomoda, afasta. Eu me importo com isso... e ainda estou buscando meu grupo. Talvez eu nunca ache, talvez seja apenas um simbolismo, eu não sei. 

Eu tenho essa mania estranha de não desistir, de insistir, teimar, em não deixar a vida escapar tão fácil assim. Eu também nunca paro de tentar. Por isso, me identifico tanto com lobos. Eles são uma metáfora de tudo que aconteceu comigo de bom e de ruim, e acima de tudo são a certeza de que um dia eu vou ter de volta a sensação de pertencimento. 



6 comentários:

  1. Lindo texto, Michele! Você escreve muito bem. Também me sinto como um lobo solitário muitas vezes, até mesmo entre escritores, onde teoricamente deveria me sentir 'aceito', nem sempre me encaixo.
    Não desista. ♥

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    1. Obrigada por comentar e pelas palavras!!! <3

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  2. Ai,Michele!!!Ameiiii!!!Posso não fazer parte da sua matilha(?),se tiver alguma em vista,mas,com certeza,sou 'um outro lobo solitário' que vc encontrou!Será que se dão bem,os lobos solitários qdo se encontram?bem,de minha parte,sinto que sim!Um beijo enorme!!!

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    1. Os "lobos solitários" costumam se dar muito bem, por isso que adoro você!!! Beijo e obrigada por comentar!

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  3. Estou no tratamento contra a depressão há alguns anos e é sempre bom ler informações e coisas motivacionais em blogs, vídeos.. sempre bom saber que até mesmo na dor, não estamos sozinhas.. No meu caso, comecei a fazer exercicios físicos acompanhados da minha medicação para ver se me sentia melhor. Isso tem me ajudado muito, mas como os remédios são bem caros eu consegui achar um programa que dá descontos em remédios prescritos por médicos. Chama MaisPfizer e eu acho que é bom deixar essa dica aqui, pq eu sei que os tratamentos são caros mesmo.. Boa sorte a quem quer que esteja enfrentando essa batalha www.maispfizer.com.br

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    1. Obrigada pela dica!! Não conhecia esse programa! =)

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