sexta-feira, 9 de junho de 2017

Uma conversa franca sobre meu trauma



Transtorno do Estresse Pós Traumático

Eu serei breve e direta: eu sofri assédios sexuais e um estupro. Não existe outro nome para o que aconteceu naquela época, e não há motivos para não falar sobre isso. Eu já me silenciei por tantos anos, guardando esse segredo dentro de mim como se eu tivesse cometido um grande erro e tivesse de ser punida por isso, enquanto outra pessoa o cometeu e jamais foi punida. Isso aconteceu há treze anos atrás, mas ainda parece que foi ontem. Nem toda a terapia de exposição ao qual fui submetida foi capaz de extirpar as lembranças que tiveram de ser reprimidas de qualquer forma. 

Eu não tive opção. Eu não podia falar nada para ninguém. Eu não sabia nem que precisava pedir ajuda. Um manipulador sabe o que tem que fazer, dizer e como ameaçar, ele conhece os seus pontos frágeis e os usa contra você. Quando você entra em uma relação, você fica vulnerável, exposto, aberto, e existe uma troca, existe amor fluindo de um lado a outro, dedicação, carinho, reciprocidade... um manipulador se aproveita disso. Não existe relacionamento, só existe ele. Ele quer retirar tudo de você em benefício dele, fazendo você acreditar que há uma relação, e qualquer coisa que der errado (e vai dar) a culpa será sua, porque não se dedicou o suficiente. É um jogo mental. E você não escolhe cair nele. Qualquer pessoa pode cair nele, pois todas as pessoas estão abertas a relacionamentos (exceto se você for um antissocial). 

Infelizmente, eu já tinha o transtorno borderline muito avançado nessa época, devido a série de abusos que eu sofrera no ambiente familiar, e sem tratamento, nem apoio. Eu sabia que eu tinha alguma coisa diferente, que não era uma depressão como um psiquiatra havia dito, pois aqueles remédios que eu havia tomado não funcionavam, na verdade, eles pioravam, mas eu não tinha nenhuma informação, era como tatear no escuro. Eu, claramente, era um grande alvo e não era minha culpa. Eu simplesmente estava sendo vítima de várias situações infelizes ao meu redor que acontecem diariamente com muitas pessoas e, coincidentemente, eu tive o azar de cruzar com um manipulador. Ele me destruiu, fisicamente, e mais ainda, psicologicamente. Foram alguns dos piores meses da minha vida. Foi como se rompesse um fio muito fino de toda a esperança que me mantinha acreditando na vida. 

Eu entrei em delírios cada vez maiores, alucinações, paranoias, e dissociações tão fortes que haviam personalidades distintas (e claro, que fui acusada de mentir e blá blá blá e claro que eu me sinto culpada até hoje!). Em um momento, eu não sabia mais o que era realidade e o que era fantasia. Meu corpo e minha mente pareciam mesmo duas coisas distintas, separadas e eu estava com medo de me perder para sempre. 

Eu me vi tendo como única opção o isolamento. Não tinha mais amigos, pois eles me achavam uma louca que inventava histórias (devido a cisão de personalidade) e eu mesma me culpava por achar que eu era uma grande psicopata. Eu me culpava pelo abuso, me culpava por tudo. Eu só queria me isolar para sempre. De alguma forma (desespero?), eu reprimi todas aquelas memórias em algum lugar escuro da minha mente e prometi a mim mesma nunca mais falar ou pensar sobre aquilo. Só que não. 

Gatilhos são poderosos. Traumas são traumas. Todas as vezes que alguém me tocava para me cumprimentar com beijos, abraços ou simplesmente se aproximava, lá estava eu com as lembranças de todos os assédios sofridos na vida (ainda acontece). Todas as vezes que eu via algumas cena de sexo na televisão ou alguém mencionava a palavra "estupro", eu tremia por dentro, e me lembrava do que havia acontecido (não acontece mais, devido a terapia). Os gatilhos fazem da minha vida uma prisão. Obviamente, isso influência na minha vida, nos meus relacionamentos, e apesar de saber que esse sintomas são comuns em vítimas de abuso sexual, eu ainda sinto um pouco de culpa pela reação das outras pessoas. É muita pressão!

A minha mente teve que ligar o "sobreviva a qualquer custo" desde muito cedo. Negligência, falta de cuidado primário, assédio sexual do padrasto, pai ausente, o distanciamento do meu avô, várias mudanças de casa (para alguém com borderline isso é terrível), bullying, falta de apoio emocional nos momentos chaves da adolescência, e claro, um transtorno mental que eu não compreendia. Eu pensei em me matar a primeira vez aos sete anos de idade. Minha mente foi obrigada a ligar o instinto de sobrevivência muito cedo. Eu fiz o melhor que eu pude com o pouco que eu tinha. E eu considero que eu tive sorte pois eu ainda tive um pouco, tem pessoas que não tem nada. Quando você tem que sobreviver a qualquer custo, não interessam as regras, etiquetas, a educação, essa "pressão social". Isso é irrelevante. Você só precisa sobreviver (mesmo que sua mente insista na sua morte!). 

Eu compreendo que somos seres sociais, mas alguns de nós não tem tanta sorte quanto os outros. Meu cérebro ficou danificado e eu não consigo ver as coisas do mesmo jeito que a maioria. É só isso. Eu sou diferente. Não me sinto a vontade com toques, abraços e beijos de qualquer pessoa. Isso incomoda, porque causa gatilhos. Tente imaginar que cada vez que isso acontece, eu lembro o que aconteceu comigo. Não é questão de me fazer de vítima, é questão de realidade, de ser prática. Eu tenho uma regra para esse nível de intimidade: sou eu que toco, abraço e beijo, e são apenas pessoas que eu gosto muito. Eu não gosto, nem sou obrigada a gostar de todas as pessoas. Eu não vivo, nem vou viver em falsidade. Mas eu respeito a existência de todo mundo. E se precisar, eu vou falar mesmo se eu não gostar da pessoa e gostaria que ela falasse comigo caso precise. Eu jamais deixaria de estender a mão a ninguém, só por falta de sintonia. Eu só não acredito que dê para agradar todo mundo, nem que sejamos obrigados a fazer um papel teatral. Foi assim que eu percebi o mundo enquanto tentava sobreviver.  

Eu quis compartilhar isso porque eu tenho certeza de que há muitas pessoas que se sentem como eu e que são pressionadas e julgadas pelas outras pessoas simplesmente porque elas não compreendem o quanto um trauma pode ser impactante e danoso e que, ao contrário do que se diz, nem o tempo consegue amenizar. Algumas pessoas desenvolvem estratégias para lidar com isso, e eu sou a favor de que isso seja respeitado. Cada ser vivo nessa terra deve ser respeitado pelo que ele é, desde que ele não machuque ninguém, nem viole a liberdade de ninguém. Tudo tem um motivo, uma explicação e temos a ciência, hoje, nos mostrando isso. Só é necessário mais empatia, amor e um pouquinho de aceitação, para que possamos conviver em paz e harmonia, sem tantos julgamentos desnecessários. Um trauma não é uma frescura, é uma ferida tão profunda que vai deixar uma marca que você jamais vai esquecer e isso já é muito para qualquer pessoa ter de lidar. Dê espaço e amor a ela, acredite que ela está fazendo o máximo para superar - e por favor, jamais desista dela, assim como jamais meus amigos e familiares desistem de mim (isso faz toda a diferença!).


 

4 comentários:

  1. Admiro sua força e sua coragem, Michele!
    Obrigado por compartilhar.

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  2. Oi,Michele!Como vc é corajosa,inteligente,sincera e amorosa!!!Por essas e outras é que gosto tanto de vc e respeito!Escreva sim,põe pra fora,diga tudo ,dessa maneira franca e honesta.Todas as pessoas deveriam ler!E aprender com vc!Um beijo grande,querida!!!Marilene

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    Respostas
    1. Oi Marilene! Que legal ver você por aqui!!! Obrigada por comentar, bjo.

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