segunda-feira, 10 de julho de 2017

2 anos de tratamento e uma história

Hoje eu vou contar a historia de alguém muito relevante no meu tratamento - que completa exatos 2 anos hoje. Ele pode ser um psiquiatra, um psicologo, um terapeuta holístico, um filosofo ou um amigo meu. Um desses papeis é o que ele realmente exerce, mas, para mim, ele é um pouco de tudo isso e muito mais. É com a ajuda dele que eu aprendi e aprendo o valor do não julgamento, que viver o presente é o mais importante e que a compaixão é o meu estado natural. 

A primeira vez que o vi, eu pensei "será que eu não o conheço de algum lugar?", mas, como eu estava tao imersa em dor, caos e confusão, eu achei que tivesse algo a ver com a idealização. Se você tem borderline, você sabe como é, a gente acabou de conhecer a pessoa e já a considera "a mais legal", "a mais inteligente", "melhor pessoa do mundo". Isso também aconteceu comigo em relação a ele, mas eu, me esforçava ao máximo para não demonstrar, criando uma mascara de durona, insensível e até mesmo rude de vez em quando. Eu precisava proteger meus sentimentos, pois em todos meus relacionamentos anteriores, demonstrar a intensidade dos meus sentimentos me levava a ser machucada, mal interpretada ou excluída. Até então, eu achava que todas as pessoas reagiam iguais, porque ele seria diferente? Seria questão de tempo até eu ver que, no fundo, ele era igual todos os outros. 

Só para constar, eu tenho uma regra: aguardo quatro meses para descobrir se eu realmente gosto da pessoa ou se apenas estou idealizando (enxergando apenas o lado positivo da pessoa, como se fosse um herói ou salvador). E, para minha surpresa, quatro meses depois, percebi que realmente tinha apreço por ele, mas ao mesmo tempo, sentia imensa raiva. Depois de algum tempo a pessoa segura, inteligente e que sempre tinha uma resposta também se mostrou inconstante, instável e indecifrável. E, para alguém com borderline, esses três últimos aspectos podem levar a mais instabilidade. Não foi diferente comigo, era como se nós dois estivéssemos compartilhando das mesmas emoções, e porque não dizer, era como se os dois se tornassem uma coisa só, uma coisa instável. Eu odiava não compreender, não ter um padrão, e pior do que isso eu não conseguia encaixar aquela relação em lugar nenhuma: amigo? Ouvinte? Profissional? Nada conseguia definir o que estava acontecendo.

O tempo foi passando e eu conheci mais aspectos positivos e negativos em relação a ele, mas o que me comovia era o modo como ele lidava com as coisas do dia a dia - coisas realmente pessoais, que você não conta a qualquer um. Eu não entendia porque ele me contava todas aquelas coisas, porque alguém como ele se abriria daquela forma, sobre sentimentos tão delicados, para uma pessoa como eu? Aos poucos, eu descobri que ele confiava em mim, me arrisco a dizer que até mais do que eu confiava nele.

Eu me mantinha distante, fingindo que não me importava, mas eu estava deixando que, indiretamente, o jeito com que ele lidava com a vida me afetasse no meu dia a dia, no bom e no ruim. Eu comecei a entender, então, que nem todas as pessoas eram iguais, que a vida não era tão preto e branco (tinham dias que eram bem coloridos) e que a maior parte das pessoas não eram desonestas e cruéis. Que, na verdade, se eu quisesse saber como uma pessoa era, eu tinha que ficar vulnerável, exatamente como ele fazia comigo... Quando consegui ultrapassar a minha desconfiança crônica em relação a isso, eu constatei que era real, apesar de ser muito doloroso, ás vezes, ficar vulnerável me permitia ter uma outro olhar sobre a vida... Quando eu me abria e escutava mais do que falava e não esperava retribuição de alguma forma, eu conseguia ter o melhor das pessoas, eu conseguia compreendê-las através dos olhos delas.

Houve momentos que eu não queria mais vê-lo e me decidia em romper a relação, mas, mais uma vez, ele admitia o erro, reparava, se fosse o caso e mudava o comportamento se necessário, me ensinando que sempre há chance de recomeçar se as duas pessoas estiverem dispostas a reconstruir a relação. Eu comecei a entender que não precisava me desculpar a cada cinco minutos, nem me vingar, nem ressentir. Brigas faziam parte de qualquer relacionamento, e havia mais opções além de remoer e me apegar a raiva.

Para resumir, o maior ensinamento que eu tive foi o desapego. Toda aquela conversa insistente sobre viver o agora, enfim começou a fazer sentido. E aprendi, finalmente, que as pessoas fazem o melhor que elas podem com o que elas tem, que o importante é a intenção e não o ato em si (a maioria das coisas dolorosas que as pessoas fazem no dia a dia não é intencional, assim como acontecia entre nós dois) e que julgar levava a frustração e preocupações,sendo que a melhor opção era ouvir, apenas ouvir, vivendo o agora, sem me apegar aos julgamentos que passassem pela minha mente.

Eu perdi o medo de ficar só (quem tem borderline, sabe como isso parece horrível!), porque comecei a apreciar minha companhia. Mas, se depois de todas aquelas brigas e de ele ver como eu realmente sou, ele não fugiu, nem julgou (ao contrário, ele ficou do meu lado e me ajudou), então eu não era uma pessoa ruim, nem difícil, eu só tinha uma doença difícil. E por isso, estou aprendendo a viver de bem comigo mesma. Não é fácil, mas eu sei que é possível. 

Eu sei que ainda não estou tão bem quanto eu gostaria, mas eu já melhorei muito e eu não teria conseguido sem a ajuda dele, sem esse relacionamento tão complicadinho no inicio, mas que se transformou em amor (no sentido fraternal) no meio do caminho, igual o processo de metamorfose da borboleta.

Eu já o vi como herói, depois como vilão, alguém que não era confiável, uma pessoa inconstante, agora eu o vejo como o humano que ele é. Um homem sensível, cuidadoso, inteligente, mas cheio de defeitos também, como todas as pessoas são, como eu sou. Talvez ele não saiba, mas ele me ajudou a mudar algo que eu acreditava ser impossível graças a quem ele é. E por isso serei eternamente grata.


4 comentários:

  1. Olá Michele, fico muito feliz por você, de coração. Cconsgui alguém para me ajudar na criação do site voltado para TPB, passei alguns artigos científicos para que ele possa estudar o aasunto, e já está trabalhando para criação do logo e identidade visual. Abraço e espero seu retorno.

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    1. Olá, Eduardo, obrigada por comentar! Te enviei um e-mail ontem! Abraços.

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  2. No momento estou ajudando minha filha a lidar com o diagnóstico e a enfrentar esse complexo transtorno e ainda com o rompimento de uma linda paixão adolescente. Quando encontrei teu blog estava procurando alguma cura mágica e que no futuro ela estivesse bem como qualquer pessoa normal e me deparo com esse depoimento lindo que trouxe esperança. Gosto muito de tuas postagens e li quase todas.

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    1. Muito obrigada, fiquei muito emocionada com o seu comentário!! A melhora é difícil, trabalhosa, mas que vale muito a pena, eu achava que não fosse possível, e aqui estou eu, cada vez indo mais longe! Beijos e gratidão.

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