quinta-feira, 6 de julho de 2017

Pelo direito de sentir (e expressar) raiva




Há quase um mês eu não tomo mais a medicação para estabilização do humor. Eu, agora, posso dizer que, finalmente, estou em remissão de sintomas do borderline. Isso quer dizer, que, eu preenchia todos os nove critérios que definem a doença, agora eu preencho, ao menos, seis. É uma redução e tanto para alguém que jamais imaginou que isso pudesse acontecer.

Esse fato não significa que eu sou uma pessoa "curada", mas demonstra que é possível melhorar - e superar - dos sintomas mais graves. Os dias não ficaram melhores, nem mais felizes, eu não me tornei uma pessoa positiva o tempo inteiro, eu não fico falando frases de afirmação para todo mundo. Os dias continuam os mesmos, com suas facilidades e dificuldades, com todo o bom e ruim da vida. O que mudou foram as minhas respostas aos eventos externos. Hoje, eu me considero com muita mais controle do que antes. Eu não permito ser levada pelas emoções, eu que as conduzo a maior parte do tempo. É claro que há momentos de descontrole, mas é importante eu dizer que qualquer pessoa tem esses momentos de descontrole. Muitas pessoas sofrem com o estresse e as pressões do dia a dia, e, exatamente por isso elas acabam tendo alterações nas emoções, muitas vezes afetando a saúde física. Eu não me tornei diferente disso, eu sofro de dor crônica por causa de duas hérnias de disco, uma na lombar e outra na cervical, e isso me causa muito estresse, que altera meu humor alguns dias. 

O único problema de ter borderline e estar melhorando é que, na minha experiência, as pessoas esperam que você reaja do mesmo jeito de antes, principalmente ao que diz respeito a raiva. Qualquer pequena demonstração de insatisfação ou raiva da nossa parte, as pessoas reagem do mesmo jeito que antes, esperando que você se descontrole, tenha um surto, seja abusivo verbalmente ou fisicamente, chore por horas sem parar ou faça algum comportamento autodestrutivo. É frustrante, eu não vou mentir, é até doloroso. Mas você não agia dessa forma porque queria, você agia assim porque não tinha outra opção a não ser levar-se pelas emoções. O cérebro jamais disponibilizava outra opção, mesmo que você quisesse - e eu sei que você queria!. Durante muitas brigas e discussões, eu me via, dentro de mim, lutando para reagir de outra forma - e sempre perdendo. Agora, há algum tempo, essa luta simplesmente deixou de existir. Eu consigo compreender, analisar e escolher como reagir e geralmente se eu estiver com raiva, eu não costumo esconder, mas também não me deixo levar por ela.

A raiva é um sentimento natural, humano e compreensível. Todo mundo sente raiva e deve expressá-la adequadamente (quem sabe escrever em um diário, praticar um esporte, jogar no computador, pintar, sei lá, as opções são muitas). O que acontece é que nossa cultura e sociedade - e também um pouco do legado das religiões mais presentes - acha que ter raiva é algo ruim, feio. Na idade média, dizia-se que uma pessoa cheia de raiva era considerada "louca", talvez por isso associamos uma coisa a outra, mas acho que a idade média foi há muito tempo, eles não tinham nem um terço da nossa tecnologia, psicologia e conhecimento sobre o cérebro, portanto está na hora de mudar isso. Uma pessoa realmente boa não deveria sentir algo como a raiva, é o que eles ensinam. Só que não. Bondade não tem nenhuma relação com isso, ela é uma manifestação da empatia e da compaixão. Você pode ser uma pessoa muito boa, e, ainda assim sentir raiva, medo, inveja. A questão é a resposta que você tem. 

Ás vezes, quando começo a discutir com alguma pessoa, ela começa a expressar medo, preocupação e algumas coisas acontecem: ás vezes, elas começam a ficar vingativas em retribuição ao que falei  ou fiz a elas enquanto estava em surto, no passado (o pior é que eu não lembro de nada) ou elas se mantém dizendo "você está alterada, cuidado para não ter um surto", mudando de assunto no mesmo momento, ou ás vezes elas nem começam a falar. Tudo isso é compreensível, mas frustrante. Apesar de eu demonstrar que estou tendo melhoras significativas, parece que não vale muita coisa para algumas pessoas. Eu entendo que, em um passado não muito distante, a convivência comigo não era fácil, mas, de modo algum era proposital ou manipulado (eu não me considerava alguém difícil, mas sim com uma doença difícil - isso poderia ser um bordão, não é?). Eu também sofria bastante por não conseguir controlar. Quase ninguém lembra disso. Eu também entendo que, também por causa da nossa educação, aprendemos que a melhor resposta é o "olho por olho", se alguém te fez algo ruim, você devolve na mesma moeda. Isso não faz o menor sentido, porque se todo mundo for nessa de "olho por olho", no final, todo mundo fica cego. A melhor resposta é o perdão, apesar de que, algumas coisas são mesmo imperdoáveis (crimes terríveis, por exemplo). Mas não somos encorajados a perdoar. É como se isso fosse atributo de pessoas fracas.

Não existe maior pedido de desculpas de alguém do que a mudança de comportamento, e não existe maior prova de amor do que perdoar essa mesma pessoa. Eu já passei por isso, e perdoei justamente por ter visto a mudança. Poucas pessoas querem mudar, elas querem respostas e soluções rápidas (e quem não quer?), mas mudar exige trabalho, paciência e compaixão. É um processo sem fim. Eu admiro muito pessoas que superam seu orgulho, seu medo e abandonam o passado em nome do perdão (das coisas que devem ser perdoadas), e eu tento ser uma dessas pessoas. 

Por outro lado, eu também entendo que as pessoas fiquem ressentidas, com medo e vingativas por coisas do passado. Eu também sou assim com muitos assuntos da minha vida, mas eu tento enxergar todos os dias que a melhor maneira de perdoar é vivendo o presente.

Hoje em dia, em alguma discussão, quando percebo que a pessoa está agindo como se com medo de eu ter um surto ou se vingando por algo do passado, eu paro e analiso a mim mesma: porque vou entrar na raiva? Porque estou com raiva dessa pessoa? O que há de instável em mim que engatilhou a raiva? E, então, aos poucos, eu percebo que a raiva diminui, eu a vi, eu a aceitei, e deixei que ela fosse embora. Eu não espero que a outra pessoa compreenda, nem que pense de outra forma, nem peça desculpas, eu apenas deixo ela expressar e ser o máximo que ela pode naquele momento, eu já estive daquele lado tantas vezes quanto você piscou nas últimas duas horas, portanto eu sei que é muito difícil mudar isso - mas é possível, se eu consegui, eles conseguem, você consegue, basta apenas ficar presente, analisar e conhecer a si mesmo e querer mudar. 


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